Por André Silva | Jornalista
Telemedicina e telepsiquiatria consolidam novo modelo de assistência no Brasil, diminuindo abandono de tratamentos e facilitando a vida de pacientes que enfrentam barreiras para sair de casa
Para muitos brasileiros, uma consulta médica começa horas antes de entrar no consultório. O trajeto, o trânsito intenso, a dificuldade para estacionar, a espera em salas lotadas e até os estímulos sonoros podem transformar um simples atendimento em uma experiência desgastante.
Essa realidade é ainda mais intensa para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), transtornos de ansiedade, síndrome do pânico, limitações físicas, doenças crônicas, idosos e pacientes que dependem de familiares para se deslocar.
Nos últimos anos, a telemedicina deixou de ser uma solução emergencial criada durante a pandemia para se tornar uma das maiores transformações da assistência em saúde no Brasil. Dados do Ministério da Saúde mostram que o Sistema Único de Saúde (SUS) já realizou mais de oito milhões de atendimentos por Telessaúde, alcançando quase três mil municípios brasileiros. A modalidade vem reduzindo filas, aproximando especialistas de regiões distantes e garantindo continuidade aos tratamentos.
Para compreender os benefícios, os limites e o futuro desse modelo de assistência, a reportagem ouviu dois especialistas. O médico psiquiatra forense Dr. Eliel Alves, especialista também em medicina do trabalho, medicina da dor e anestesiologia, analisa os impactos da telepsiquiatria na saúde mental, seus desafios e as situações em que o atendimento presencial continua indispensável. Já o psicólogo Alan Lima, do Serviço de Psicologia Aplicada (SPA), vinculado ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), explica como a telemedicina tem ampliado o acesso ao cuidado.
IMJ-Quais são as principais vantagens do atendimento psiquiátrico remoto para pacientes e profissionais de saúde?
Dr. Eliel Alves-Para os pacientes, a telepsiquiatria oferece maior conforto emocional, permitindo que a pessoa realize a consulta em seu ambiente seguro.Há uma otimização significativa de tempo, eliminando gastos e o estresse com deslocamentos no trânsito das cidades.Para o psiquiatra, a modalidade proporciona maior flexibilidade de horários e melhor gerenciamento da rotina diária.Permite também expandir o alcance do consultório, viabilizando o atendimento de pacientes de diversas localidades.A facilidade na emissão e no recebimento de receitas digitais otimiza a adesão contínua ao tratamento prescrito.Por fim, o modelo reduz as taxas de absenteísmo, mantendo a assiduidade e a eficácia do vínculo terapêutico.

IMJ-De que forma as consultas online ampliam o acesso ao tratamento para pessoas que enfrentam dificuldades de deslocamento ou vivem em regiões com poucos especialistas?
Dr. Eliel Alves-A telepsiquiatria atua como uma ferramenta de democratização ao romper barreiras geográficas que isolam os pacientes.Moradores de cidades do interior passam a ter acesso direto a médicos especialistas de grandes centros urbanos.A modalidade anula os custos financeiros elevados e o desgaste físico de viagens longas para fins de consulta.Pacientes com limitações físicas ou de mobilidade reduzida conseguem manter o acompanhamento sem sofrimento logístico.O modelo diminui a sobrecarga das filas de espera locais e acelera o início das intervenções terapêuticas necessárias.
IMJ-Em casos mais complexos, quais são os limites e as possibilidades do acompanhamento psiquiátrico remoto?
Dr. Eliel Alves-As possibilidades envolvem o acompanhamento recorrente e longitudinal das intervenções precoces, permite ajustes rápidos de dosagem medicamentosa e um suporte contínuo que fortalece a aliança com o paciente.Contudo, os limites tornam-se claros na impossibilidade de realizar um exame físico geral ou neurológico minucioso.A avaliação do comportamento não verbal fica restrita ao que é captado dentro do enquadramento da câmera.Elementos cruciais da psicomotricidade, da postura global e da marcha do indivíduo tornam-se difíceis de analisar.Há também restrições regulatórias para a emissão digital de notificações de receita de cor amarela ou azul, o que inviabiliza a prescrição de alguns fármacos para manejo de situações de emergências
IMJ-Quais são os principais desafios da telepsiquiatria, especialmente no acompanhamento de pacientes com quadros mais complexos?

