Mudanças climáticas reduzem o valor nutricional dos alimentos e causam transtornos mentais

 

por Letícia Fagundes, Jornalista investigativa

 

Então você acha que o mundo está mais doente mentalmente? Você não está errado!

Muito a mídia distribui a culpa de subnutrição, apenas nos alimentos ultraprocessados. Veículos grandiosos de imprensa disseminam que transtornos mentais estão apenas ligados a genéticas  e ambientes adoecidos como trabalho e família.

Você passa meses, às vezes anos em consultórios e sessões terapêuticas, tentando entender o que está errado. Fala, revisita traumas, reorganiza pensamentos, mas em muitos casos, o alívio não vem.

Isso porque uma parte importante da equação pode estar fora da conversa e dentro do corpo.

Você não relacionará comida com transtorno mental, porque foi enxurrado de desinformação que desnutrição é apenas aquele garotinho magrinho, com a barriga grande e olhar caído. Você não! Você está longe de ser subnutrido, afinal tem acesso a um “bom prato de arroz e feijão” todos os dias.

A ciência já aponta que o chamado eixo intestino-cérebro tem papel direto na saúde mental. Alterações na microbiota intestinal,  associadas à má qualidade da alimentação, estão ligadas a sintomas de ansiedade e depressão. Estudos indicam que dietas pobres em nutrientes essenciais, como ferro, zinco e vitaminas do complexo B, podem afetar neurotransmissores fundamentais para o funcionamento do cérebro

A “má alimentação”, não é sua culpa. Você tem comprado frutas, verduras, nutrientes. Mas será que relmente dentro deles, quando entram no seu corpo eles fazem o papel nutricional deles?

Porém, o que ninguém está abordando é que tudo isso também está no prato básico do dia a dia: arroz, feijão, carne.  Alimentos que sempre foram considerados nutritivos, hoje já não entregam o mesmo valor de anos atrás.

Consequência direta de um solo degradado, de um ambiente adoecido e das mudanças climáticas que já afetam a produção de alimentos. Ou seja: a comida parece a mesma. Mas não é.

Entrevistei  o pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Ulysses Paulino de Albuquerque. Esta reportagem detalha,  como as mudanças climáticas já estão alterando silenciosamente a qualidade dos alimentos consumidos no dia a dia e com isso, impactando diretamente a saúde mental e o desenvolvimento humano. O alerta parte de uma pesquisa internacional coordenada por Ulysses e que reúne cientistas brasileiros e estrangeiros.

Os resultados estão publicados em artigo científico internacional e indicam que a crise climática não afeta apenas eventos extremos, como enchentes ou secas, mas também a base da alimentação global. O estudo propõe um novo olhar: a relação direta entre clima, nutrição e transtornos como a ansiedade. 

Segundo o pesquisador, a própria construção da pesquisa já foi um desafio. “Foi um trabalho desafiador, não no sentido de experimentos de bancada, mas de integrar áreas que raramente conversam entre si, como clima, nutrição, saúde mental, neurodesenvolvimento e políticas públicas”, explica. A fragmentação do conhecimento e a ausência de estudos longitudinais foram obstáculos centrais.

O estudo contou exclusivamente com financiamento público do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), sem qualquer influência da indústria. Ainda assim, o pesquisador reconhece que o tema toca diretamente interesses econômicos, especialmente no campo dos alimentos ultraprocessados, que ganham protagonismo nesse cenário.

Um dos pontos mais sensíveis da pesquisa é o impacto da degradação do solo. Embora toda a população seja afetada, os efeitos não são iguais. “Quem tem mais renda consegue compensar com dietas mais variadas. Já os mais vulneráveis acabam priorizando quantidade, não qualidade”, afirma Ulysses. Isso amplia desigualdades já existentes.

O cenário futuro preocupa. Segundo o estudo, há risco real de alimentos manterem a aparência, mas perderem valor nutricional. O aumento de CO₂ pode reduzir nutrientes essenciais como ferro, zinco e proteínas, especialmente em alimentos básicos como arroz, feijão e trigo. Esse fenômeno já é discutido na literatura científica internacional.

Eventos extremos, como as enchentes recentes no Rio Grande do Sul, também entram nesse debate. Eles não apenas destroem safras imediatas, mas podem comprometer o solo, a produção futura, a qualidade dos alimentos e até a saúde animal, criando efeitos duradouros que ainda são subestimados.

Nesse contexto, algumas populações são mais vulneráveis: comunidades de baixa renda, indígenas, mulheres, crianças e moradores de áreas rurais. Esses grupos dependem mais de sistemas alimentares locais e têm menor capacidade de adaptação a crises, como aumento de preços e queda na produção.

