Cães de serviço para saúde

Por Giselle Cunha, Jornalista- RJ 

giselle.cunha@mulheresjornalistas.com 

Chefe de Reportagem: Juliana Monaco, Jornalista 

Editora Chefe: Letícia Fagundes, Jornalista 

Como animais auxiliam em tratamentos e identificam problemas de saúde

Terapia Assistida por Animais ou simplesmente TAA é um tipo de terapia alternativa ou complementar na qual os animais são os principais condutores do método aplicado. Essas terapias auxiliam indivíduos com deficiência física ou intelectual, pessoas com doenças psiquiátricas e depressão, pessoas hospitalizadas, idosos e crianças com necessidades específicas.

Não existe uma data exata para o surgimento desta prática, mas estima-se que no século IX, pacientes de um hospital, na cidade de Ghee, Bélgica, foram tratados com o auxílio de pássaros. Já pelo fim do século XVIII, por volta de 1792, há indicações que pássaros, gaivotas, falcões, coelhos e equinos também foram usados em terapias por William Tuke para ajudar pessoas com distúrbios mentais, na Grã-Bretanha.

Além das terapias, os cães de serviço também contribuem como cão guia, cão ouvinte, cão de alerta de convulsão, cão de mobilidade (para pessoas com restrições ou cadeirantes), cão de alerta de alergia, cão militar (conforme falamos na reportagem Cão de Guerra e Cavalaria do Exército e cão de alerta para diabéticos. Cada uma das funções necessita de treinamento intenso e específico.

Em 1989, uma mulher enviou uma carta para o britânico The Lancet, relatando uma atenção e farejo excessivos em uma parte de sua perna onde havia uma lesão, relatando, inclusive, que o cachorro também tentou mordê-la no local lesionado. Após esse episódio, a proprietária resolveu procurar um médico e fazer os exames necessários, que confirmaram a existência de um melanoma maligno. O caso ganhou repercussão e, a partir daí diversos estudos foram realizados com cães, confirmando a capacidade de identificação não só de câncer, mas de outras doenças.

Os cães que alertam sobre diabetes também têm apresentado resultados excelentes no mundo inteiro. Esse sucesso ocorreu devido ao olfato super apurado dessa espécie, que possui mais 120 milhões de células olfativas. Eles são capazes de farejar odores específicos, como adrenalina e cortisol, exalados pelo ser humano e conseguem alertar quando a glicemia se apresenta baixa ou alta.

O Instituto Mulheres Jornalistas conversou com Nicole Leal Pereira, treinadora formada e proprietária da cadelinha Pin, que tem 9 anos e atua como cão de alerta para diabetes.

Mulheres Jornalistas (MJ): Quando você descobriu que estava com a diabetes Tipo 1?

Nicole Leal Pereira: Fui diagnosticada aos 9 anos de idade.

MJ: A Pin já estava com você ou veio justamente com esse propósito de identificação?

Nicole: Minha cachorrinha veio anos depois. Não para ser um cão de alerta, só para ser minha companheira. Fazíamos agility juntas e treinamos vários truques só por diversão mesmo. Mas, uma vez, estava morando sozinha com ela e comecei a pesquisar como treiná-la para alertar as minhas hipoglicemias. Às vezes, a minha glicemia baixa muito rápido e eu não sinto, o que é muito perigoso. Foi então que começamos esse novo caminho.

MJ: Onde ela foi treinada e quanto tempo durou até estar apta?

Nicole: Eu mesma a treinei com ajuda de alguns treinadores dos EUA, que me ajudaram remotamente. A Pin demorou um ou dois meses para aprender a alertar a hipoglicemia e hiperglicemia. Essa parte é relativamente rápida.

MJ: A Pin consegue identificar esses níveis em qualquer pessoa ou somente no seu tutor?

Nicole: A Pin só alerta a mim, mas meu namorado, que também tem diabetes tipo 1, possui uma cachorrinha que alerta qualquer pessoa. É possível treinar o alerta para pessoas diferentes, basta usar amostras do cheiro de diferentes pessoas.

MJ: O que exatamente ela faz ao identificar que algum nível esteja desregulado?

Nicole: A Pin usa a patinha para me avisar, ela bate com a pata. Escolhemos esse alerta por ser um comportamento que ela não fazia naturalmente.

MJ: Quais as outras funções de identificação nas quais os cães também são usados?

Nicole: Existem várias! Estavam treinando cães para alertar até a covid-19, mas existe treino de alerta para convulsões, problemas cardíacos, crises de pânico etc. A lista é longa. Um cão com bom temperamento pode ser treinado a alertar para qualquer condição médica que envolva mudança hormonal.

