Por Marta Dueñas, Jornalista 
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Sim, a roupa, o peso e a forma feminina estão no pódio!

Os Jogos Olímpicos de Tóquio, no Japão, tiveram a maior participação feminina da história, com 49% de atletas mulheres dentre as participantes. É um passo muito importante. Foi um ano de conquistas inéditas em medalhas, além da maior representatividade em comissões técnicas e arbitragem. Talvez a gente aprenda mais com as Paralimpíadas, que acabam de iniciar. Não sei, mas almejo.

Ainda que a capital nipônica tenha sido um marco para o avanço feminino, as demonstrações de que o machismo continua logo ali, na linha de chegada, não deixaram de estar claras. Mulheres são analisadas e criticadas pelo peso, físico e roupas. Mesmo com tantas conquistas, a barriga no corpo feminino ainda suscita discussões. Então, quanto vale o corpo de uma mulher?

Ainda antes dos jogos olímpicos, atletas da seleção feminina de handebol de praia da Noruega foram multadas pela federação europeia da modalidade pelo uso de “roupas inapropriadas”. Elas jogaram com shorts, ao invés de biquínis. E, por isso, cada jogadora foi punida com multa de cerca de R$ 920.

O biquíni do handebol não revela só a forma feminina, mas sim o machismo e a objetificação das mulheres no esporte, de campeonatos aos jogos olímpicos. E que bom que se pode assistir em Tóquio a uma resposta em outro sentido: o time feminino da ginástica artística da Alemanha, trocou collants por macacões até o tornozelo. A roupa foi adotada como forma de combater a sexualização do corpo das mulheres. Pensem em retrocesso?

Para quem não entendeu o recado, é o seguinte: nas Olimpíadas o corpo feminino também é objeto de abuso. Atletas, cuja carreira está associada ao corpo, sabem o significado de estarem expostas, seja com seu corpo à mostra ou em um uniforme de pouco pano.

Em se tratando de Olimpíadas, o avanço de representação é muito mais sexy que o uniforme, já que originalmente os jogos eram proibidos às mulheres. Somente em 1900, em Paris, as atletas puderam participar da competição, embora não pudessem ganhar medalhas como os homens, apenas certificados.

O Brasil foi mais além. Somente em 1979, as atletas puderam classificar-se em índices olímpicos – havia um decreto Lei de 1941 que as proibia de praticar esportes em torneios internacionais e jogos deste nível. Somente em 2012, nas Olimpíadas de Londres, elas puderam participar em todas as modalidades esportivas, tal qual os homens, ou seja, mais de um século mais tarde.

Primeiro o direito a participar, depois a chance de ganhar e serem reconhecidas. Por fim, o direito de potencializar o próprio corpo. É nessa jornada que elas andam hoje e é nessa raia que a corrida nos jogos olímpicos se dá.

Talvez alguns homens fiquem confusos, pois as mulheres já protestaram pelo direito de mostrar seu corpo, reivindicando justamente o contrário: usar minissaia, shorts, ou ainda não usar roupas. Ano vai, ano vem, mudamos como sociedade, mas o corpo feminino segue objetificado e atendendo mais aos anseios de um mercado do que da própria mulher. 

Em 2016, o direito ao uso de short em uma escola privada em Porto Alegre foi debatido amplamente pela sociedade da capital gaúcha. Enquanto a instituição – tida como liberal – proibiu seu uso, sob argumento que poderia atrapalhar as aulas, as meninas protestavam a favor do shortinho. Na retórica um hiato: a discussão não era apenas pelo direito de usar o short.

Muitas jovens deram-se conta, antes mesmo que seus pais, que isso significava um olhar patriarcal e quase abusador sobre seu corpo – de jovens estudantes. Por que os shorts atrapalham a aula? Quem se atrapalha com uma estudante usando short?

Debater assuntos assim não é o problema. Mas ultrapassar o direito ao corpo e às suas próprias escolhas, para atender a uma política de dominância do físico como produto, como posse de homens que estão na posição de mandar na política, nas entidades e, por fim, nas mulheres, é revoltante. Quem manda no corpo feminino?

Quando se consegue desviar da pauta da roupa, vem o tema do formato do corpo. Nem as atletas escapam da régua do padrão. Voltando a Tóquio, a goleira Bárbara da seleção feminina de futebol e a jogadora de vôlei de praia Rebeca foram julgadas e criticadas por internautas e pela imprensa por sua aparência física. A goleira foi chamada de “porca de suéter” insinuando que estaria gorda. Atrocidades que não se escutam contra os homens.

Existe sim, acreditem, um modelo para se ter um “corpo de atleta” não importa se você é corredora, faz arremesso de peso ou joga futebol. A régua está posta e se espera uma forma física descolada da modalidade. Assim, matando a diversidade dos corpos, acabaremos por matar as próprias mulheres que habitam esses tão disputados biótipos.

Quando o corpo feminino vai pertencer realmente a cada uma das mulheres que o sustenta cotidianamente? Quando o corpo feminino – em imagem e simbologia – vai ser liberto do mercado, das entidades, dos RHs e dos homens? Só desejo que a gente não canse de lutar e estar aqui para ver. As novas gerações agradecem!