Por Ana Joulie, Psicóloga especializada em patologias graves, fundadora e diretora clínica da Rede Internacional de Acompanhamento Terapêutico (RIAT)
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Sucesso é sempre mérito próprio e fracasso compartilhado?

Ao falar desse assunto, é quase impossível não correlacionar os conceitos de ego e narcisismo, pois quando falamos de egocentrismo, em algum aspecto podemos perceber sinais narcisistas, em grau de estrutura psíquica ou não. Afinal de contas, ambos os conceitos são recursos existentes em cada ser humano, em proporções singulares, obviamente. Por isso, quero trazer para vocês, de forma mais didática, a diferença entre esses conceitos para melhor debater sobre a temática deste texto que é muito visível no hábito laboral. Vamos lá?

O conceito do ego pode ser simplificado como sendo a consciência, seria o “eu” de cada um, ou seja, é o que caracteriza a personalidade de cada pessoa. O ego é a realidade consciente adquirida através do meio sociocultural. O conceito é bastante utilizado na teoria psicanalítica, onde é parte da tríade do modelo psíquico, que é formado por ele, superego e id. O ego seria o “defensor” da personalidade. Estar como mediador entre o id (vontades inconscientes) e o superego (valor moral da realidade), ou seja, o ego busca harmonizar os desejos inconscientes (id) dos valores morais (superego), fazendo com que o indivíduo se mantenha capaz de realizar as diferenciações de seus processos interiores de acordo com a realidade que lhe surge.

O que seria então o egocentrismo? Vem da origem grega, sendo a junção de egôn e kêntron, que significa “eu no centro”. Pode-se dizer que é a condição que o indivíduo apresenta, de maneira excessiva, exaltação de sua própria personalidade, colocando-se e sentindo-se como o centro das atenções.

Conhecendo melhor os conceitos de ego e egocentrismo, e por estarmos buscando trazer mais informações sobre saúde mental, vamos aprofundar um pouco mais a questão egocêntrica, buscando entender o que significa o narcisismo e como ele está relacionado aos atos egocêntricos, enfocando essas condições no ambiente de trabalho.

O narcisismo faz referência ao mito de Narciso, que traz a tese do amor pela imagem de si mesmo. Desde a época que as redes sociais se tornaram mais acessíveis e utilizadas, ouvimos as pessoas falarem “essa pessoa é muito narcisista”, já pararam para entender o porquê? No senso comum, ser narcisista é, basicamente, evidenciar muito o corpo, fazendo excessivas exposições de si. De acordo com Laplanche (dicionário de psicanálise), existem dois tipos de narcisismo: o primário e o secundário. “O narcisismo primário designa um estado precoce em que a criança investe toda a sua libido em si mesma. O narcisismo secundário designa um retorno ao ego da libido retirada dos seus investimentos objetais.” Isso significa que o narcisismo é algo comum, de forma inconsciente, durante um período da infância, mas que pode se tornar algo patológico, sendo um transtorno de personalidade, na fase pós infância.

Porque fiz, até agora, esse recorrido entre os conceitos do ego ao narcisismo? A ideia é trazer mais conhecimento, porque, muitas vezes, confundimos o significado desses conceitos e podemos fazer inferências na vida de pessoas que estão ao nosso lado, sem considerar a influência de nossa fala na vida emocional delas. Tanto o ego, quanto o narcisismo são recursos humanos naturais que todos nós possuímos, alguns com mais densidade e quantidade que outros.

No ambiente laboral, em nossas relações de trabalho, podemos ter uma convivência muito próxima, com frequência e presença massiva de relacionamento interpessoal, por isso, na maioria das vezes, temos mais contato com pessoas “do trabalho” que com as pessoas de nossa família. E quanto mais presença, mais horas de trabalho, mais aproximação, consequentemente, mais percepções e interações emocionais, mais influência temos em nossas relações, afinal de contas, somos humanos e não robôs.

Qualquer tipo de trabalho, seja em qualquer lugar do mundo, traz à tona a questão do envolvimento social, ou seja, não conseguimos trabalhar “sozinhos”. Mesmo os ofícios que envolvem individualismo no processo de produção, em algum momento a pessoa terá que sair da “zona de conforto” e expor tal produção, seja ela criativa, mecânica, processual etc. Não existe trabalhador solitário. E desde que surgiu o trabalho, desde a criação do mundo, que o ser humano expõe seus recursos de sobrevivência, buscando ser melhor no que faz, seja de forma desejável ou não.

Os povos originários tinham que produzir e se destacar de alguma forma para comer e sobreviver, inclusive com relação às outras espécies. O gozo em conseguir sobreviver é mérito de um processo de trabalho. Conquistar moradia, comida e segurança é ter que trabalhar em prol de tal condição. Por isso, compreender a relação entre egocentrismo no ambiente de trabalho é fundamental. Afinal de contas, todos os dias milhares de pessoas estão em busca de sobreviver no âmbito laboral e muitas delas correm o risco de estar em situações de egocentrismo.

Mas, no que diz respeito ao nosso convívio com esse assunto, temos que entender onde está o equilíbrio, pois como mencionei antes, todo ser humano possui traços de egoísmo e narcisismo. Você acha que é correto ser egocêntrico? Seria apropriado ser egocêntrico no trabalho? É “normal”? Geralmente as palavras “ego”, “egocentrismo” e “narcisismo” são tidas como negativas, pejorativas, no entanto, é conciso situar a condição de cada pessoa antes de julgar e posicioná-la em uma categoria negativa. Cada caso é um caso e por isso é importante saber diferenciar o que cada um expressa.

