Letícia Fagundes | jornalista investigativa
Encontrei Cristina enquanto buscava fontes para minhas reportagens. Por muitos dias visitei seu perfil @cristinapatreque, onde ela conta abertamente como tudo ocorreu. Hoje, adulta, com 25 anos e morando no Brasil, ela estuda odontologia, cuida de idosos e cria conteúdo digital para as redes sociais, onde responde as dúvidas incessantes do público que a segue. São muitas dúvidas, inclusive uma me chamou atenção, que foi “por que mulheres no local onde ela nasceu não se cuidavam e paravam de ter filhos” e Cristina grandiosamente questiona, que um local que não tem nem chinelos, como teria contraceptivos.

Nascida em Chimucono uma localidade rural na província de Manica, Moçambique, África Oriental, aos oito anos de idade, enquanto a maioria das crianças deveria estar frequentando a escola, brincando e descobrindo o mundo, uma menina moçambicana teve a infância interrompida. Cristina Patreque Naite, foi entregue pelo próprio pai e a madrasta, mulheres esta que envenenou e matou sua mãe, em troca de alguns bens de consumo como chinelos, engradados de refrigerante e outros produtos considerados suficientes para selar um acordo entre adultos. Pouco tempo depois, acabou sendo entregue a um homem de 36 anos, após o sogro, inicialmente escolhido para o casamento, recusar a união devido ao seu estado de saúde e a idade avançada entregou ao filho.
Durante quatro anos, Cristina viveu sob violência constante. Sofreu agressões físicas, psicológicas e sexuais, foi privada da liberdade e perdeu completamente a infância. Aos 12 anos, conseguiu fugir, mas novamente a única casa que tinha, a do próprio pai e da madrasta que a vendeu. Graças à ajuda da irmã mais velha, que havia escapado anteriormente e encontrado acolhimento em uma instituição de proteção, Cristina conseguiu sair novamente da casa do pai, homem este que já arrumava ferramentas para seu espancamento se não voltasse ao marido que havia comprado. Cristina não foi a única filha violentada, seu irmão, um menino de 11 anos estava sendo vendido também para casamento.
Sua história, embora extrema, está longe de ser um caso isolado.
Moçambique figura entre os países com as maiores taxas de casamento infantil do planeta. Segundo o UNICEF, 48,4% das mulheres moçambicanas entre 20 e 24 anos foram casadas ou passaram a viver em união antes dos 18 anos, enquanto 12,9% foram unidas antes dos 15 anos. A incidência é ainda maior nas regiões Centro e Norte do país, onde fatores como pobreza, desigualdade de gênero, conflitos armados e normas sociais tradicionais mantêm a prática viva.
Em áreas rurais, o problema é ainda mais grave. Dados internacionais mostram que quase seis em cada dez meninas (59%) das zonas rurais moçambicanas são casadas antes dos 18 anos, contra cerca de 30% nas áreas urbanas.
Em algumas comunidades, o casamento infantil está associado ao pagamento do chamado “lobolo”, um costume tradicional em que a família da noiva recebe bens ou recursos do noivo. Especialistas alertam, entretanto, que práticas culturais não podem servir como justificativa para violações de direitos fundamentais quando envolvem crianças.
O casamento infantil é reconhecido pela Organização das Nações Unidas como uma violação dos direitos humanos. Meninas submetidas a essas uniões apresentam maior risco de abandonar a escola, engravidar precocemente, sofrer violência doméstica, desenvolver problemas de saúde física e mental e permanecer em ciclos de pobreza por toda a vida.
Embora a prática venha diminuindo em algumas regiões do mundo, a África Subsaariana continua concentrando alguns dos maiores índices globais e o progresso ocorre de forma lenta. Atualmente, estima-se que 650 milhões de mulheres vivas hoje foram casadas antes dos 18 anos.

