Letícia Fagundes Jornalist Investigativa
O que devia ser normal e não virar notícia, é uma médico atender bem as pessoas, tentar salvar vidas ou ao menos tentar. Pesquisa publicada nos Cadernos de Saúde Pública/Fiocruz identificou que práticas como ameaças, humilhações, reprimendas, linguagem pejorativa, negligência no manejo da dor e tratamento desrespeitoso ainda fazem parte da chamada violência institucional em saúde, muitas vezes naturalizadas dentro dos próprios serviços.
Em meio a uma medicina cada vez mais acelerada, marcada pela pressão por produtividade, pela mercantilização da saúde e por notícias frequentes de omissão, negligência e diferentes formas de violência em consultórios e hospitais, histórias de profissionais que fazem da empatia parte do tratamento ajudam a lembrar a essência da profissão: cuidar de pessoas. É nesse contexto que a pediatra Dra. Suellane Silva de Moraes (CRM-AP 2793) viralisou em um vídeo de atendimento.

Formada em Medicina em Cochabamba, na Bolívia, com diploma revalidado em 2021 pela Universidade de Brasília (UnB), ela atua há quatro anos na Enfermaria do Hospital da Criança e do Adolescente (HCA), há um ano na UTI Pediátrica da unidade e também na Sala Vermelha de Santana (AP), onde atende crianças em estado grave, para a médica, a técnica nunca caminha sozinha. A experiência de ter sido mãe de uma criança que permaneceu internada em uma UTI transformou sua forma de exercer a profissão.
“Como mãe, isso me melhorou 100% no meu profissional. Eu sempre me coloco no lugar daquela mãe”, afirma. Ela diz que procura enxergar muito além dos sintomas, acolhendo também as angústias dos pais, que frequentemente chegam ao consultório inseguros e sobrecarregados pelo excesso de informações da internet. “A minha medicina vai muito além da avaliação do doente. Ela vai sobre as questões do pai e da mãe”, resume. Segundo Suellane, esse vínculo faz com que muitas famílias permaneçam próximas mesmo após a alta médica, convidando-a para aniversários e batizados das crianças que acompanhou.
A fé, o acolhimento e a escuta também marcaram um dos episódios mais emocionantes de sua trajetória. Durante um plantão, ela conta que sentiu um forte impulso para levantar e atender uma criança que chorava na recepção. Ao avaliá-la, identificou um quadro grave de sepse que havia passado despercebido na triagem, iniciou imediatamente o atendimento de emergência e solicitou vaga em UTI. Semanas depois, encontrou novamente a mãe da bebê, que a abraçou e disse: “Doutora, a senhora salvou a vida da minha filha”. A criança, que posteriormente também foi diagnosticada com um tumor hepático e tratada, sobreviveu. Para Suellane, a medicina só faz sentido quando é exercida com amor, empatia e humanidade. “Receber um abraço de gratidão de um pai ou de uma mãe é extremamente gratificante. Todo dia é um novo dia”, conclui.
Fique com a entrevista
Em uma época em que a medicina está cada vez mais tecnológica e acelerada, como a senhora consegue manter o olhar humano e enxergar a criança como um todo e não apenas os sintomas que ela apresenta?
Acredito que o principal, para mim, é ser mãe. Eu sempre me coloco no lugar da mãe, no lugar do pai e, principalmente, como eu gostaria que, como mãe, o meu filho fosse atendido por um outro profissional.Eu vejo as questões, em que ponto essas questões conseguem afetar essa família e o que eu consigo aportar.
Muitas das vezes, as questões são relacionadas a coisas do dia a dia, que são resolutivas, e aquela pessoa não consegue observar. Acredito que a minha medicina é uma medicina muito humanizada. Então, ela vai muito além de uma avaliação do doente. Ela vai sobre as questões do pai e as questões da mãe.E isso é todos os dias no meu consultório.
Como mãe, como esposa, eu sempre me coloco neste quesito. E, como mãe, isso me melhorou 100% no meu profissional. Eu mudei totalmente a profissional que eu era para depois.

