Juliana Garcia com antes e depois de reabilitação facial Foto: @julianagarcia.br

Por Letícia Fagundes  | jornalista investigativa

A violência sofrida por Juliana Garcia chocou o Brasil. Foram 61 socos desferidos dentro de um elevador, registrados pelas câmeras de segurança. O caso provocou indignação nacional e trouxe à tona mais uma vez a brutalidade da violência contra a mulher. Mas, enquanto Juliana ainda enfrenta um longo processo de reconstrução física e emocional, outro tipo de violência passou a circular nas redes sociais: uma imagem criada por inteligência artificial mostrando um rosto que nunca foi o dela.

Sem consentimento de Juliana, perfil do Instagram alterou sua imagem, onde noticiou reconstrução 100% do rosto. FOTO: Instagram

A fotografia feita por Inteligência Artificial, apresenta uma suposta recuperação, como se o processo de reconstrução facial tivesse sido rápido, simples e completo. Não é verdade.

Além de divulgar uma informação falsa, a imagem cria uma expectativa irreal sobre procedimentos médicos extremamente complexos, desconsiderando meses, ou até mesmo anos de cirurgias, enxertos, fisioterapia, tratamentos odontológicos, acompanhamento psicológico e recuperação emocional.

Um estudo internacional publicado em 2025 identificou cerca de 35 mil modelos públicos voltados especificamente para criação de deepfakes, que já haviam sido baixados quase 15 milhões de vezes desde 2022. A pesquisa mostra ainda que 96% desses modelos têm como alvo mulheres, evidenciando um recorte de gênero no uso abusivo dessa tecnologia.

Outro levantamento divulgado pela Agência Brasil mostrou que 81,2% dos casos de desinformação envolvendo inteligência artificial surgiram apenas nos dois anos anteriores, demonstrando uma aceleração sem precedentes da manipulação digital.  A preocupação aumenta porque as imagens produzidas por IA estão cada vez mais convincentes. Pesquisas internacionais mostram que grande parte das pessoas encontra dificuldade para distinguir fotografias reais de imagens artificiais. Uma revisão publicada pelo jornal Le Monde Diplomatique Brasil cita estudos em que entre 27% e mais da metade dos participantes não conseguiram identificar corretamente deepfakes, tornando-se vulneráveis à desinformação.

A falsa ideia de uma recuperação imediata

Reconstruções faciais decorrentes de traumas severos não seguem um roteiro previsível. Ao criar uma imagem “idealizada” por IA, o conteúdo transmite a falsa impressão de que bastam alguns procedimentos para que o rosto volte rapidamente ao normal.

Na prática a reconstrução depende de fatores como: extensão das fraturas, comprometimento de nervos e músculos, perda óssea, cicatrização individual, necessidade de novas cirurgias, reabilitação funcional e estética. Cada paciente responde de forma diferente e conforme os traumas que o corpo sofreu.

Nossa reportagem conversou com Juliana Garcia, que afirma não ter autorizado o uso de sua imagem em conteúdos criados por inteligência artificial. Também ouvimos uma das profissionais que acompanha sua recuperação e uma psicóloga, que alertam para os impactos desse tipo de manipulação sobre a vítima, outras pessoas em processo de reabilitação e o público, que pode ser levado a acreditar em uma realidade que não existe.

Fique com as entrevistas 

Juliana Garcia ganhou projeção nacional após sua história sensibilizar o país. Desde então, tem compartilhado publicamente os desafios de sua recuperação e defendido uma abordagem mais humana e responsável sobre casos de violência contra a mulher. Juliana nos concedeu entrevista sobre sua imagem ser usada para páginas ganharem repercussão, ao invés de informar, desinformam e usam de mentiras de sua recuperação.

IMJ-Em algum momento você autorizou o uso da sua imagem dessa forma?

