A importância da vacinação em animais

Por Giselle Cunha, Jornalista- RJ

giselle.cunha@mulheresjornalistas.com

Chefe de Reportagem: Juliana Monaco, Jornalista

Editora Chefe: Letícia Fagundes, Jornalista

Conheça as indicações para prevenir doenças, inclusive a raiva, que após 26 anos teve diagnóstico confirmado pelo nosso entrevistado

A primeira vacina foi criada na Inglaterra pelo médico Edward Jenner, no século XVIII. Edward se dedicou por vinte anos ao estudo da varíola, o que lhe permitiu publicar seu trabalho sobre as causas e efeitos da doença e, consequentemente, iniciar os experimentos que resultaram na composição imunizante.Já as vacinas veterinárias tiveram início em 1880 e foram desenvolvidas por Louis Pasteur.

Edward Jenner

O principal objetivo deste recurso da medicina é produzir anticorpos, reduzir perdas econômicas, criar células de memória no organismo, evitar a transmissão e surtos de doenças. Mais de 70% das doenças infecciosas são consideradas zoonoses, ou seja, são doenças que atingem tanto humanos, quanto animais. Portanto, a vacinação realizada em animais é de grande importância para o controle de doenças em um nível geral da humanidade.

A rotina de vacinação também faz parte da vida de outros animais domésticos, que vão além dos tradicionais cães e gatos. Confira o calendário anual de vacinação de outras espécies:

  • Equinos – Raiva, Influenza, Tétano, Encefalomielite (dos tipos Leste e Oeste) e Rinopneumonite (aborto equino a vírus).
  • Bovinos – Febre aftosa, Brucelose, Clostridioses, Botulismo, Leptospirose, Raiva bovina e IBR, BVD.
  • Suínos – Rinite atrófica, Parvovirose, Pleuropneumonia, Leptospirose, Pneumonia por micoplasma, Doença de Aujesky, Erisipela.

Após 26 anos sem incidências, presenciamos, em maio deste ano, a confirmação de um caso da Raiva Canina no município de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. O caso chama atenção pois a principal prevenção se dá através da vacinação periódica. O Instituto Mulheres Jornalistas entrevistou o veterinário Pedro Cupolillo de Faria, formado pela Rural e pós-graduado em cirurgia de tecidos moles, atuando no Estado há 11 anos.

Mulheres Jornalistas (MJ):Qual a importância de cumprir o protocolo de vacinação correto do animal?

Dr. Pedro Cupolillo: Cumprir o protocolo de vacinação é essencial para que muitas doenças sejam controladas e, quem sabe, no futuro erradicadas. Existem diversas zoonoses (doenças que passam de animais para humanos, como Leptospirose, Raiva e Gripe Canina) que são prevenidas devido à vacinação. Além disso, doenças altamente letais como Cinomose, Parvovirose(em cães), Leucemia Felina (FELV) e Panleucopenia Felina podem ser evitadas. Cuidando do seu filho de quatro patas, você acaba cuidando de si mesmo. É importante seguir o protocolo indicado pelo médico veterinário.

MJ: Você atende quais espécies de animais? Somente cães e gatos?

Dr. Pedro: Hoje atendo apenas cães e gatos. Existem muitas opções dentro da Medicina Veterinária. Encaminho as aves e animais exóticos para outros profissionais que tenham especialização dentro dessa área.

MJ: Qual o protocolo de vacinação indicado para cães e gatos?

Dr. Pedro: Esse é um ponto muito importante a ser abordado. Existe o Guideline: O que o mundo recomenda vacinar? Quais as recomendações para animais da América do Sul? Quais doenças são importantes serem prevenidas no Brasil? Na sua cidade, o que de fato é importante ser prevenido?

Existem as vacinas essenciais:

  • Cães: Cinomose, Parvovirose e Hepatite Infecciosa Canina
  • Gatos: Rinotraqueíte, Calicivirose e Panleucopenia Felina
  • Ambos: Antirrábica

Ainda existem aqueles que não são consideradas essenciais, porém são recomendadas:

  • Cães: Vacinas preventivas de Gripe, Tosse dos Canis, Leptospirose e Leishmaniose
  • Gatos: FELV (Vírus da Leucemia Felina) e Clamidiose Felina
  • Não recomendadas: Giardia
  • Microsporum canis
  • Coronavírus (felino e canino)
  • O protocolo varia de acordo com a idade do animal ao iniciar o protocolo.O seu médico veterinário de confiança deve avaliar e direcionar o protocolo adequado para o seu animal. Sabe-se que até o modo de vida do animal (se é domiciliado, semi-domiciliado, se vive em sítio ou fazenda) podem influenciar no protocolo vacinal. Algumas vacinas (Leishmaniose) só podem ser tomadas mediante testes pré-vacinaispois, caso o animal já tenha a doença de forma assintomática, não faz sentido vaciná-lo.
  • De fato o protocolo influencia muito quais doenças serão prevenidas, pois não se tem vacinas apenas com as doenças essenciais. O que quero dizer com isso? As vacinas éticas polivalentes do mercado: Para Cães- “V10”, “V8”, “DHPPI+L”,
  • Para Gatos, “Tríplice”, “Quádrupla”, “Quíntupla” possuem uma mistura de vacinas essenciais com não essenciais (porém recomendadas de acordo com a prevalência de doenças na região onde vai morar).