Diante desse cenário, o pesquisador defende estratégias urgentes, como diversificação agrícola, fortalecimento da agricultura familiar e criação das chamadas “dietas do clima”, adaptadas regionalmente. O alerta final é direto, por isso fique com a entrevista.

 

Essa pesquisa foi difícil de concluir? Quais foram os principais obstáculos ao longo do processo?

Sim, foi um trabalho desafiador, mas não no sentido que normalmente se pensa, como fazer experimentos de bancada ou coletar um banco de dados. Essa pesquisa, que nasce de dois artigos de revisão integrativa e narrativa, teve como grande dificuldade reunir áreas que normalmente dialogam pouco entre si, como clima, nutrição, saúde mental, neurodesenvolvimento, educação e políticas públicas, e, a partir disso, construir uma visão coerente desse quebra-cabeça.

Pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Ulysses Paulino de Albuquerque

Um dos obstáculos centrais foi justamente a fragmentação do conhecimento. Há muitos estudos sobre cada uma dessas áreas separadamente, mas poucos que fazem essa conexão. Além disso, em um dos estudos sobre desfechos neuroeducacionais, destacamos a escassez de estudos longitudinais, ou seja, de acompanhamento de uma população ao longo do tempo.

Outra grande dificuldade foi integrar escalas de estudos bastante diferentes, como dados climáticos, nutricionais e cognitivos, que são localizados e possuem naturezas distintas. Esse foi, sem dúvida, o principal desafio.

 

Esse estudo contou com financiamento público ou privado? Existe interesse da indústria de alimentos nesse tipo de pesquisa e isso pode influenciar os resultados?

Com relação à pergunta dois, o estudo contou apenas com financiamento público, por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Brasil (CNPq). Houve incentivo exclusivamente desse órgão federal de apoio à pesquisa científica.

Quanto ao interesse da indústria, ele existe, já que o debate envolve diretamente qualidade nutricional, sistemas alimentares e, sobretudo, ULTRAPROCESSADOS. No entanto, nesses estudos específicos, não houve qualquer influência da indústria sobre os resultados.

 

Por que essa pesquisa é importante na prática? O que ela muda para a medicina, para a indústria de alimentos e para a vida das pessoas?

Na prática, ela ajuda a mudar a forma como enxergamos um problema que é multicausal e multifacetado, para além do que normalmente se pensa de que a mudança climática afeta a saúde apenas por meio de ondas de calor, enchentes, secas ou doenças infecciosas.

O que procuramos mostrar é que existe um caminho silencioso, invisível: o impacto do clima na produção de alimentos, na disponibilidade e na qualidade nutricional desses alimentos. Isso pode repercutir na saúde mental, na cognição, na aprendizagem e no desenvolvimento humano.

Para a medicina, isso significa que nutrição e segurança alimentar precisam se tornar um tema de conversa mais sério, principalmente pelos possíveis desfechos na saúde mental, como ansiedade e questões cognitivas.

Para a indústria de alimentos, reforça a necessidade de pensar não apenas na quantidade ou no tipo de comida, mas na qualidade nutricional e na diversidade dos alimentos.

Para a vida das pessoas, o recado é mais concreto e objetivo: uma comida aparentemente igual pode não entregar o mesmo valor nutricional de antes, e isso pesa mais sobre quem já vive em maior vulnerabilidade. Além disso, determinados tipos de alimentos normalmente consumidos tendem a agravar ainda mais esses problemas.

Pesquisadores da Rede Resiclima. Registro de reunião onde os dados da pesquisa começaram ser trabalhados.

 

O que motivou o senhor a investigar a relação entre mudanças climáticas, nutrientes e saúde humana? Existe alguma questão pessoal ou experiência que tenha despertado esse interesse?

A motivação para esse estudo foi justamente a necessidade de integrar todos esses aspectos. Além disso, ele faz parte da Rede Clima, uma rede de estudos interdisciplinares sobre mudanças climáticas.

Nessa rede, há pesquisadores investigando o tema a partir de diferentes olhares  como psicólogos, nutricionistas, biólogos e jornalistas. Assim, o artigo nasce naturalmente dessa conjunção de competências, dentro de uma perspectiva coletiva e institucional enraizada na própria Rede Clima.

No plano pessoal, a motivação para liderar essa pesquisa está no meu interesse em saúde mental e no comportamento humano, especialmente em como a mente funciona diante dos desafios contemporâneos.

