Por Letícia Fagundes Jornalista investigativa
Profissionais que combinam formação universitária e domínio da inteligência artificial tendem a ocupar as posições mais valorizadas e bem remuneradas do mercado de trabalho. Ao contrário das previsões de que a IA tornaria o diploma universitário obsoleto, os estudos mostram o oposto: a graduação continua sendo um diferencial importante, mas ganha ainda mais valor quando aliada à capacidade de aplicar a inteligência artificial para inovar, aumentar a produtividade e apoiar decisões estratégicas.
Empresas que pensam no futuro estão buscando um perfil mais específico: profissionais que aliem sólida formação acadêmica, experiências, à capacidade de utilizar ferramentas de inteligência artificial para aumentar produtividade, inovação e qualidade na tomada de decisões.
Essa mudança é confirmada por pesquisas de consultorias, institutos de pesquisa e organismos internacionais, que apontam uma aceleração na demanda por trabalhadores capazes de integrar conhecimento técnico às novas tecnologias.
A Global AI Jobs Barometer 2026, da PwC, que analisou mais de 1 bilhão de anúncios de emprego em 27 países. O estudo concluiu que as vagas que exigem competências em inteligência artificial estão crescendo quase oito vezes mais rápido do que o mercado de trabalho em geral: 69% de crescimento, contra 9% das demais ocupações.
Além da maior oferta de oportunidades, o domínio da IA já tem impacto direto na remuneração. Segundo a PwC, profissionais que possuem habilidades em inteligência artificial recebem, em média, 62% mais do que trabalhadores que exercem funções semelhantes, mas sem esse conhecimento.
O levantamento também derruba uma das principais preocupações sobre a automação: a substituição em massa de trabalhadores. Os dados mostram que empresas mais avançadas na adoção de inteligência artificial registraram crescimento médio de 52% em seus quadros de funcionários, enquanto organizações menos expostas à tecnologia cresceram 36%. Na prática, isso indica que a IA tende a aumentar a demanda por profissionais qualificados, e não simplesmente eliminar postos de trabalho.
Competências humanas ganham ainda mais importância
Paralelamente ao domínio tecnológico, cresce a valorização das chamadas competências humanas.
Segundo a PwC, as funções mais expostas à inteligência artificial passaram a exigir habilidades como pensamento crítico, criatividade, liderança, capacidade analítica e julgamento estratégico. Nas vagas de entrada, cargos impactados pela IA apresentam hoje sete vezes mais probabilidade de exigir competências antes associadas apenas a profissionais experientes.
A edição de 2025 do mesmo estudo já havia identificado outra tendência importante: as competências exigidas pelos empregadores estão mudando 66% mais rapidamente nas ocupações mais afetadas pela inteligência artificial. Naquele levantamento, profissionais com habilidades em IA já recebiam um prêmio salarial médio de 56%, evidenciando que o valor econômico desse conhecimento continua em expansão.
Outro dado que reforça a transformação do mercado vem do Indeed Hiring Lab. Pesquisa divulgada em 2026 mostra que 63% das vagas relacionadas à inteligência artificial já estão fora do setor de tecnologia.
A demanda se espalhou por áreas como marketing, saúde, educação, recursos humanos, finanças, direito, comunicação, engenharia e gestão. Em comum, essas profissões passaram a buscar trabalhadores capazes de incorporar a IA em atividades como análise de dados, produção de conteúdo, automação de processos, planejamento estratégico e apoio à tomada de decisões.
Na avaliação dos pesquisadores, o conhecimento em inteligência artificial tornou-se uma competência transversal, cada vez mais valorizada em diferentes segmentos da economia.
O Instituto Mulheres Jornalistas conversou com duas profissionais que estão diariamente na linha de frente dessa realidade, a CEO e Cofundadora da Sociedade Brasileira de Inovação SBI, Helena Levorato e a Mariana Vargas, especialista em Inteligência Artificial da Global Tech Institute.
Fique com as entrevistas
Especialistas apontam que nos próximos anos, as empresas devem priorizar profissionais que aliem formação universitária, capacidade de aprendizado contínuo e domínio das novas tecnologias, especialmente da IA. Para explicar esse cenário e como ele deve impactar contratações, salários e oportunidades de carreira, a reportagem conversou com Helena Levorato, graduada em Marketing e especialista em desenvolvimento humano e comportamento organizacional. Ela possui especializações em Gestão Estratégica de Pessoas (HSM University), Psicologia Organizacional (Universidade Anhembi Morumbi) e Neurociência (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo), além de certificações internacionais em Psicologia Positiva, Coaching Executivo e Análise de Perfil Criativo.