MJ: Quais doenças podem ser evitadas com a imunização?

Dr. Pedro: Depende do protocolo vacinal indicado pelo médico veterinário, de acordo com o estilo de vida do pet e da prevalência de certas doenças na região em que vai habitar.

Cães: Cinomose, Parvovirose, Hepatite Infecciosa, Gripe Canina, Leptospirose, Raiva, Coronavirus canino, Tosse dos Canis, Leishmaniose e Giardia.

Gatos:Rinotraqueíte, Calicivirose, Panleucopenia Felina, Clamidiose Felina, Leucemia Felina e Raiva

MJ: Recentemente, você foi o responsável por diagnosticar um animal com a raiva canina. Como foi o caso?

Dr. Pedro: No dia 4 de maio, o pet de 1 ano e meio,cão sem raça definida, foi trazido pela tutora e deram entrada na clínica onde atendo em Duque de Caxias. O cão era proveniente de Belford Roxo e a tutora foi atrás de uma segunda opinião, após ter sido atendida em outro local. Ao chegar lá, o cão apenas salivava bastante, mas se manteve calmo (tanto que avaliei a cavidade oral sem receios). Coletamos sangue para investigar os possíveis diagnósticos diferenciais (doenças que podem causar sintomas parecidos com os da Raiva). As suspeitas iniciais apontadas não estavam se encaixando com o quadro do animal, foi então que, após avaliar minuciosamente todo o animal e não perceber nada a mais do que a intensa salivação, realizei duas perguntas: “O animal tem chances de ter tido contato com morcego?” Ela disse que sim. Daí já fiquei preocupado e perguntei ” Ele está vacinado para Raiva?”  Ela disse que não. Foi então que conversei sério com ela sobre a possibilidade de estarmos diante de um caso de Raiva. Enquanto não descartarmos, não iríamos sossegar. O diagnóstico de Raiva só é feito post mortem. No dia seguinte, o animal piorou (começou a andar com dificuldade) e já pedi para internar. Um dia após a internação, ele veio a óbito. Enviamos ao CCZ de Duque de Caxias e de lá foi enviado ao Instituto Jorge Vaitsman, onde fica o Setor da Raiva que iria avaliar a possibilidade de estarmos diante de um caso de Raiva Canina após 26 anos.

Vale salientar que o cão entrou em contato com o morcego dia 26 de março e só ficou sintomático dia3 de maio. O período de incubação (tempo que a doença demorou para manifestar no animal) foi de 38 dias.

MJ: Como ocorre a transmissão da raiva? Esse cão infectado teve contato com outros animais?

Dr. Pedro: A transmissão ocorre por meio do contato com a saliva, mordeduras e arranhaduras (de animais silvestres). Como é transmitida por diversos animais silvestres, também é preciso tomar cuidado e prevenir os cães e gatos todos os anos, pois muitos deles podem ter contato com esses animais transmissores. No caso, esse animal, por ser domiciliado (viver no quintal em casa), não teve contato com outros cães de fora, apenas um de casa que já está sendo assistido com vacinação pelo CCZ. Após esse caso, várias campanhas de vacinação foram acionadas pela região, a fim de impedir um surto de casos.

MJ: Quais são os sintomas da raiva e como proceder em caso de suspeita?

Dr. Pedro: Os principais sintomas são salivação intensa, incoordenação de membros posteriores, medo, agressividade, fotofobia, excitação, ansiedade, paralisia, entre outros.Não há uma regra, já que nesse caso foi constatada apenas intensa salivação, incoordenação de posteriores e agressividade (quando internado).

Em caso de suspeita, leve ao médico veterinário de confiança para direcionar o caso e use luvas. É muito importante frisar que: casoencontre um morcego morimbundo ou morto em qualquer lugar, ligue para o médico veterinário para que seja direcionado ao CCZ e então encaminhar o morcego para o setor de Raiva.Só assim saberemos se há mais casos do que imaginamos de Raiva na sua região.

Quer dizer que a culpa é dos morcegos? Jamais. Os morcegos são essenciais para o nosso ecossistema. Muitos são insetívoros(se alimentam de insetos), nectarívoros (Pólen e Nectar) e frugívoros (se alimentam de frutos). Pouquíssimos são hematófagos (se alimentam de sangue), o que é mais comum em casos de raiva de vacas e cavalos.

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