TITI MESQUITA – DE BAILARINA A CORRESPONDENTE INTERNACIONAL DE GUERRAS 

POR SILVANA CARDOSO DO ESPIRITO SANTO

Titi Mesquita

Encontrei Titi pela primeira vez em uma situação informal, com amigos em comum, quando a jornalista veio passar uns dias onde moro, em Pedro do Rio, pequeno distrito do município de Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro. Dias depois, descobri que a mulher de olhos azuis que ainda conserva na sua postura os traços da bailarina que foi na juventude, aquela era a brasileira internacionalmente reconhecida como correspondente de conflitos e guerras, a jornalista Titi Mesquita, que hoje responde pela coordenação da Associated Press para a América Latina e Caribe. 

Nosso segundo encontro foi para a realização desta entrevista, que  começou antes mesmo de começar, pois em poucos minutos após os ois e olás, já falávamos sobre a pouca representatividade feminina nos cargos mais altos dos veículos de mídia, inclusive nas agências de notícias espalhadas pelo mundo. “Como encontrar a fala feminina se a mídia é, na sua maioria, comandada por homens?”, reflete Titi. Com esta fala resolvemos sentar em um lugar mais reservado para ir de encontro a carreira, a vida e a grande experiência de Titi como correspondente de guerra de TV para agências de notícias, como  a Associated Press. 

Pergunto se suas reportagens sempre foram para TV. Sempre, respondeu Titi, que passa os dias definindo as imagens e reportagens que a AP vai distribuir ao mundo. Algo impensado para a jovem bailarina que se apaixonou pelo jornalista da TV. E quando ele foi ser correspondente em Londres ela, corajosamente, foi junto. Casaram, tiveram um casal de filhos. Foram seis anos no Reino Unido, mas no início, sem nada para fazer e meio que sem querer, se transformou numa produtora voluntária das matérias produzidas para a Rede Globo, para a correspondente Sandra Passarinho e seu cinegrafista Antônio Brasil, o seu marido. E dali, no final dos anos 1970, tudo mudou na sua vida. De bailarina clássica a jornalista correspondente de conflitos, como as guerras do Afeganistão, Iraque, Bósnia, Kosovo e Haiti, Cristiana Mesquita só parou de estar no front há pouco, em 2016. E os argumentos para estar distante do trabalho de campo, assim como uma visão sobre a revolução que estamos vivenciando na mídia, estão na nossa conversa que vem a seguir. 

MJ: Quantas correspondentes mulheres você conviveu nas coberturas dos conflitos internacionais?

Titi Mesquita: Na minha época, quando comecei a cobrir, muito poucas. Tinham umas fotógrafas fantásticas, mas na área de TV muito poucas, algumas produtoras. Não se via mulheres na cobertura, mas em 2016, em Mossul, no Iraque, já tinha um número considerável de mulheres com câmeras. O que não havia na época que eu comecei e ainda é raro, não tinha nenhuma mãe. Risos, eu era a única mãe e mesmo hoje em dia, uma mãe no campo é raro.
É porque é muito mais fácil um homem achar uma mulher que esteja de acordo que o homem tenha essa profissão, ela deve ficar em casa com os filhos. Ao contrario já fica mais difícil de achar um marido que suporte uma mulher fazendo isso. É complicado.

MJ: Você viveu na cobertura de conflitos para TV quando o mundo era analógico. O que mudou com a chegada da era digital nessas coberturas, com a inclusão até de imagens amadoras nas matérias? 

Gaza, 2014

Titi Mesquita: Foi uma revolução, porque não mudou só a maneira de fazer a notícia, mas quase como se vê o mundo. Toda mudança é muito difícil. Quando comecei em televisão eu trabalhava com filme, quando eu comecei a cobrir em conflito já trabalhava com vídeo. Mas a única maneira de transmitir era via satélite e dez minutos de satélite era uma fortuna. Então, se trabalhava o dia inteiro, preparávamos o material para mandar uma matéria de três minutos no final do dia, entrávamos naquele horário para enviar o que havíamos produzido no dia. Era o satélite do dia! E se acontecesse alguma coisa fora daquele horário era aquele drama para convencer a agência a pagar mais tempo de satélite. 

Hoje em dia você envia a matéria instantaneamente, tem todos esses sites que estão o tempo todo se renovando, você tem o canal 24 horas de noticia. Mas antes você tinha um horário para enviar a matéria no dia e agora eu já cheguei a mandar quinze matérias em um dia. Então você ganha por estar sempre transmitindo, por estar fazendo uma atualização da notícia, mas a gente perdeu o momento de meditação. Aquele momento que você tem o seu material e pensa: como eu vou construir esta matéria? Agora virou qualquer coisa. Nosso texto ficou muito dinâmico. Ter a oportunidade de fazer algo mais complexo ainda tem espaço para uma matéria mais profunda, mesmo sendo com o tema, por exemplo, uma guerra, mas é raro. Geralmente você está num mandamandamanda! Um turbilhão. Sem a oportunidade de construir e escrever. Você está terminando de gravar, você está editando e você esta aqui ao lado mandando o vídeo e fazendo o texto. Tudo ao mesmo tempo. Quando eu trabalhava com filme, enquanto ele estava revelando eu parava e pensava ou ligava para a fonte, podia fazer uma apuração, dar contexto. No meu caso, de uma agência,  ainda tem a imagem que o fulano colocou no Facebook, e ainda precisa estar atento a todas as imagens que estão circulando. 

