Por Letícia Fagundes, jornalista investigativa
Grace Gianoukas é movimento. Gaúcha, não perdeu o sotaque. Por isso, ao ouvi-la conversando comigo na entrevista, senti a pureza e a proeza da geração de Grace.
Atriz, diretora e também uma das grandes referências da comédia brasileira, Grace construiu uma trajetória marcada por personagens fortes, pelo teatro, pela televisão, pelo cinema e principalmente, sua capacidade de transformar a experiência de vida em matéria-prima para a arte.
Escolhi essa entrevistada porque acompanho os trabalhos dela, mas pelos trejeitos peculiares, o tom de voz, suas expressões, o respeito por si mesma e pelo público. Os diferentes que me chamam a atenção, afinal eles fazem história porque não estão preocupados em repetir padrões ou entrar neles.
Ao longo de décadas, Grace interpretou personagens que atravessaram diferentes momentos da dramaturgia brasileira. Me chamou a atenção, ao longo da entrevista, ela falar sobre como fazer rir para cada tipo de público é diferente. Às vezes, os acessos, a cultura, o que a pessoa acessou durante sua vida é o que vai causar o efeito.
Nesta entrevista, Grace fala sobre os critérios que utiliza para escolher seus personagens, os papéis que decidiu recusar e a responsabilidade de pensar na mensagem que uma obra leva ao público. Falei com ela sobre o peso de ser mulher na televisão, no que se refere à imagem, ao que consomem do gênero feminino e ao etarismo.
Claro que não deixei de falar com uma atriz cheia de saberes sobre como os influenciadores digitais estão alcançando pessoas e de que modo, mas ela faz refletir o que afinal era ser um influenciador.
Eu não vou dar muito spoiler, porque esses textos de entrada de entrevistas valem muito pouco perto da voz de quem falou. Ah, claro que ela fala dos próximos projetos e para quem é fã, vale a pena ler até a última linha.
Fique com a entrevista da excepcional e grandiosa atriz, Grace Gianoukas.
Você sempre interpretou personagens muito fortes e pouco convencionais. Isso foi uma escolha ou os papéis foram encontrando você?

Os personagens que eu crio, que são pouco convencionais, são uma escolha, são uma criação minha. Então, vem de uma necessidade de falar sobre alguma coisa, e esses personagens vêm surgindo. Isso é uma parte, um aspecto do que eu acho interessante, como tipos e tais. E eu acho que isso também trouxe a oportunidade de ser convidada para fazer personagens convencionais.
Você saiu do Rio Grande do Sul e construiu uma carreira nacional. Em algum momento sentiu que precisou “neutralizar” seu sotaque ou sua identidade gaúcha para conquistar espaço?
Olha, eu não senti pressão nenhuma para neutralizar o sotaque. Quando há necessidade de fazer outro sotaque, aí, geralmente, a gente tem aula de prosódia. Eu acho que não me atrapalhou, não, de forma alguma. Embora as pessoas achem que eu tenha muito sotaque, eu não me dou conta, é lógico. É o meu jeito, né? Enfim, acho que isso faz parte do meu estilo.
O etarismo na dramaturgia é mais cruel para as mulheres do que para os homens? Por quê?
Porque tudo é mais cruel com as mulheres do que com os homens, né? Em todas as áreas. E, em relação ao etarismo, eu acho que a gente tem uma coisa psicológica de ter mocinhos, mocinhas, jovenzinhos, para que os jovens se identifiquem, que estão assistindo.
A verdade, eu acho que isso está, de certa maneira, se transformando um pouco. É que os jovens, nesse ritmo de vida que se leva agora, com esses trabalhos on-line, com essa coisa da internet e tudo mais, cada vez têm menos tempo para sentar, estar em casa e assistir televisão, principalmente uma TV aberta.
Então, eu acho que isso está mudando. A gente pode ver grandes personagens femininas, mais velhas, entrando na dramaturgia. E eu acho isso maravilhoso.