Como o ego é a consciência, é um conjunto de processos mentais e emocionais, ele não pode ser considerado bom ou ruim. O ego é um recurso humano, que, quando ativado ou definido, toma conta de transmitir o que o indivíduo faz, ou melhor, como se enxerga. O egocentrismo seria o transcurso dado como negativo do ego, pois a pessoa se torna totalmente focada nela mesma, priorizando o orgulho próprio e inativando aos outros que estão próximos e parcialmente distantes.

No ambiente de trabalho, o egocentrismo torna-se, na maioria das vezes, prejudicial. A pessoa que se coloca na condição de egocêntrica perde a noção do que surge ao seu redor, pois não consegue enxergar nada além de si. A percepção sistêmica fica nula, prejudicando seus relacionamentos. O egocêntrico nos relacionamentos interpessoais perde a dinâmica do todo, busca controlar tudo e acaba deixando de perceber a existência de outros, com isso constrói uma série de ações, que trazem consequências ruins ao coletivo.

Como somos seres sociáveis e não temos como fugir do coletivo, é sensato adquirir autopercepção para evitar que a construção egóica torne-se exacerbada no aspecto da visão pessoal. Ter o ego inflado pode ser muito maléfico. O melhor é utilizar a função egóica a fim de fazer com que a pessoa se torne mais confiante em si, valorizando seu potencial, mas sem criar incapacidades sociais.

Um profissional egocêntrico torna-se arrogante, prepotente, tóxico, controlador e mal visto por todos. Acaba com a capacidade de trabalhar em equipe, afasta pessoas, cria um ambiente insano e paralisa processos. A cada dez profissionais, nove são demitidos por problemas de comportamento. Imagine se as pessoas não estiverem atentas aos aspectos egóicos? Essa proporção pode dar-se por questões de conduta egocêntrica.

Ademais, a pessoa que é egocêntrica tem muitas chances de possuir um transtorno de personalidade narcisista (deve-se analisar cada caso), geralmente o comportamento, o discurso, a forma de se posicionar tem relação direta a sua estrutura de personalidade e, por isso, na maioria das vezes, se identifica que pessoas egocêntricas possuem dificuldades em suas estruturas psicológicas. Somos regidos por uma estrutura psíquica muito complexa, que nos mantém dentro de vários processos que se interconectam, utilizando nossas memórias, emoções, imagens, sentimentos etc., e nossa estrutura psicológica nos traz alguns mecanismos de defesa, para que o indivíduo possa se adaptar e sobreviver diante de seus relacionamentos. Podemos dizer que é comprovado que pessoas que são egocêntricas e narcisistas possuem sentimentos de inadequação, incompetência, baixa estima, percepções de inferioridade e por isso, buscam, através dessas manifestações, “sobreviver” com atitudes egocêntricas.

Um profissional egocêntrico é egoísta, ou seja, não é altruísta e por isso, não consegue empatizar com outras pessoas, pode ser altamente competente, mas corre um alto risco de ter dificuldade em trabalhar de forma coletiva, pois carece de inteligência emocional e social.

Desde o surgimento do termo trabalho/emprego, sabemos que todas as épocas trouxeram seus danos e avanços, e que está embutido a questão de competência e concorrência. Atualmente, com a era tecnológica, globalizada e hiper estimulada, o nível de competitividade é muito precoce. Hoje em dia ter um nível de educação superior não qualifica tanto para inserção no mercado de trabalho, pois o acesso à educação se tornou muito acessível. Os critérios admissionais estão com agregações de qualidade humana. Para se posicionar de forma estável e ter perspectivas de crescimento em ambientes de trabalho, é sumamente importante considerar o recurso humano de habilidades e desenvolvimento interpessoal.

Existe uma tênue diferença entre excesso de autoconfiança e arrogância, assim como a autovalorização e a prepotência. Vale muito a pena a autopercepção diante de como se posicionar em relacionamentos interpessoais. A humildade é uma prática de boa conduta e inibe questões egocêntricas, que atrai pessoas e constrói bons relacionamentos. Utilizar suas habilidades sem impor protagonismo condicionado para diminuir e excluir o próximo é conduta individualista de quem, geralmente, se sente ameaçado.

Para alcançar o sucesso, é importante saber ser competitivo, se posicionar, se destacar e se manter em ascensão. Não existe discussão quanto a esses critérios para o crescimento profissional. Mas nenhum desses critérios precisam ser acompanhados de atitudes egocêntricas, tampouco de domínio de uma estrutura de personalidade narcisista.

A autopercepção é fundamental para um bom rendimento profissional, assim como a boa aceitação de críticas construtivas, os famosos feedbacks, são recursos sociais importantes para um bom desenvolvimento humano. Apesar de serem incômodos e inconvenientes em muitas ocasiões, são necessários para o crescimento pessoal e profissional. Além de ser uma excelente prática de construção para a saúde mental. Cuidar de si é consequência de um bom funcionamento egóico, assim como também analisar as questões narcísicas originárias que devem ser elaboradas durante o processo evolutivo de nosso crescimento, desenvolvimento individual e social.

Deixo como indicação a psicoterapia como ferramenta de desenvolvimento pessoal e profissional, a terapia permite que a pessoa amplie sua percepção e entenda melhor quais são seus recursos egóicos, podendo melhorar vários aspectos de sua vida.

          “Quanto maior o conhecimento, menor o ego; quanto maior o ego, menor o conhecimento” – Albert Einstein.