Eu sempre me coloco no lugar daquela mãe, principalmente quando eu estou na UTI. Eu tive um filho pequeno e esse filho ficou na UTI por um longo período. Então, ele foi muito bem cuidado nessa UTI onde ele estava. E, através disso, eu consigo abraçar, de forma clara, o pai, abraçar a mãe e falar o que eu escutei, ser solícita, ser humana.
Acredito que, dentro de um ambiente de terapia intensiva, principalmente, os pais se sentem muito perdidos, sem chão. E eu tento sempre, ao máximo que eu posso, alcançar esse pai, tranquilizar, acalmar e acalentar. E isso eu levo para todo o meu dia a dia de trabalho: sala vermelha, no meu consultório. Porque a criança não é só a doença.
É comum que os pais cheguem ao consultório assustados, inseguros e até sem conseguir descrever o que está acontecendo com o filho. Qual a importância de acolher essa família antes mesmo de pensar na conduta médica?
Realmente eu recebo pais bastante inseguros, assustados, às vezes na primeira consulta comigo. Então, esses pais, às vezes, são pais de primeira viagem ou às vezes, já são pais de adultos de 20 anos, ou seja, passou um longo período da gestação e aí eles acabam voltando a ser pais. E a medicina mudou, atualizou. Através disso, eles têm receios sobre muitas coisas.
Afinal de contas, o Instagram, a internet têm uma quantidade absurda de informações. E é através da minha escuta que eu vou sanar as dúvidas deles.
Eu sou uma médica que sempre escuto, sou ativa. Então eu acabo me familiarizando muito. Acabo trazendo essa família como se fosse parte da minha família, parte do meu dia a dia. E aqueles assuntos acabam aproximando-se dos mesmos assuntos do meu filho.A gente acaba construindo um vínculo muito grande, de amizade e respeito mútuo.
Imagine que, hoje em dia, eu sou convidada para inúmeros batizados, festas de aniversário dos bebês deles, porque eu acabo me tornando parte da família.

Existe uma frase muito conhecida que diz que devemos ‘tratar o doente, e não apenas a doença’. Na prática, o que isso significa para a senhora no atendimento pediátrico?
Eu sempre falo que nós não escolhemos, como médico, a pediatria. A pediatria nos escolhe. Há muitos anos atrás, aprovei numa residência, eu entrei no carro e falei para o meu marido: “Amor, eu aprovei na residência de GO.” E ele falou assim: “Amor, seus olhos brilham quando você atende criança. Brilham. É algo totalmente diferente. Eu acho que você seria uma boa médica de GO, mas você será uma excelente pediatra”.
Então, desde aquele dia, eu avalio a criança como um todo, dentro da sua maior fragilidade, que é a qual eu coloco que Deus escolheu, que é o momento que vai passar até o momento em que eu consolo essa criança.Acredito que isso é muito importante, porque Deus é quem me guia. Deus é quem me sustenta.
Então, Ele acaba me usando como instrumento. Isso é algo que eu coloco em todos os meus atendimentos. “Senhor, que eu possa curar essa criança até onde o teu conhecimento me dê.”
Dedicar tempo, atenção e acolhimento exige um envolvimento emocional muito maior do médico. Como a senhora consegue equilibrar esse cuidado tão próximo com a necessidade de também preservar a própria saúde mental e evitar o desgaste profissional?

É algo muito fácil de responder. Eu amo muito o que eu faço. Há muitos anos atrás, antes de eu ser mãe, você poderia ter recebido uma resposta diferente. E hoje, com tudo que eu sinto, tudo que eu vivo com o meu filho, eu amo totalmente o que eu faço.
Amo acolher os meus pacientes, amo abraçar os pais, amo poder ser resolutiva no meu atendimento. Acredito que cada vitória, cada paciente que eu dou alta, é uma vitória minha pessoal, uma vitória da minha equipe, uma vitória que quem me deu foi Deus naquele momento.
Então, isso para mim é muito importante, porque receber um abraço de gratidão de um pai, de uma mãe, para dizer: “Doutora, muito obrigada pelo seu atendimento.” Isso é extremamente gratificante para mim como médica, como ser humano.
Então, isso para mim é fundamental. Apesar de tudo, acredito que o desgaste mental é relacionado a uma coisa de dificuldade, de pesadez. Meu trabalho é difícil, é pesado, mas, quando você faz com amor e empatia, nada se torna difícil.