Mas tem um esquema. Falando de televisão, há um esquema de padrão, de formato, do tipo de trabalho que é a novela, que tem que ter a história de amor, tem que ter a vilã, tem que ter o patrão que persegue, a patroa malvada. Tem várias figuras que se repetem na dramaturgia. Claro, claro, diferenças, né? Mas, assim, existe um padrão, um esquema, e eu acho que isso sempre será. Isso reflete um pouco a sociedade, que é muito etarista com as mulheres.

Já aceitou algum papel que hoje não aceitaria mais? Por quê?
Não, eu nunca aceitei personagens que não tivessem a ver comigo ou que eu não pudesse transformá-los de uma maneira positiva. Eu disse não para muita coisa.
Porque eu acho que é uma responsabilidade muito grande a mensagem que tu leva para o público. É claro que, se eu for convidada para fazer uma vilã, eu vou interpretar essa vilã com o melhor, com todos os recursos, todas as ferramentas que eu tenho, para que ela seja realmente uma vilã, porque ela entra no contexto, dentro da obra como um todo, ela tem um papel crítico.
Agora, uma personagem que seja feita para humilhar mulher, que seja motivo de chacota para a humilhação feminina, ou de diferenças, ou isso eu não faço, nunca fiz e não farei.
O humor mudou muito nos últimos 30 ou 40 anos. O que hoje já não faz mais sentido para você como atriz e humorista?
Uma coisa importante que eu preciso te falar: eu não gosto muito do termo humorista. Eu sou uma atriz. A comédia é uma ferramenta da interpretação.
Então, eu acho que humorista reduz muito o que um ator pode fazer. Eu sou uma atriz que trabalha com comédia também. E isso eu tenho feito questão de deixar muito claro nos meus trabalhos, principalmente em teatro. Minhas personagens, às vezes, fazem comédia aos prantos. E o patético é que é o engraçado.
Então, isso é uma coisa… Eu posso estar sendo até muito purista e tal, mas é um detalhe que eu acho importante.

Eu acho que a maneira como o mundo ri traduz um pouco o que a sociedade é. Eu sempre falo uma frase que eu vou repetir aqui: “O caráter de uma pessoa se mede pelas coisas que ela acha engraçadas.” Essa frase é do Goethe, e eu acho que ela traduz muito as transformações da sociedade e as diversas maneiras que os grupos culturalmente têm, a sociedade. Os pequenos grupos têm culturalmente de rir.
Eu acho que isso a gente analisa numa coisa de amplitude de conhecimento científico, de conhecimento sociológico, de conhecimento econômico. Econômico, à medida que as pessoas, que aquele grupo tem um pouco mais de conhecimento, de amplitude, de conhecimento, ele vai rir de coisas mais sofisticadas.
Hoje um influenciador pode alcançar milhões de pessoas sem ter formação artística ou qualquer outra formação. Como você enxerga isso?
Eu preciso te falar, não sou uma conhecedora de influencers para te dar uma opinião sobre isso. Eu não acompanho ninguém assim que se diga “eu sou influencer”. Por exemplo, em redes sociais e coisas desse tipo, eu costumo acompanhar cientistas, filósofos, pessoas assim, físicos. Eu gosto disso, são pessoas que me trazem mais conhecimento.
Em relação a influencers virarem artistas ou serem artistas, eu não sei. Deve ter alguns artistas que fazem temas e que colocam nas redes. E tem os seguidores, e aí eu não sei se eles já podem se chamar influencers. Eu não conheço isso.
Mas eu acho que a gente se aproxima do que nos traduz. Então, assim, muitas vezes, em várias gerações, pessoas que não eram exatamente da área artística acabaram por ter um talento que foi se revelando ao longo do exercício de outras profissões. Sei lá, um músico, como é o caso do Mussum, ou, sei lá, algumas pessoas que começaram sendo modelos e que foram tendo a descobrir suas possibilidades dentro dessa coisa de interpretação e tal, foram fazer cursos, se especializaram.
