Por Letícia Fagundes, jornalista investigativa

Aos oito anos, Cristina Patreque Naite ainda não compreendia o que significava casamento. Nascida em Chimucono, na província de Manica, em Moçambique, ela conta que foi entregue pelo próprio pai e levada para viver com um homem. Segundo seu relato, foi negociada em troca de bens como chinelos e refrigerantes. O que os adultos ao seu redor chamavam de casamento, ela experimentou como medo, violência, exploração e perda da infância. Anos depois, Cristina conseguiu fugir.

Hoje, aos 25 anos, vive no Ceará, estuda Odontologia, trabalha como cuidadora de idosos, escreve e produz conteúdo nas redes sociais. A menina que um dia não teve o direito de decidir sobre o próprio destino tornou-se uma mulher que usa a própria história para falar sobre os direitos de outras crianças.

A história de Cristina ajuda a iluminar uma realidade que atravessa fronteiras, religiões e diferentes sociedades: o casamento infantil não é uma prática restrita a meninas, nem a um determinado país ou continente. Para a UNICEF, casamento infantil é qualquer casamento formal ou união informal envolvendo uma pessoa com menos de 18 anos, seja com um adulto ou com outra criança. A organização classifica a prática como uma violação fundamental dos direitos humanos.

Os números dão dimensão ao problema. Cerca de 650 milhões de mulheres e meninas vivas hoje foram casadas antes dos 18 anos, segundo os dados mais recentes da UNICEF. Ainda hoje, aproximadamente 12 milhões de meninas são casadas a cada ano. Apesar da redução global registrada nas últimas décadas, o ritmo de queda continua insuficiente para que a prática seja eliminada até 2030, como prevê o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

O relato de Cristina ganha dimensão para além da própria história. Ela não fala apenas da menina de oito anos que foi levada para longe de casa. Fala daquilo que acontece quando uma criança deixa de ser reconhecida como criança e passa a ser tratada como alguém que pode ser entregue, negociado e submetido às decisões dos adultos.

Fique com a entrevista

 

 Você foi casada aos 8 anos após ser vendida pelo seu pai. Como aquela menina de 8 anos entendia o que estava acontecendo e quais lembranças mais marcaram aquele momento?

Cristina Patreque, na adolescência quando já havia fugido do casamento infantil

Naquele momento eu não entendia o significado de casamento. Eu era apenas uma criança. Quando disseram que eu iria embora, imaginei que talvez minha vida fosse melhorar, que finalmente eu pudesse brincar, estudar e fazer amigos. Mas a realidade foi completamente diferente. Descobri que tinha sido vendida e que passaria a viver como uma escrava. As lembranças mais fortes são o medo, o desespero, os gritos pedindo pela minha mãe e a sensação de ter sido abandonada por quem deveria me proteger. Aquela menina perdeu a infância antes mesmo de entender o que era ser criança.

Você já contou que sua mãe foi assassinada e que sua madrasta também tentou matar seus irmãos. Como essas perdas e violências na infância impactaram a sua vida e a mulher que você se tornou?

Perdi minha mãe quando tinha apenas três meses de vida e cresci sem conhecer o carinho dela. Depois vivi muitos anos cercada de violência, humilhações e rejeição. Durante muito tempo acreditei que realmente não tinha valor, porque era isso que ouvia todos os dias. Essas experiências deixaram marcas profundas, mas também despertaram em mim uma força que eu nem sabia que existia. Hoje escolho transformar toda essa dor em propósito. Quero que a minha história ajude outras meninas a acreditarem que existe vida depois da violência.

Em muitos lugares, o casamento infantil é tratado como tradição ou cultura. Na sua opinião, onde termina o respeito às tradições e começa a violação dos direitos humanos?

Toda cultura merece respeito, mas nenhuma tradição pode justificar o sofrimento de uma criança. Quando uma menina perde o direito de estudar, brincar, sonhar e decidir sobre a própria vida, não estamos mais falando de cultura. Estamos falando de violência e de violação dos direitos humanos. Crianças precisam ser protegidas, nunca negociadas.

Você costuma dizer que foi “vendida” em troca de bens como chinelos e refrigerantes. O que essa lembrança representa para você hoje e o que ela revela sobre a forma como meninas são tratadas em algumas comunidades?

Cristina com seus dois irmãos. O irmão tamb[em já estava sendo negociado pelo pai, para um casamento.
Essa lembrança ainda dói muito. Não pelos objetos em si, mas porque mostra que minha vida foi tratada como se tivesse um preço. Eu não fui vista como filha, nem como criança. Fui tratada como uma mercadoria. Infelizmente, isso ainda acontece em algumas comunidades onde meninas são privadas do direito de escolher o próprio destino. Minha história mostra que nenhuma criança deveria ser tratada dessa forma.