Juliana Garcia com antes e depois de reabilitação facial Foto: @julianagarcia.br

 Juliana Garcia- Não me consultam não para usar minhas imagens. Inclusive essa foto que utilizaram essa foto como base, eu tinha feito a reconstrução, mas não tinha feito os procedimentos estéticos que resultaram na harmonização. Quando tirei a foto que usam como base para manipulação, ainda estava assimétrico, não há nenhuma foto que eu esteja sorrindo e me colocaram até sorrindo.  Isso é uso da minha imagem, sem minha autorização.

IMJ-O que mais te machucou ao ver essa publicação?

Juliana Garcia- Em relação ao que mais me machucou ao ver esse tipo de post, foi porque eu sei que existem mulheres que, infelizmente, já sofreram uma violência igual, maior ou parecida com a minha. E eu acho que deve ser muito duro se comparar e pensar: ‘Nossa, mas por que ela está assim e eu não estou?’. As pessoas, infelizmente, sempre fazem comparações. Sempre existiu isso de dizer: ‘Ah, mas fulaninha passou por tudo isso e olha como ela está.’ Como se a gente tivesse que passar a vida enfrentando desafios.

É igual quando alguém chega para você e fala: ‘Nossa, fulaninha é uma guerreira.’ Mas, às vezes, a gente não quer ser uma guerreira. Às vezes, a gente só quer sentar na janela e aproveitar a vista. Só que a mulher é muito marcada por esse papel de batalhadora, de guerreira. E, às vezes, a gente simplesmente não está no lugar em que gostaria de estar. Nem todo mundo nasceu para passar a vida inteira enfrentando batalhas. Ou melhor, todo mundo enfrenta batalhas, mas você entendeu o que eu quis dizer.

IMJ-Qual foi sua reação ao perceber que seu rosto havia sido alterado?

Juliana Garcia- Quando eu vi que haviam alterado meu rosto mesmo, depois de ter feito tantos procedimentos e estar satisfeita, porque estou satifeita com ele, ainda tem pessoas que sugerem que eu faça cirurgia para meu nariz. Eu realmente preciso fazer, mas não necessariamente estética, porque eu já tinha desvio de septo e prejudicou mais depois da violência que sofri, respiro apenas por um lado. As pessoas chegam e falam “só faltou arrumar o nariz”, por exemplo. Sendo que essa é a perspectiva, é o padrão que ela tem dentro dela, não necessariamente eu preciso atender essa expectativa, esse padrão. Dentro da bolha que as pessoas estão acostumadas, seria mais adequado que eu estivesse com meu nariz cirurgiado, com rinoplastia feita. Então eu fiquei olhando e realmente é um depósito de expectativas que não necessariamente ele é meu, mas sim de algumas pessoas da sociedade.

IMJ-Uma recuperação demora e na IA ela é em segundos. O que você acredita que pode prejudicar a formação social sobre violência, aos mais leigos?

Juliana Garcia- Eu acho bem péssimo, porque a sociedade, quando vai falar de um homem, muitas vezes se refere a ele como um menino. ‘Você viu o que o menino fez?’, como acontece com algumas personalidades famosas. Isso já tira um pouco da responsabilidade, já diminui. Num caso desse, é muito ruim porque as pessoas pensam: ‘Ah, mas não foi tão grave assim, porque em pouco tempo ela se recuperou. Olha, já está com a vida normal, já está andando…’

Então, isso passa uma falsa sensação de que foi fácil passar pelo que eu passei e de que não foi tão grave assim. É muito prejudicial de várias formas, inclusive na maneira como as pessoas interpretam a violência, como se ela não tivesse sido tão brutal. Então, não, isso não tem nada de bom.

Quando a tecnologia revitimiza

Para compreender os impactos psicológicos provocados pela manipulação de imagens por inteligência artificial envolvendo vítimas de violência, o Instituto Mulheres Jornalistas ouviu a psicóloga Fernanda de Oliveira Salustino (CRP 13/11876). A especialista explica como esse tipo de conteúdo pode revitimizar pacientes, reativar traumas, criar falsas expectativas sobre a recuperação física e emocional e até desvalorizar o trabalho de equipes multidisciplinares responsáveis pela reabilitação de pessoas que sobreviveram a agressões graves.