Eu acho que isso é comum: uma pessoa sair de uma área e descobrir seu talento para outra. Mas eu acho que isso acontece. Eu não sou uma grande especialista em influencers, eu não acompanho ninguém assim que, digamos assim, é um grande artista, influencer artista. Não é um tipo de mídia que eu consuma.
O que é um influencer? O que precisa para ser um influencer? Tem pessoas que têm 20 mil seguidores e falam: “Eu sou um influencer”. Eu tenho, sei lá, 250 mil seguidores, mas eu não acho que eu seja um influencer.
O que define um influencer? E quem são as pessoas que seguem um influencer? Por quê? Eu acho que as pessoas seguem por projeção, por admiração, por motivos vários.
Se essas pessoas que eu sigo, que são pensadores e que me trazem conhecimentos, o que me interessa é ampliar meu conhecimento. Eu sigo pessoas que eu não sei se são influências ou não, do conhecimento da cultura e da ciência, mas o meu interesse é o que me faz seguir pessoas, é o quanto de conhecimento elas podem me trazer.
Então, eu acho que tem público para tudo.
Você acredita que a IA representa uma oportunidade ou um risco para atores, principalmente em relação à voz, imagem e direitos autorais?
Nós temos que ter muito cuidado com IA, principalmente em relação a direitos de imagem, direitos de voz e fakes.Eu acho muito delicado. Eu acho uma área ainda muito nova, com consequências que não se sabe exatamente quais serão, mas pode prever todas as consequências do uso da inteligência artificial em todas as áreas, como tem sido.
Mas eu acho que, na área de direitos de imagem e direitos autorais, é muito delicado. Isso precisa ser legislado imediatamente.Eu não cedo a minha imagem, nem a minha voz, para a inteligência artificial. Eu gostaria que houvesse uma lei onde eu pudesse me garantir.
O que mudou para quem sonha em ser ator hoje em comparação com quando você começou?
Eu acho que não mudou nada. Quem quer ser ator tem que estudar. Quem quer ser um bom ator tem que estudar, tem que ler muito, tem que ir ao teatro, tem que ir ao cinema, tem que consumir tudo de cultura, de manifestações populares, de manifestações culturais do mundo inteiro.
Hoje, com as redes sociais, a gente tem muito mais acesso, e com os streams a gente tem acesso a filmes e materiais, documentários e TED Talks do mundo inteiro, com pensamentos e técnicas do mundo inteiro.
Eu acho que o que mudou é que hoje a gente tem mais recursos para estudar e se formar um melhor ator. Tem mais recheio, mais conteúdo do que tinha na minha época. Então, não há desculpa para uma pessoa que quer ser artista ter uma formação empobrecida.

Um ator precisa estudar e precisa assistir e precisa começar de baixo, sabendo tudo. Sabe limpar o palco, sabe pendurar uma cortina, sabe carregar uma mala, sabe se maquiar. Ele sabe ter noção de luz, ter noção de som, ter noção de espaço. Ser ator é muito mais do que só falar com o espectador, é muito mais que isso.
Tanto que tem gente que anda trabalhando como ator que não tem formação nenhuma.
Em quais projetos você está trabalhando atualmente? Há novos espetáculos, séries, novelas ou filmes?
Eu estou viajando o Brasil ainda com “Narciso Pra Ceder”, esse espetáculo que recebeu o Shell, APCA, Prêmio Ferreira, para mim, para o Kiko Rieser, que é o autor e diretor do espetáculo. Nós encerramos a temporada em São Paulo, mas agora temos sido convidados a ir para festivais, fazer algumas turnês pelo Brasil, por algumas cidades que ainda não fomos, ou voltar para algumas cidades que nós já fomos. Então, continuo fazendo “Narciso Pra Ceder”, esporadicamente.
Estreei agora, início de agosto, uma nova comédia chamada “Dora”, da Tereza Falcão, escrita pela Tereza Falcão, dirigida pelo Gilberto Gavronski, que é uma comédia que fala de escolhas, né? Do quanto a gente vai abrindo mão pelos outros, das coisas que a gente quer, e como é importante a gente ter a noção de que a gente pode recomeçar tudo agora, se eu quiser. É sempre importante a gente ir atrás dos nossos sonhos.
