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AmarElo – É tudo pra ontem

No documentário, Emicida começa a acertar algumas contas com a exclusão histórica de pretos e pretas de espaços de poder por meio da música

Por Regina Fiore Ribeiro
regina.fiore@mulheresjornalistas.com

Lançado na Netflix em 8 de dezembro de 2020, o documentário “AmarElo – É tudo pra ontem” foi idealizado pelo rapper e escritor Leandro Roque de Oliveira, o Emicida, e realizado pela produtora Laboratório Fantasma, empresa que ele criou com o irmão, Evandro Fióti.

Com duração de aproximadamente 1h30 e direção de Fred Ouro Preto, o documentário traz cenas do show histórico que Emicida e seus parceiros e parceiras realizaram no Theatro Municipal de São Paulo no início de 2020, além de uma linha do tempo com perspectiva inédita dentro da cultura pop sobre o surgimento do ritmo brasileiro herdado diretamente da população preta que aqui se estabeleceu: o samba.

Emicida conseguiu, neste único documentário, trazer para a cultura mainstream uma das reflexões que mestres consagrados da música, como Chico Buarque, já cantam há mais de 40 anos: a sociedade brasileira foi construída, literalmente e subjetivamente, pela população descendente dos povos que foram sequestrados da África e escravizados no Brasil. Daí a importância do show de Emicida ter acontecido no Theatro Municipal.

Pega a visão: o Theatro Municipal já recebeu os mais importantes nomes da política, música, literatura e o que era considerado pelo padrão europeu como “alta cultura”. Foi palco, inclusive, de um dos mais importantes movimentos de arte brasileiros, a Semana de Arte Moderna de 22, onde homens e mulheres das mais altas classes foram desafiados por nomes como Tarsila do Amaral, Oswald Andrade, Mário de Andrade e Heitor Villa Lobos a repensarem seu conceito do que é bonito e pode ser apreciado como arte, a partir de perspectivas bem brasileiras.

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Ao realizar o primeiro show do Álbum “AmarElo” no Theatro Municipal, Emicida reivindicou para as populações historicamente marginalizadas, em sua maioria homens e mulheres pretos, o espaço de poder ocupado pela alta sociedade desde a época da colonização do Brasil. O álbum, ganhador de vários prêmios ao longo de 2020, mistura ritmos como rap, samba, funk e samba rock, ritmos que também foram marginalizados e até proibidos em alguns momentos da história brasileira.

O luxuoso prédio, construído pelo trabalho pesado de milhares de operários, finalmente pode ser ocupado de forma emblemática por pessoas que, em outros contextos, nunca imaginaram estar em um daqueles camarotes.

Emicida mostra, durante o documentário, toda a emoção do público que está presente durante os shows e convida amigos e parceiros para participar deste momento: Pabllo Vittar, Majur, Drik Barbosa, Pastor Henrique Vieira e DJ Nyack estiveram no palco ao lado de Emicida, além das colaborações do álbum com Zeca Pagodinho, Fernanda Montenegro, entre outros artistas da cena atual musical.

Intercalados às cenas do show, Emicida expõe momentos históricos que fazem parte da nossa formação enquanto povo e que são negligenciados pelos livros de história, devolvendo o protagonismo da formação da população brasileira a quem de fato é responsável pela maioria de nossas manifestações culturais: o povo preto.

A frase mais emblemática, que segue o documentário como um fio condutor, Emicida traz logo no início do filme: “Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje” é um ditado iorubá, escolhido por Emicida para abrir e encerrar a produção, que precisa ser vista mais de uma vez para ser entendida em sua totalidade.

O álbum AmarElo também deu origem a uma série de podcasts narrados por Emicida: “O Filme Invisível”, divido em 4 episódios, também faz parte da construção do multiverso criado pelo rapper e seus parceiros para trazer a importância de nos reconectarmos com as nossas raízes e devolver ao povo preto o protagonismo cultural que sempre assumiu na cultura brasileira, mas não era reconhecido.

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