E, muito mais do que isso, eu tenho duas pessoas incríveis na minha casa que, todas as vezes que eu chego, eles me recarregam: que é meu esposo, que é uma pessoa maravilhosa para mim e o meu filho.
Então, todos os dias é um dia de novas vitórias.E é o que eu sempre falo na enfermaria, na UTI: todo dia é um novo dia.
Na sua opinião, a empatia e o acolhimento podem influenciar diretamente no tratamento e até na recuperação da criança? Há alguma situação que tenha mostrado isso de forma marcante na sua trajetória?
Eu estava em outro município, fora do local onde eu resido, e eu estava na sala de repouso. A sala de repouso fica próxima a uma entrada das fichas verdes do paciente de porta.
Então, eu estava dormindo. E, dentro desse sono, eu estava bastante cansada. Eu sentia uma sensação estranha, uma pesadez, alguém falando para mim assim. Alguém chorando lá no fundo. O tempo todo chorando lá no fundo.E eu sentia, no coração, alguém falando assim: “Suelani, levanta. Suelani, atende essa criança.”
E eu identifiquei que era Deus.E eu falei assim: “Senhor, outro médico vai atender essa criança.” Aí eu virei e voltei a dormir. Eu não consegui mais pegar no sono. E, pelo tempo todo: “Suelani, vai atender essa criança. Suelani, vai atender essa criança.”
E eu até falei assim: “Ai, Senhor, me deixa dormir. Outro dia eu vou lá.”
E não parava essa sensação. Era uma angústia no coração, uma sensação de pesadez, sabe? Algo que estava me puxando. E era o tempo todo essa mesma escuta no meu ouvido, o tempo todo essa mesma fala: “Vai atender essa criança.”
E a criança não parava de chorar. Aí eu lembro que levantei e falei: “Eu vou lá atender essa criança.”
Cheguei. Estava a enfermeira. Eu falei: “Oi, o que aconteceu, meu amor?”
A enfermeira estava tentando acalentar a criança e ela não parava de chorar.
Eu falei: “Traz ela aqui na maca para que eu possa avaliá-la.” Quando eu identifiquei, era uma criança grave, que tinha sido triada de forma errada. Tinham pedido alguns exames e não identificaram que era uma criança séptica.
Na hora que eu olhei a criança, falei: “Fulana, leva a criança para a sala vermelha, por favor, que eu vou atendê-la lá.”
A mãe veio. Eu comecei a iniciar os procedimentos, identifiquei que a criança era uma criança com uma infecção generalizada, que é a sepse. E eu já comecei a prescrever.
Depois, eu precisei sair do plantão. Passei o plantão para o outro colega e solicitei leito de UTI.
Passaram mais ou menos umas duas, três semanas. Eu estava toda paramentada, dentro da UTI. A mãezinha me reconheceu quando eu estava entrando na UTI. Ela me abordou.
Eu falei: “Oi, meu amor, tudo bem?”
Ela me abraçou.
Eu falei: “Desculpa, de onde eu lhe conheço?”
Ela falou: “Doutora, a senhora salvou a vida da minha filha.”
A bebê tinha um mês de vida.
Eu falei: “Foi? Obrigada… de nada.”
Perguntei: “Quem é a sua bebê?”
Ela falou: “Lembra daquela bebê de…” (município omitido).
Eu falei: “Lembro.”
Ela me levou para ver a criança.
A criança ficou sete dias na UTI. Depois, tinha recebido alta e estava na enfermaria. Ela tinha um tumor hepático, que foi identificado posteriormente.
Então ela falou assim: “É graças à senhora, doutora, que a minha filha está viva.”
Então, acredito que, muito mais do que tudo, nós conseguirmos escutar o que Deus nos manda.
Acredito que tudo que eu fiz para essa criança foi baseado em tudo que eu queria totalmente que alguém fizesse pelo meu filho ou por outra pessoa que eu conheço, que é dar o melhor de si dentro de um atendimento.
E, graças a Deus, a criança precisou fazer uma cirurgia para a retirada, a extirpação do tumor. Posteriormente, eu encontrei com ela de novo, e ela estava bem.