Conflitos e pobreza agravam o problema
No norte de Moçambique, especialmente na província de Cabo Delgado, a crise humanitária provocada pelo conflito armado agravou ainda mais a vulnerabilidade das meninas. Segundo o UNICEF, grupos armados praticam sequestros, enquanto algumas famílias, pressionadas pela pobreza extrema e pelo deslocamento forçado, recorrem ao casamento infantil como estratégia de sobrevivência econômica.
Em 2025, Cabo Delgado concentrava aproximadamente 429 mil pessoas deslocadas internamente, sendo mais da metade mulheres e crianças. A precariedade das condições de vida aumenta significativamente o risco de exploração infantil e de casamentos precoces.
O casamento infantil não ocorre apenas em Moçambique. A prática permanece presente em dezenas de países da África, Ásia, Oriente Médio e também em partes da América Latina. Entre os países que historicamente apresentam altas prevalências estão Níger, Chade, República Centro-Africana, Mali, Sudão do Sul, Burkina Faso, Bangladesh e República Democrática do Congo, embora as causas variem entre pobreza, conflitos, desigualdade de gênero e normas sociais profundamente enraizadas.
Apesar de diversos governos terem endurecido a legislação e ampliado políticas públicas, organizações internacionais alertam que mudanças legais, por si só, não eliminam práticas sustentadas por desigualdades econômicas e culturais.
Para organizações de defesa dos direitos humanos, a resposta é clara: nenhuma tradição pode se sobrepor aos direitos fundamentais de uma criança. O desafio continua sendo transformar esse consenso jurídico em realidade para milhões de meninas que ainda hoje correm o risco de serem privadas da infância antes mesmo de compreenderem o significado da palavra liberdade.
Fique com a entrevista

Você foi casada aos 8 anos após ser vendida pelo seu pai. Como aquela menina de 8 anos entendia o que estava acontecendo e quais lembranças mais marcaram aquele momento?
Naquele momento eu não entendia o significado de casamento. Eu era apenas uma criança. Quando disseram que eu iria embora, imaginei que talvez minha vida fosse melhorar, que finalmente eu pudesse brincar, estudar e fazer amigos. Mas a realidade foi completamente diferente. Descobri que tinha sido vendida e que passaria a viver como uma escrava. As lembranças mais fortes são o medo, o desespero, os gritos pedindo pela minha mãe e a sensação de ter sido abandonada por quem deveria me proteger. Aquela menina perdeu a infância antes mesmo de entender o que era ser criança.
Você já contou que sua mãe foi assassinada e que sua madrasta também tentou matar seus irmãos. Como essas perdas e violências na infância impactaram a sua vida e a mulher que você se tornou?

Perdi minha mãe quando tinha apenas três meses de vida e cresci sem conhecer o carinho dela. Depois vivi muitos anos cercada de violência, humilhações e rejeição. Durante muito tempo acreditei que realmente não tinha valor, porque era isso que ouvia todos os dias. Essas experiências deixaram marcas profundas, mas também despertaram em mim uma força que eu nem sabia que existia. Hoje escolho transformar toda essa dor em propósito. Quero que a minha história ajude outras meninas a acreditarem que existe vida depois da violência.
Em muitos lugares, o casamento infantil é tratado como tradição ou cultura. Na sua opinião, onde termina o respeito às tradições e começa a violação dos direitos humanos?
Toda cultura merece respeito, mas nenhuma tradição pode justificar o sofrimento de uma criança. Quando uma menina perde o direito de estudar, brincar, sonhar e decidir sobre a própria vida, não estamos mais falando de cultura. Estamos falando de violência e de violação dos direitos humanos. Crianças precisam ser protegidas, nunca negociadas.
Você costuma dizer que foi “vendida” em troca de bens como chinelos e refrigerantes. O que essa lembrança representa para você hoje e o que ela revela sobre a forma como meninas são tratadas em algumas comunidades?
Essa lembrança ainda dói muito. Não pelos objetos em si, mas porque mostra que minha vida foi tratada como se tivesse um preço. Eu não fui vista como filha, nem como criança. Fui tratada como uma mercadoria. Infelizmente, isso ainda acontece em algumas comunidades onde meninas são privadas do direito de escolher o próprio destino. Minha história mostra que nenhuma criança deveria ser tratada dessa forma.
Durante anos você sofreu violência física, psicológica e sexual. Em que momento percebeu que precisava fugir e de onde encontrou forças para fazer isso?