Dr. Eliel Alves-O principal desafio clínico é o manejo seguro de crises agudas ou de ideação suicida ativa à distância.A ausência do contato físico pode mascarar sinais e sintomas importantes.Garantir o sigilo das informações exige o uso de plataformas específicas que assegurem a proteção dos dados.Instabilidades na conexão de internet podem interromper momentos de grande relevância clínica durante a sessão.Identificar fenômenos de dissimulação ou de manipulação dos sintomas torna-se mais complexo no ambiente virtual.Pacientes que apresentam grave prejuízo cognitivo ou quadros demenciais podem manifestar forte recusa à tela.A resistência cultural de alguns indivíduos ao modelo digital ainda configura um obstáculo para a adesão.
IMJ-Existem situações em que o atendimento presencial ainda é mais indicado do que o remoto? Quais são elas?
Dr. Eliel Alves-O atendimento presencial é indispensável em situações de emergência psiquiátrica, como em agitação psicomotora ou surto psicótico ativo.Casos com risco iminente de auto ou heteroagressão exigem a segurança física do espaço do consultório médico.A primeira consulta de avaliação diagnóstica é prioritariamente presencial para o estabelecimento do vínculo inicial.Quadros confusionais agudos e suspeitas de causas orgânicas necessitam de exame físico e aferição de sinais vitais.Pacientes que expressam desconforto com a tecnologia ou preferência pelo contato humano devem ser vistos presencialmente.Situacões que demandam a aplicação de escalas físicas ou testes específicos necessitam da interação no consultório.O modelo híbrido destaca-se como a conduta ideal, intercalando consultas virtuais com revisões físicas periódicas.
IMJ-Na sua avaliação, o crescimento da telepsiquiatria tende a se manter consolidada nos próximos anos? Quais benefícios e obstáculos ainda precisam ser superados para isso acontecer?
Dr. Eliel Alves-O crescimento da telepsiquiatria é definitivo e ela seguirá consolidada como um pilar da medicina moderna.O benefício futuro será a incorporação de tecnologias assistivas que ajudem no monitoramento passivo de sintomas.Isso permitirá uma psiquiatria mais efetiva , atuando antes que o quadro do paciente venha a descompensar.Como obstáculo, há a necessidade urgente de combater a exclusão digital de populações com menor renda.Os conselhos de classe precisam atualizar constantemente as diretrizes éticas para assegurar a boa prática médica.Deve-se combater ativamente a precarização do atendimento promovida por empresas que visam apenas o lucro.Superadas essas barreiras, o modelo consolidará uma assistência psiquiátrica mais acessível, segura e humanizada.
O peso invisível de sair de casa
Embora muitas vezes passe despercebido para quem não convive com essas condições, sair de casa pode representar uma carga física, emocional e financeira significativa.Para uma pessoa autista, por exemplo, o percurso até o consultório pode significar exposição a buzinas, multidões, calor, filas, luzes intensas e mudanças inesperadas na rotina, fatores capazes de desencadear crises sensoriais. Já pacientes com ansiedade severa ou síndrome do pânico frequentemente enfrentam medo intenso durante todo o deslocamento. Em muitos casos, a tensão começa horas antes da consulta e permanece durante a volta para casa.
Além do impacto emocional, existem os custos acumulados:
- combustível;
- estacionamento;
- transporte por aplicativo ou ônibus;
- alimentação durante o deslocamento;
- perda de horas de trabalho do paciente ou do acompanhante;
- necessidade de faltar à escola ou ao emprego.
Quando o acompanhamento é semanal, essas despesas podem representar centenas de reais por mês para muitas famílias. Além do dinheiro, há uma economia importante de tempo. Um estudo realizado em um centro de referência em São Paulo encontrou que a telemedicina evitou, em média, 168,8 km de deslocamento e proporcionou uma economia de aproximadamente 224 minutos (3 horas e 44 minutos) por consulta para os pacientes avaliados.
Um atendimento que aproxima em vez de afastar
Segundo o psicólogo Alan Lima, do Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) da Universidade Federal Fluminense (UFF), o atendimento remoto tornou-se um importante aliado principalmente para pacientes com dificuldade de locomoção, doenças infectocontagiosas ou necessidade de acompanhamento frequente.
Ele explica que a modalidade permite monitorar a evolução clínica, acompanhar sintomas e realizar ajustes terapêuticos sem que o paciente precise enfrentar deslocamentos desnecessários.Além disso, o acompanhamento contínuo reduz significativamente o abandono do tratamento e favorece a detecção precoce de alterações clínicas que poderiam evoluir para complicações ou internações.