É uma comédia muito legal, engraçadíssima, com uma equipe maravilhosa de artistas que está comigo, está ao meu lado. Cenografia, figurino, trilha sonora, iluminação, produção. Enfim, é um espetáculo que já estreou e já está um sucesso no Rio de Janeiro e que segue agora em viagem. Vamos fazer a temporada de São Paulo e, em breve, estaremos viajando no Brasil também, com novas temporadas, tanto no Rio quanto em São Paulo.
Também tenho convite para um novo trabalho na televisão, a partir do ano que vem.
E uma coisa maravilhosa: agora, em dezembro, sai o livro escrito pelo Daniel Funes, que é uma espécie de biografia sobre o meu trabalho, sobre a minha trajetória. Em dezembro será lançado, já começou a pré-venda. Chama “Estado de Grazie”.
Existe algum personagem ou trabalho que você ainda sonha em fazer?
Sim, muitos trabalhos que eu ainda quero fazer.
Eu estou num momento assim de muito entusiasmo. Está sendo muito bom, tem sido muito bom ensaiar e estrear espetáculo trabalhando com o Gilberto Gavronski, que é amigo. A gente se conhece há mais de 45 anos, nunca tínhamos trabalhado juntos. Somos gaúchos.
Então, está sendo uma oportunidade incrível. Eu estou com 62 anos, então, assim, esse encontro prova que a gente tem sempre coisas maravilhosas aparecendo aí para a gente fazer, para a gente se divertir, para cumprirmos os nossos conhecimentos, as nossas trocas.
Então, tenho certeza que tem muitas coisas. Quero trabalhar mais com o Gilberto. Tem um projeto também que eu quero fazer com o Gilberto Gavronski, que é com o Marcos Breda. É uma montagem do nosso querido Caio Fernando Abreu.
Ah, tem muita coisa, muita coisa acontecendo, muita coisa e muita coisa para acontecer que eu ainda nem sei, e eu estou aberta a tudo.
Tem mais um filme para o ano de 2027 que eu fiz com sete produções, que se chama “Amor em Alta”, com a Jennifer Sete, maravilhosa, que é produtora de cinema, atriz, multitalentosa. André Gonçalves, tem o Henri Castelli também, direção do Oscar Francisco. Muito legal para o ano que vem.
Se pudesse resumir suas décadas de carreira, o que falaria?
Resumindo a minha carreira, as minhas décadas de carreira, é uma trajetória de muito aprendizado, onde eu sei que eu vou aprender até o último dia que eu estiver no palco, na frente de uma câmera.
Eu sei também que hoje eu tenho ferramentas e entendimento, ferramentas de interpretação e o entendimento, uma consciência de mim em cena que eu não tinha. Eu também tenho recursos emocionais que eu vim adquirindo à medida que eu fui amadurecendo e que eu fui entendendo um pouco mais as emoções humanas, que isso vem com a maturidade.
E isso são recursos, entendimentos que acabam virando estofo para eu levar para as personagens.
Então, assim, eu acho que uma das coisas mais legais sobre ter 45 anos de carreira é que, quanto mais a gente vive, melhor ator a gente se torna. Porque mais a gente leu, mais a gente observou, mais a gente assistiu.
Então, se eu continuar ainda, tiver a oportunidade de estar no palco até os 90, eu tenho certeza que, a cada ano, eu vou conseguir melhorar um pouquinho o meu trabalho como atriz.
Porque atuar com bons atores não é só técnica, é vivência, é amplidão. A amplitude emocional é a consciência e empatia em relação ao outro e às diferentes maneiras de pensar e de viver, e isso a vida nos traz à medida que a gente convive com os humanos da nossa espécie.
Então, eu sou grata por ter a oportunidade de continuar trabalhando do começo.