IMJ-Qual é o impacto psicológico para uma paciente que vê sua própria imagem alterada e divulgada como se fosse verdadeira?

Fernanda de Oliveira Salustino- Além de violação de sua privacidade e da sua autonomia, a divulgação de uma imagem manipulada pode provocar um sentimento e um sofrimento emocional. A sensação de revitimização, angústia ou até mesmo a perda do controle sobre a sua própria história. Em caso de violência grave, como o caso de Juliana Garcia, que foi uma tentativa de feminicídio, esse tipo de exposição pode reativar memórias traumáticas.Por exemplo, esse tipo de situação pode acarretar em um indivíduo, visualizar rapidamente quando é desrelacionado à agressão. A vítima pode reviver emocionalmente aquele momento do trauma e pode surgir um medo intenso, uma vontade de morrer, a sensação de impotência durante esse ataque ou até mesmo pode ressurgir acompanhadas de ansiedade, sofrimento psíquico, alterações de sono e sofrimento emocional significativo.

A psicóloga Fernanda de Oliveira Salustino

IMJ-Até que ponto esse tipo de conteúdo pode desvalorizar o trabalho de toda a equipe multiprofissional envolvida na recuperação?

Fernanda de Oliveira Salustino- A recuperação após um trauma grave ele envolve um processo complexo e minucioso, conduzido por vários profissionais diferentes, seja médicos, especialistas, psicólogos, enfermeiros, cirurgiões dentistas, entre outros. Quando essa imagem é manipulada sugere que uma recuperação rápida e simples, mas ela pode invisibilizar o esforço da paciente e do trabalho técnico da equipe muito profissional, transmitindo assim uma percepção passada da realidade.

IMJ-Que expectativa equivocada esse tipo de imagem pode criar em outras vítimas?

Fernanda de Oliveira Salustino-Sabemos que vivemos numa atualidade de muitas comparações. Então esse tipo de imagem ele pode gerar a falsa expectativa de que a recuperação física e muitas vezes emocional também acontece de forma rápida. Mas sabemos que cada indivíduo ele responde ao trauma trauma de maneira diferente. Os processos de reabilitação e elaboração psicológica demandam tempo. E claro, com suporte especializado e respeito ao ritmo individual de cada sujeito.

IMJ-A manipulação da foto de uma recuperação passa que interpretação as pessoas que estão também lutando pra recuperar-se? 

Fernanda de Oliveira Salustino- A manipulação da foto de uma recuperação passa que interpretação para as pessoas que também estão lutando para recuperar se a manipulação de uma foto implícita ela pode ser a de que um trauma severo pode ser recuperado rapidamente sem marcas ou dificuldade significativa para outras vítimas. Isso pode gerar comparações injustas sentimentos de inadequação culpa ou até mesmo de frustração por não apresentarem a mesma evolução mostrada naquela imagem e naquela foto.

IMJ-Existe o risco de pacientes acreditarem que a recuperação acontece de forma rápida por causa de conteúdos como esse?

Fernanda de Oliveira Salustino- Sim, essas fotos elas possuem forte impacto na construção de recuperações sociais. Quando esse tipo de conteúdos manipulados são apresentados como entre os verdadeiros podem criar expectativas irréais sobre aquele processo de recuperação. Isso pode levar as vítimas a subestimarem os efeitos físicos e psicológicos da violência, além de favorecer sentimento de desânimo quando a realidade não corresponde ao que foi divulgado.

IA vende milagre, mas a recuperação leva meses

Há meses acompanhando Juliana Garcia em seu processo de reconstrução da autoestima, a maquiadora especializada Danyelle Tavares conhece de perto os desafios que vão muito além da aparência. Em cada atendimento, ela testemunha que a recuperação não acontece de forma imediata nem segue um padrão. É um caminho construído ao longo do tempo, que envolve cicatrização, adaptação, acolhimento e a redescoberta da própria imagem. 