Fique com a entrevista.
IMJ-Em quais situações o atendimento remoto é indicado para pacientes com quadros mais complexos?
Alan Lima-O atendimento remoto para quadros complexos é um complemento essencial ao cuidado presencial. Em situações de pacientes acamados, ou seja, com dificuldade para locomoção, em casos de pandemia, pacientes com quadro infectocontagioso, o monitoramento dos sinais vitais, ajustes de medicação com base em dados garante a continuidade assistencial sem esforço fisico.

IMJ-Quais são os principais benefícios das consultas remotas para pessoas que têm dificuldade de locomoção ou moram longe dos centros de saúde?
Alan Lima-As consultas remotas transformaram o acesso à saúde, com benefícios para quem enfrenta barreiras geográficas ou motoras, entre eles: eliminação do deslocamento, acesso a especialistas, economia de tempo, conforto e acompanhamento contínuo.
IMJ-Como a telemedicina pode contribuir para a qualidade de vida e a continuidade do tratamento de pacientes com doenças crônicas ou condições que exigem acompanhamento frequente?
Alan Lima-Os prinicipais benefícios são a adesão ao tratamento diminuindo o abandono terapêutico, prevenção de complicações com detecção precoce de alterações evitando internações hospitalares desnecessárias, conveniência e qualidade de vida, evitando longas esperas em salas de emergência, segurança e regulação, cumprindo regras da Lei Geral de Proteção de Dados para garantir a segurança dos dados dos pacientes.
IMJ-Quais cuidados pacientes e familiares devem tomar para que uma consulta remota seja produtiva e segura, especialmente em situações de maior complexidade?
Pacientes e familiares devem garantir um ambiente silencioso e com privacidade, separar documentos, exames e relatos de sintomas, ter uma conexão boa de internet com câmera e fone de ouvido, se possível, assim como estar com os medicamentos que estão em uso separados para fácil acesso.
Especialistas mais perto de quem mora longe
Embora o país tenha registrado 353.287 médicos especialistas em 2024, eles permanecem concentrados nas regiões mais desenvolvidas. O Sudeste reúne 55,4% de todos os especialistas do país, enquanto a Região Norte concentra apenas 5,9%, evidenciando as disparidades no acesso à assistência especializada.
A concentração também ocorre nos grandes centros urbanos. Segundo a Demografia Médica 2025, as 48 cidades brasileiras com mais de 500 mil habitantes concentram 377.787 médicos, apresentando uma média de 5,75 médicos por mil habitantes. Já os municípios menores possuem índices significativamente inferiores, o que dificulta o acesso da população a consultas especializadas.
Pacientes que antes precisavam viajar centenas de quilômetros conseguem hoje realizar o acompanhamento diretamente de suas casas, economizando tempo, dinheiro e desgaste físico. Essa facilidade remota também acelera o início do tratamento, reduzindo o tempo de espera por atendimento especializado.
O futuro da saúde passa pela tecnologia
Segundo a Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), o número de teleconsultas realizadas pelas operadoras saltou de cerca de 300 mil em 2020 para mais de 30 milhões de atendimentos acumulados nos anos seguintes, consolidando a modalidade como parte da rotina da assistência médica no país.
A tendência também acompanha o mercado global. De acordo com a consultoria Fortune Business Insights, o mercado mundial de telemedicina foi estimado em cerca de US$ 172 bilhões em 2024 e deve ultrapassar US$ 790 bilhões até 2032, impulsionado pelo envelhecimento da população, pela expansão da internet de alta velocidade e pelo avanço da inteligência artificial aplicada à saúde.
Outro desafio é o acesso à tecnologia. Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2024, embora 84% dos brasileiros utilizem a internet, milhões de pessoas ainda enfrentam dificuldades de conexão, especialmente em áreas rurais e entre famílias de menor renda, o que limita o acesso aos serviços digitais de saúde.
Ainda assim, a consolidação da telemedicina representa uma mudança histórica no acesso aos serviços de saúde. Para milhares de pessoas com autismo, ansiedade incapacitante, doenças crônicas, deficiência física ou mobilidade reduzida, a consulta online significa muito mais do que conforto. Ela reduz barreiras geográficas, diminui custos com deslocamento, preserva a saúde mental e garante algo essencial para qualquer tratamento de longo prazo: a continuidade do cuidado.