Durante anos você sofreu violência física, psicológica e sexual. Em que momento percebeu que precisava fugir e de onde encontrou forças para fazer isso?

Desde muito pequena eu sonhava em fugir. Fiz várias tentativas porque sabia que, se permanecesse ali, poderia morrer. A força veio dos meus sonhos. Eu dizia para mim mesma que um dia estudaria, viajaria de avião e construiria uma vida diferente. Minha fé também foi essencial. Mesmo nos momentos mais difíceis, eu acreditava que Deus tinha um propósito para mim e que minha história não terminaria naquela dor.

Sua irmã teve um papel fundamental para que você conseguisse escapar. O que ela representa na sua história e qual foi a importância da solidariedade entre mulheres para a sua sobrevivência?

Minha irmã representa esperança. Ela foi a primeira pessoa que acreditou em mim e me ajudou a recomeçar. Além dela, outras mulheres também estenderam a mão quando eu mais precisava. Aprendi que a solidariedade entre mulheres salva vidas. Quando uma mulher decide proteger outra, ela pode mudar completamente o destino de alguém.

Cristina Patreque com seu jaleco de Odontologia.

Muitas meninas ainda vivem situações semelhantes em Moçambique e em outros países. O que falta para que essa realidade mude de forma efetiva?

É preciso investir na educação, fortalecer as leis e garantir que elas sejam cumpridas. Também é necessário conscientizar famílias e líderes comunitários sobre os direitos das meninas. Além disso, quem consegue fugir precisa encontrar apoio, acolhimento e oportunidades para reconstruir a própria vida.

Há quem diga que pessoas de fora não deveriam criticar o casamento infantil ou outras práticas porque fazem parte da cultura local. O que você responderia a quem usa esse argumento?

Eu responderia que ninguém conhece melhor essa realidade do que quem viveu nela. Eu vivi essa violência. Sei o que acontece por trás dessa prática. Respeitar uma cultura nunca pode significar aceitar que crianças tenham sua infância roubada. Direitos humanos existem para proteger todas as pessoas, independentemente do lugar onde nasceram.

Depois de tudo o que viveu, como foi reconstruir sua identidade, sua autoestima e sua capacidade de confiar nas pessoas? O que ainda é mais difícil nesse processo?

Cristina em sua única foto na adolescência.

Foi um caminho longo e doloroso. Durante anos eu acreditava que não era bonita, inteligente ou capaz. Aos poucos fui descobrindo meu verdadeiro valor através dos estudos, do trabalho e das pessoas que acreditaram em mim. Ainda existem feridas que fazem parte da minha história, e confiar totalmente nas pessoas continua sendo um desafio. Mas hoje sei que meu passado não define quem eu sou nem limita o meu futuro.

Se você pudesse falar diretamente com líderes comunitários, autoridades e famílias que ainda permitem ou incentivam casamentos infantis, e também com meninas que vivem essa realidade hoje, qual seria a sua mensagem?

Às famílias e aos líderes, eu peço que olhem para as meninas como seres humanos e não como objetos de troca. Protejam suas filhas. Invistam na educação delas. Uma menina merece crescer em liberdade, com dignidade e oportunidade para construir seu próprio futuro.

Às meninas que vivem essa realidade, quero dizer que vocês não estão sozinhas. Eu sei o quanto dói, porque passei por isso. Nunca deixem de acreditar que existe uma saída. Vocês têm valor, têm direitos e merecem viver sem violência. Hoje eu estou viva para provar que é possível sobreviver, recomeçar e transformar a dor em esperança. Minha história não terminou no sofrimento, e a de vocês também não precisa terminar. Que nunca deixem de sonhar, porque um sonho pode ser o primeiro passo para a liberdade.

 

Meninos também são vítimas de casamentos infantis 

Mas há uma parte dessa história que costuma receber menos atenção: os meninos também são vítimas do casamento infantil. Estimativas da UNICEF apontam que 115 milhões de meninos e homens no mundo foram casados antes dos 18 anos. Entre os países com dados disponíveis, a prevalência varia bastante; em média, 4,5% dos homens jovens de 20 a 24 anos haviam sido casados ou estavam em união antes dos 18 anos.
A diferença entre os sexos, entretanto, é significativa. A prevalência entre meninas é cerca de cinco vezes maior que entre meninos. Entre mulheres de 20 a 24 anos, aproximadamente uma em cada cinco foi casada na infância; entre homens da mesma faixa etária, a proporção é de cerca de um em cada 30. Isso não significa que a experiência de meninos e meninas seja idêntica. A UNICEF aponta que os impactos variam de acordo com sexo, idade e contexto social. Meninas estão particularmente expostas à gravidez precoce, interrupção dos estudos, isolamento, violência doméstica e desigualdades econômicas. Meninos submetidos ao casamento infantil também podem ser colocados prematuramente no papel de adultos, com responsabilidades econômicas, paternidade precoce e interrupção da educação.