 O solo é a base da alimentação de toda a sociedade. Considerando que ricos e pobres consomem, em grande parte, os mesmos alimentos básicos, como grãos, podemos dizer que a degradação do solo afeta toda a população, independentemente de classe social, ainda que de formas diferentes? 

Eu diria que sim, a degradação do solo e as mudanças climáticas têm potencial para afetar toda a população, porque mexem com a base da produção de alimentos.

Se olharmos por essa perspectiva, calor, estresse e alterações ambientais comprometem as plantas, reduzem a produtividade e podem diminuir a qualidade nutricional dos alimentos. Isso vale para os cultivos principais da nossa economia, como grãos e tubérculos, mas esse impacto não é, de forma alguma, igual para todos.

Quem tem mais renda pode compensar melhor com uma dieta mais variada, suplementação ou maior acesso a alimentos de melhor qualidade. Já as populações mais vulneráveis sofrem mais, porque gastam a maior parte da renda com comida e, em momentos de crise, acabam priorizando a quantidade em vez da qualidade nutricional. Isso é natural.

 

Pensando nos próximos 10, 20 ou 40 anos, como o senhor enxerga a alimentação humana? Existe o risco de termos alimentos com aparência normal, mas com menor valor nutricional?

Fica difícil fazer projeções para 10, 20 ou 40 anos, principalmente em um cenário multicausal, com tantos fatores que podem influenciar um determinado desfecho. Mas esse risco existe e já aparece como uma preocupação importante nas pesquisas dos nossos trabalhos e da Rede Resiclima.

Um dos pontos centrais é que o aumento do CO₂ atmosférico pode até favorecer o crescimento vegetal em alguns casos, mas, ao mesmo tempo, pode reduzir proteínas e nutrientes importantes, como ferro, zinco e cálcio especialmente em plantas do grupo C3, que incluem alimentos muito presentes na dieta, como arroz, feijão, trigo, cevada e batata inglesa.

Pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Ulysses Paulino de Albuquerque

Assim, a aparência do alimento pode continuar semelhante, mas a qualidade nutricional pode cair. Além disso, se o sistema alimentar se tornar mais homogêneo, dependente de poucos tipos de alimentos e mais baseado em ultraprocessados, esse empobrecimento da dieta tende a se intensificar.

Diante disso, é necessário avançar em soluções. Uma proposta é pensar em “cardápios do clima” ou “dietas do clima”, com aplicação, por exemplo, na alimentação escolar, ajustadas localmente para compensar os efeitos das mudanças climáticas. Isso é urgente.

Nesse cenário, é fundamental reunir gestores de políticas públicas, nutricionistas, biólogos e psicólogos para propor cardápios adaptados às diferentes regiões do Brasil, considerando suas especificidades.

É importante deixar claro que não há como frear completamente o avanço das mudanças climáticas. O que precisamos fazer, como sociedade, é pensar em como vamos nos adaptar a elas cada vez mais.

 

Eventos extremos, como as enchentes recentes no Rio Grande do Sul, podem causar danos duradouros ao solo. Isso pode afetar a qualidade nutricional dos alimentos e até a saúde animal? Estamos subestimando esse impacto?

Sim, é plausível dizer que estamos subestimando esse impacto.

Nossos trabalhos, especificamente, não focaram nas enchentes do Rio Grande do Sul. Estamos analisando esse tema a partir de outra perspectiva, relacionada à informação que circulou durante o período das enchentes e à responsabilização nas mídias sociais, e não sob o enfoque ambiental.

De forma geral, porém, eventos extremos afetam a produção e a qualidade dos alimentos, além da infraestrutura de armazenamento e distribuição. Enchentes e alagamentos podem comprometer armazéns, depósitos, vias de transporte e também a fertilidade do solo, além de afetar o funcionamento dos ecossistemas.

Essas mudanças podem impactar flora e fauna, além de atividades como pecuária, pesca e agricultura. Assim, quando ocorre uma enchente severa, o problema não se limita à perda da safra daquele momento: podem surgir efeitos mais duradouros sobre o solo, a produção futura, a qualidade nutricional dos alimentos e a saúde animal.

Esses eventos também podem vulnerabilizar os animais destinados à alimentação, favorecendo o surgimento de doenças e infecções.

Eventos extremos, como as enchentes recentes no Rio Grande do Sul, podem causar danos duradouros ao solo. Isso pode afetar a qualidade nutricional dos alimentos e até a saúde animal? Estamos subestimando esse impacto?