IMJ-O que as pessoas não enxergam quando veem apenas o resultado de uma reconstrução e não sabem as etapas?

A maquiadora e visagista profissional, Danyelle Tavares

Danyelle Tavares-Muita gente foca só no antes e depois, como se fosse um passe de mágica. O que ninguém vê é o processo emocional que a pessoa enfrenta. Para quem passou por um trauma, a maquiagem não é só uma questão de estética, é um passo de cada vez para a pessoa se reconhecer no espelho de novo. É um exercício diário de paciência, de respeito com o próprio tempo e, principalmente, de acolhimento. A parte que as pessoas não veem é o choro, a insegurança e a coragem que ela precisa ter para encarar o reflexo todos os dias.

IMJ-Quando você viu essa imagem gerada por inteligência artificial, qual foi sua reação como profissional?

Danyelle Tavares-Sendo bem sincera, como profissional, minha reação foi de preocupação. A IA entrega uma perfeição que simplesmente não existe na vida real, ela cria um padrão visual que é totalmente inalcançável. Por um lado, eu entendo que a tecnologia tem o seu lugar e pode ser útil em várias áreas, mas quando a gente fala de imagem humana, ela acaba gerando algo artificial que ignora a nossa realidade. A gente vive hoje em um mundo onde muita gente busca um padrão de beleza que não existe, e essas imagens geradas por computador só reforçam essa pressão por uma perfeição que é, na verdade, uma mentira.

IMJ-Que expectativa equivocada esse tipo de imagem pode criar em outras vítimas?

Danyelle Tavares-O maior problema é a frustração que isso gera. Esse tipo de imagem cria uma expectativa de um resultado perfeito e instantâneo que, na prática, não existe. Isso não afeta apenas quem está se recuperando de um trauma, mas as pessoas como um todo, que acabam sendo bombardeadas por um padrão visual que é inalcançável. Quando alguém compara a própria realidade ( com suas marcas, texturas e imperfeições ) com algo que foi gerado por computador, a sensação é de que sempre falta alguma coisa ou que existe algo errado. Isso cria uma cobrança muito injusta e perigosa, onde o valor de uma pessoa passa a ser medido por uma imagem editada ou artificial, e não por quem ela realmente é.

IMJ-Existe o risco de pacientes acreditarem que a recuperação acontece de forma rápida por causa de conteúdos como esse?

Danyelle Tavares- ​Com certeza. A gente vive na era da rapidez, e parece que tudo precisa ser instantâneo. Mas, no caso de um trauma, não existe “rápido” . Existe o tempo da cicatrização, tanto a física quanto a da alma. Conteúdos que vendem uma solução imediata escondem que a reconstrução é um trabalho de formiguinha, onde cada dia de progresso precisa ser muito celebrado, independentemente da velocidade.”

IMJ-O que a você gostaria que a população entendesse sobre a recuperação?

Danyelle Tavares- Eu queria que as pessoas entendessem que a recuperação não é sobre voltar a ser quem era antes, mas sobre aprender a ser quem se é hoje. A beleza na recuperação está na resiliência. Não é sobre esconder marcas, é sobre transformar a relação com elas. O meu papel como profissional não é apenas “maquiar” , é ouvir, acolher e lembrar a pessoa que ela é muito maior do que qualquer agressão que sofreu. A recuperação é um ato de amor-próprio que merece todo o nosso respeito e paciência

Mais do que uma fotografia falsa

A discussão vai além da tecnologia. Ela envolve ética, direito à imagem, responsabilidade das plataformas e respeito às vítimas. Em 2025, o Brasil endureceu a legislação para o uso malicioso de inteligência artificial na manipulação de imagens e vozes, reconhecendo que esse tipo de conteúdo pode causar danos reais às pessoas. No caso de Juliana Garcia, a inteligência artificial não alterou apenas um rosto.Alterou a percepção pública sobre uma recuperação que continua sendo lenta, delicada e profundamente humana.