Desde muito pequena eu sonhava em fugir. Fiz várias tentativas porque sabia que, se permanecesse ali, poderia morrer. A força veio dos meus sonhos. Eu dizia para mim mesma que um dia estudaria, viajaria de avião e construiria uma vida diferente. Minha fé também foi essencial. Mesmo nos momentos mais difíceis, eu acreditava que Deus tinha um propósito para mim e que minha história não terminaria naquela dor.
Sua irmã mais velha teve um papel fundamental para que você conseguisse escapar. O que ela representa na sua história e qual foi a importância da solidariedade entre mulheres para a sua sobrevivência?
Minha irmã representa esperança. Ela foi a primeira pessoa que acreditou em mim e me ajudou a recomeçar. Além dela, outras mulheres também estenderam a mão quando eu mais precisava. Aprendi que a solidariedade entre mulheres salva vidas. Quando uma mulher decide proteger outra, ela pode mudar completamente o destino de alguém.
Muitas meninas ainda vivem situações semelhantes em Moçambique e em outros países. O que falta para que essa realidade mude de forma efetiva?
É preciso investir na educação, fortalecer as leis e garantir que elas sejam cumpridas. Também é necessário conscientizar famílias e líderes comunitários sobre os direitos das meninas. Além disso, quem consegue fugir precisa encontrar apoio, acolhimento e oportunidades para reconstruir a própria vida.

Há quem diga que pessoas de fora não deveriam criticar o casamento infantil ou outras práticas porque fazem parte da cultura local. O que você responderia a quem usa esse argumento?
Eu responderia que ninguém conhece melhor essa realidade do que quem viveu nela. Eu vivi essa violência. Sei o que acontece por trás dessa prática. Respeitar uma cultura nunca pode significar aceitar que crianças tenham sua infância roubada. Direitos humanos existem para proteger todas as pessoas, independentemente do lugar onde nasceram.
Depois de tudo o que viveu, como foi reconstruir sua identidade, sua autoestima e sua capacidade de confiar nas pessoas? O que ainda é mais difícil nesse processo?
Foi um caminho longo e doloroso. Durante anos eu acreditava que não era bonita, inteligente ou capaz. Aos poucos fui descobrindo meu verdadeiro valor através dos estudos, do trabalho e das pessoas que acreditaram em mim. Ainda existem feridas que fazem parte da minha história, e confiar totalmente nas pessoas continua sendo um desafio. Mas hoje sei que meu passado não define quem eu sou nem limita o meu futuro.
Se você pudesse falar diretamente com líderes comunitários, autoridades e famílias que ainda permitem ou incentivam casamentos infantis, e também com meninas que vivem essa realidade hoje, qual seria a sua mensagem?
Às famílias e aos líderes, eu peço que olhem para as meninas como seres humanos e não como objetos de troca. Protejam suas filhas. Invistam na educação delas. Uma menina merece crescer em liberdade, com dignidade e oportunidade para construir seu próprio futuro.
Às meninas que vivem essa realidade, quero dizer que vocês não estão sozinhas. Eu sei o quanto dói, porque passei por isso. Nunca deixem de acreditar que existe uma saída. Vocês têm valor, têm direitos e merecem viver sem violência. Hoje eu estou viva para provar que é possível sobreviver, recomeçar e transformar a dor em esperança. Minha história não terminou no sofrimento, e a de vocês também não precisa terminar. Que nunca deixem de sonhar, porque um sonho pode ser o primeiro passo para a liberdade.