MJ: Você já passou por alguma crise e o alerta possibilitou que não fosse mais grave?

Nicole: Claro, hipoglicemia acontece, infelizmente, com frequência. Então ela me alerta semanalmente. A vantagem do alerta é que ela me avisa antes mesmo da uma crise acontecer. É uma questão de prevenção mesmo. Ou seja, ela me alerta enquanto há possibilidade de comer alguma coisa (no caso da glicemia baixa) ou tomar insulina (glicemia alta). Para muitas pessoas, esses alertas não são grandes histórias emocionantes, mas, para mim, é uma questão de vida ou morte, diariamente.

Sobre cães que fazem parte da TAA, voltada para o desenvolvimento motor, entrevistamos a doutora Lívia Nogueira Gilly de Miranda, que é médica veterinária e pós-graduada em comportamento animal e treino.

Mulheres Jornalistas (MJ): Há quanto tempo você atua no ramo de Terapia Assistida por Animais (TAA)?

Dra. Lívia: Atuo desde 2014, quando fui fazer minha pós-graduação em Portugal, pois na época não havia opções aqui.

MJ: Como você define a TAA?

Dra. Lívia: Ela é uma ferramenta a mais, dentro do processo terapêutico. Não funciona sozinha, mas tem bons resultados, além de poder ser utilizada em uma série de situações com adultos e crianças. Tudo que envolve qualquer dificuldade de comunicação, dificuldade de relacionamento, faz com que a presença do animal facilite o processo através da pureza, da doação e tranquilidade transmitida por eles. Os animais não nos julgam, com eles não existe o preconceito, somos todos iguais. Essa aceitação, o afeto e a comunicação são as questões principais que vimos evoluir durante a TAA.

MJ: Como você escolhe os cães para o trabalho e quanto tempo demora o treinamento deles?

Dra. Lívia: Em primeiro lugar, eles precisam ter uma aptidão nata, porque cada indivíduo é diferente. Por mais que o animal seja treinado para determinada função, existe uma questão individual que é natural daquele animal ou não. Existem animais que são muito bem treinados, mas você percebe que ele não se sente totalmente à vontade com determinadas situações que podem ocorrer dentro do ambiente terapêutico. Por exemplo: há animais que são muito sensíveis a uma criança autista em crise, portanto o grito e o choro vão mexer muito com o emocional desse animal.

É importante termos consciência que se trata de uma terapia para aquele paciente, mas não podemos esquecer que é necessário manter o bem-estar do animal, que naquele momento está sob nossa responsabilidade. Temos que avaliar também animais que podem ter reações agressivas, então eles passam por uma série de testes até que possamos dar um parecer final. Ele precisa demonstrar que gosta muito de estar com pessoas e que sabe lidar bem com essas situações adversas.

Já o tempo de duração varia de acordo com a resposta de cada animal, pois os comandos não necessariamente são muito claros, uma vez que temos pacientes com dificuldade de fala e/ou movimentos.

MJ: Existe alguma restrição para esse tipo de acompanhamento e em quanto tempo aparecem os primeiros resultados?

Dra. Lívia: Depende de alguns fatores, como a reação inicial desse paciente com a presença do animal, apesar de serem fofos, nem todos os pacientes estão acostumados e muitas vezes precisam de um tempo para se adaptar. Mas, em regra, os primeiros resultados já começam a aparecer na segunda ou terceira sessão. Os animais também são treinados para respeitar o espaço e o tempo daquele paciente, isso ajuda bastante nesse processo.

Já tivemos ótimos resultados com crianças que nunca haviam falado e que, após as sessões com o animal, ela começa a chamá-lo, a competir e interagir com ele.

MJ: É trabalhado com elas o sentimento de luto, tendo em vista que o tempo de vida e a disponibilidade animalzinho pode não ser longa?

Dra. Lívia: Em regra, não há necessidade de trabalhar essa parte porque se trata de passagens rápidas. Elas têm início, meio e fim e são animais jovens, porém bem treinados.

MJ: Quais as atividades compartilhadas entre as crianças e os cães?

Dra. Lívia: No centro de desenvolvimento infantil onde atuo, é utilizado um método muito lúdico. Então os animais participam com as crianças de brincadeiras de pega pega, escorrega, atividades lúdicas, mas também existe o momento de relaxamento, o momento para brincar de massinha e de leitura. O animal precisa estar apto para ambos os casos.

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