IMJ-Por que as empresas devem priorizar, nos próximos anos, profissionais que aliem formação universitária ao domínio da inteligência artificial?
A formação universitária sempre vai ser importante porque ajuda a construir repertório, pensamento crítico e a desenvolver uma visão mais técnica, além de uma ampla capacidade de análise. Mas, nos próximos anos, só isso não será suficiente, porque a inteligência artificial chegou para mudar todo o nosso sistema de trabalho.

Ela já transformou a nossa rotina, o modo como analisamos as informações, acelerou a produtividade, as pesquisas e automatizou muitas tarefas repetitivas. Isso também tem apoiado a tomada de decisões nas empresas, tornando esses processos mais rápidos.O profissional que une uma boa formação acadêmica ao domínio da IA entrega mais valor de forma mais veloz e precisa. Sabemos que o mundo se transforma com muita rapidez, por isso é importante que o profissional tenha capacidade de olhar para os problemas e pensar em soluções com agilidade, porque amanhã tudo muda novamente: surgem novas oportunidades e novos desafios.
Esse perfil, que reúne essas competências, será estratégico porque não apenas executa tarefas, mas consegue repensar processos, propor novas soluções e aumentar a produtividade e a capacidade de inovação das empresas.
IMJ-De que forma o conhecimento em inteligência artificial pode tornar um profissional mais competitivo e disputado no mercado de trabalho?
Hoje, o conhecimento em inteligência artificial torna o profissional mais competitivo porque ele trabalha com mais eficiência, produtividade e inteligência. Ele aprende a administrar melhor seus recursos, como tempo e energia, agilizando processos e resolvendo problemas com mais rapidez e qualidade.
Independentemente da área de atuação, seja Direito, Saúde, Educação ou Recursos Humanos, a inteligência artificial contribui para organizar informações, gerar ideias e ampliar a capacidade de análise.O maior diferencial do profissional que utiliza IA é justamente potencializar seus resultados. Ele toma decisões mais assertivas porque tem mais dados para comparar, uma visão mais ampla e maior capacidade de resolver problemas.
Esse profissional deixa de apenas executar tarefas para potencializar resultados diariamente. Produz melhor, aprende continuamente e amplia seu repertório conforme as necessidades da empresa. Isso pesa muito no mercado atual. As empresas valorizam profissionais que sabem utilizar essas ferramentas, adaptam-se rapidamente às novas tecnologias e conseguem transformá-las em soluções concretas, novos produtos ou novos serviços.
IMJ-A formação superior continuará sendo suficiente ou a inteligência artificial será indispensável?
A combinação entre conhecimento e aplicação prática será cada vez mais valorizada. Esse movimento já aconteceu com outras tecnologias, como o Pacote Office, a internet e diversas ferramentas digitais, que passaram a ser indispensáveis no mercado de trabalho. Com a inteligência artificial acontecerá o mesmo. Ela se tornará uma exigência básica em muitas áreas. Quem dominar essa competência terá mais chances de conquistar melhores oportunidades, crescer mais rapidamente, assumir funções estratégicas e negociar melhores salários.
IMJ-Quais setores sentirão primeiro essa valorização de profissionais com ensino superior e conhecimento em IA?
Acredito que os primeiros setores a sentir essa valorização serão aqueles que lidam com grande volume de informações, dados e processos, como tecnologia, setor financeiro, jurídico, seguros e Recursos Humanos. Isso acontece porque essas áreas já dependem de muita análise, produtividade e inovação. Na Saúde, por exemplo, a IA pode apoiar diagnósticos, melhorar a gestão hospitalar e acelerar pesquisas. No setor financeiro, ajuda na análise de riscos, na prevenção de fraudes e na compreensão do comportamento do consumidor.
Cada setor será impactado de forma diferente, mas todos terão ganhos relevantes nos resultados, na eficiência operacional e na qualidade das decisões.Por isso, onde houver muita informação para analisar e muitas decisões para tomar, o profissional que domina a inteligência artificial tende a ser mais valorizado.
IMJ-Quais competências as empresas tendem a procurar em profissionais que utilizam IA e como isso pode influenciar promoções, remuneração e processos de contratação?
O que tenho observado é que as empresas procuram profissionais capazes de utilizar a inteligência artificial sem perder o pensamento crítico e a criatividade. Quem usa a IA como complemento, aliada e extensão do próprio conhecimento terá mais oportunidades de crescimento, contratação e promoção.
Esses profissionais não utilizam a IA apenas para validar informações ou compreender um contexto. Eles conseguem fazer perguntas mais estratégicas, interpretar melhor os resultados, validar as informações e compreender os limites éticos da tecnologia. Existem limites que ainda dependem do julgamento humano. Por isso, competências como criatividade, pensamento crítico, liderança, comunicação e ética continuarão sendo diferenciais importantes.