Nossos estudos mostram que as populações de baixa renda como comunidades indígenas, populações racializadas, mulheres, crianças, moradores de áreas rurais e grupos com acesso precário à terra, renda, educação, saúde e serviços públicos são as mais vulneráveis. Isso ocorre em vários contextos latino-americanos.

Esses grupos dependem mais diretamente de sistemas alimentares locais, ou seja, do alimento produzido na própria localidade ou por eles mesmos. Com os eventos climáticos, esses ambientes e recursos naturais acabam sendo degradados, o que impacta a capacidade de obter o alimento necessário para a dieta.

Além disso, essas populações têm menor capacidade de adaptação diante do aumento de preços. Quando esses eventos ocorrem, a produção cai, o abastecimento é desorganizado e os preços dos alimentos sobem. O desfecho é claro: essas pessoas não conseguem produzir seu próprio alimento nem acessar alimentos de qualidade devido ao aumento dos preços.

Portanto, sim, esses são os grupos mais vulneráveis. Vale reforçar, porém, que esses efeitos atingem toda a humanidade.

 

Há estratégias agrícolas ou políticas públicas capazes de proteger o valor nutricional dos alimentos mesmo em cenários de aquecimento global?

Sim, nós defendemos algumas estratégias, como a diversificação agrícola, ou seja, precisamos produzir uma maior diversidade de alimentos, já que a nossa dieta hoje é baseada em pouquíssimos alimentos. Então, uma dieta equilibrada e saudável depende não só da qualidade, mas também da diversidade dos alimentos que temos à disposição no dia a dia, como frutas, verduras e cereais. Além dessa diversificação agrícola, uma agricultura que seja resiliente ao clima, fortalecimento da agricultura familiar, uso de variedades mais adaptadas ao calor e à seca, melhoria do manejo do solo, políticas públicas que ajam diretamente sobre a disponibilidade, acesso, utilização e estabilidade desses alimentos. Ensina, por exemplo, as iniciativas que nós mencionamos, como os programas de alimentação escolar conectados à agricultura.

E eu acredito que precisamos implantar algumas estratégias. Uma delas, como falei, seria as dietas do clima, que devem ser implantadas urgentemente na alimentação escolar, porque é na infância que existe uma janela super importante do desenvolvimento neurológico, do neurodesenvolvimento, e, se houver comprometimento nutricional ali, temos um impacto que se estende até a vida adulta. Então eu pensei até em coisas como observatórios de regionagem e neuronutrição. Esses observatórios seriam ligados à gestão e monitorariam as condições de alimentação, de neurodesenvolvimento e o fortalecimento de políticas integradas entre agricultura, saúde e educação.

E, além disso, especificamente falando dos transtornos de ansiedade, nós enfatizamos fortemente que é necessário ampliar o acesso a dietas nutritivas e menos dependentes de ultraprocessados, porque os ultraprocessados desempenham um papel muito importante para agravar esse cenário. É só pensar que são alimentos de fácil aquisição, relativamente mais baratos e mais atrativos e saborosos pela grande quantidade de aditivos acrescentados. Esses aditivos exercem um impacto fisiológico importante no nosso organismo. Daí a importância de uma dieta menos dependente.

 

Você acredita que estamos diante de uma “transição nutricional invisível”, em que comemos a mesma comida, mas com menos nutrientes e isso ainda não é percebido pela sociedade?

Essa pergunta é importante. Se estamos diante de uma transição nutricional invisível, eu diria, peremptoriamente, sim. Esses pontos ajudam muito a traduzir o problema, porque estamos vivendo uma mudança silenciosa na qualidade da alimentação. Porque o debate costuma focar em quantidade de comida, preço ou fome, que são temas centrais e devem ser considerados, mas existe esse processo invisível: a perda da diversidade alimentar, a piora da qualidade nutricional dos cultivos, a maior presença dos ultraprocessados e a dificuldade de acessar dietas realmente saudáveis por populações mais vulneráveis socioeconomicamente.

Então, a pessoa pode até sentir que continua comendo o de sempre, mas aquele alimento pode estar mais pobre nutricionalmente, ou a dieta como um todo pode estar menos diversa e mais impactante do ponto de vista da saúde mental e do neurodesenvolvimento. Eu acho que esse é um dos pontos centrais dos nossos trabalhos.

O efeito da crise climática sobre a alimentação não aparece de forma dramática e imediata, como os efeitos diretos dos eventos climáticos, que ganham a mídia e provocam mobilização. Mas esses efeitos invisíveis são silenciosos e podem ser profundos e duradouros.

 

📄 Acesse o estudo completo:
https://link.springer.com/article/10.1007/s44187-025-00622-0