Quem simplesmente delega tudo à inteligência artificial e deixa de desenvolver essas habilidades humanas perde vantagem competitiva.Vai se destacar quem continuar investindo no próprio desenvolvimento, mesmo com ferramentas que tornam o trabalho mais rápido e eficiente. O profissional que compreender a importância do aprendizado contínuo, mantendo um processo permanente de evolução, o chamado lifelong learning, terá maiores chances de conquistar melhores oportunidades e construir uma carreira mais sólida no mercado.
A inteligência artificial vem transformando rapidamente o mercado de trabalho e ampliando a busca por profissionais capazes de combinar formação acadêmica com domínio das novas tecnologias. A tendência é que a IA deixe de ser apenas um diferencial para se tornar uma competência essencial em diferentes setores da economia. Para analisar esse cenário, a reportagem conversou com Mariana Vargas, especialista em Inteligência Artificial da Global Tech Institute. Graduada em Análise de Sistemas, ela explica como a inteligência artificial deve influenciar as contratações, a valorização profissional e as exigências do mercado nos próximos anos.
IMJ-Por que as empresas devem priorizar, nos próximos anos, profissionais que aliem formação universitária ao domínio da inteligência artificial?

Mariana Vargas–Hoje a formação superior continua sendo importante porque ela dá a base teórica, o pensamento crítico e a capacidade de análise, mas sozinha não é mais suficiente. As empresas estão priorizando quem consegue unir esse conhecimento acadêmico ao domínio prático de ferramentas de inteligência artificial, porque esse profissional entrega resultados mais rapidamente, toma decisões melhores e consegue automatizar tarefas que antes tomavam horas. Ou seja, é a combinação entre saber pensar e saber usar a tecnologia a favor do trabalho que faz a diferença.
IMJ- De que forma o conhecimento em inteligência artificial pode tornar um profissional mais competitivo e disputado no mercado de trabalho, independentemente da área de atuação?
Mariana Vargas–A inteligência artificial funciona como um multiplicador de produtividade. Um profissional que sabe usar IA consegue fazer, em menos tempo, o que antes exigia uma equipe inteira ou entregar análises muito mais profundas em menos tempo. Isso chama a atenção das empresas porque, no fim do dia, elas estão buscando eficiência e resultados. Então, quem domina essas ferramentas se destaca dos colegas, ganha mais visibilidade dentro da empresa e passa a ser visto como alguém estratégico, e não apenas operacional.
IMJ- A formação superior, sozinha, continuará sendo suficiente ou a inteligência artificial passará a ser uma competência indispensável para quem busca melhores oportunidades e salários?
Mariana Vargas–Eu diria que só a formação acadêmica já não é mais suficiente. Ela continua sendo a base, o alicerce, mas o mercado está exigindo cada vez mais que essa base venha acompanhada de competências digitais e, principalmente, do domínio da inteligência artificial. Nos próximos anos, acredito que saber usar IA vai deixar de ser um diferencial e se tornará um requisito básico, assim como hoje é básico saber usar um computador ou o pacote Office.
IMJ-Quais setores da economia devem sentir primeiro essa valorização de profissionais com ensino superior e conhecimento em inteligência artificial, e por quê?
Mariana Vargas–Tecnologia é o setor mais óbvio, mas está longe de ser o único. Setores como saúde, financeiro, varejo, marketing e até o jurídico já estão correndo atrás de profissionais que saibam aplicar IA no dia a dia, seja para automatizar processos, analisar grandes volumes de dados ou melhorar a experiência do cliente. Ou seja, essa demanda não é mais exclusiva de quem trabalha com tecnologia. Ela está se espalhando por praticamente todas as áreas da economia.
IMJ-Quais competências as empresas tendem a procurar em profissionais que utilizam inteligência artificial, e como isso pode influenciar promoções, remuneração e processos de contratação?
Mariana Vargas–As competências mais valorizadas hoje envolvem pensamento analítico, capacidade de resolver problemas com apoio de ferramentas de IA e também flexibilidade para aprender rapidamente, porque a tecnologia muda o tempo todo. Quem tem esse perfil sai na frente nos processos seletivos, consegue negociar salários melhores e tem um caminho de crescimento mais rápido dentro das empresas. Já quem não se atualiza corre o risco de ficar para trás, mesmo tendo um diploma de peso. Por isso, a atualização constante deixou de ser opcional e passou a fazer parte da rotina de quem quer se manter competitivo.