MJ: Censura militar e política. Onde fica a liberdade de expressão no front da cobertura de guerra, EMBEDDED, como foi no Iraque, trabalhando da base militar?

Titi Mesquita: Entrei com as tropas inglesas pelo Sul. Depois eu fiquei em algumas bases americanas. Quando você está EMBEDDED, você realmente está na mão deles. Tem uma série de restrições, não pode falar quantos soldados envolvidos numa operação, a localização. Eu particularmente não gosto de trabalhar EMBEDDED, mas a agência tinha a vantagem de ter uma equipe EMBEDDED e uma equipe do outro lado. Com isso você conseguia um retrato mais honesto do que estava acontecendo.  Infelizmente nem todo mundo tem o direito de fazer isso, as vezes só é possível ver um lado. Tem essas restrições, precisamos trabalhar com elas da melhor forma possível, sem se arriscar a ser  expulsos da base, mas ser o mais honesto possível com a sua matéria. Atuar de uma base militar é ter a visão parcial do conflito.  No meu caso, sempre falava: esta reportagem foi feita por uma jornalista EMBEDDED, com a baixa de restrições e a visão parcial do evento. 

MJ: Você foi a primeira jornalista brasileira a entrar no Afeganistão em 2001, quando forças americanas e inglesas invadiram o país contra o terror.  Prefere estar independente como foi a sua cobertura neste conflito?

Titi Mesquita: Sim, prefiro. No Afeganistão e na Bósnia. Na Bósnia o conflito durou três anos e passava mais tempo lá do que em casa. 

MJ: Você escolheu ser uma mulher do mundo na sua profissão de correspondente de conflitos internacionais. Uma vida sem muito paradeiro e até solitária. E como ficava a família, os filhos?

Titi Mesquita: Era difícil, né? Era tempo longe das crianças, meu filho era pequeno. Minha filha menor ainda. Mas eu tinha a sorte de ter um marido que também era jornalista e que havia optado por uma carreira acadêmica. Então ele tinha uma vida mais organizada em termos de horários, férias. E o grande privilégio que eu tive na vida inteira, que é uma família, que é a minha vila: irmãs, mãe, todo mundo envolvido em cuidar de mim e dos meus filhos. Então fui muito privilegiada por ter isso tudo. Vejo que uma outra pessoa sem isso não poderia mesmo fazer, sem esta infraestrutura não poderia fazer o que fiz. 

MJ: E quando resolveu parar com as coberturas?

Titi Mesquita: Eu parei de fazer cobertura de campo porque eu cheguei a conclusão que eu tinha uma filha que eu mal conhecia e estava chegando naquela idade de quinze, dezesseis anos. Eu parei e pensei, ah, eu agora tenho que tomar tenência. (risos) Isso foi em 2004, quando eu assumi o birô da AP em Buenos Aires, que era algo mais controlado e, depois, mais ainda quando fui para o escritório da AP em Washington, onde assumi de lá a América Latina. Ai eu falei: minha filha vou trabalhar de oito da manhã às seis da tarde. Ela ria. Sim, vou estar em casa todos os dias para fazer o nosso jantar.  E naquele momento eu já estava separada, ela estava com o pai, eu estava perdendo o controle… para onde está indo isso, eu me perguntava. E foi muito bom esse período que ficamos juntas. Meu filho Gabriel ficou no Brasil, já era maior, já tinha namorada. Julia foi comigo para Buenos Aires, onde moramos dois anos e para Washington, onde permaneci por nove anos. Julia está nos Estados Unidos até hoje, trabalha com games e mora na Califórnia.  

MJ: Ainda criança você foi impactada pelo homem pisando na lua pela TV, no dia do seu aniversário (21/7/1969). Essa tecnologia que invadiu a menina Titi, ainda faz a sua cabeça?

Titi Mesquita: Sim. O que mais me impressionou não foi o homem pisar na lua, mas sim a transmissão. Ver a imagem pela TV. Achei fantástico, aquilo.

MJ: Você que morou em Washington por nove anos, como viu a última cobertura da posse do Joe Biden, nos Estados Unidos? Uma posse com grades e um forte esquema de segurança.

Titi Mesquita: Eu não estava mais em Washington quando elegeram o Donald Trump, mas estava na eleição do Barack Obama. Meu escritório ficava algumas quadras dali. Eu não estava cobrindo especificamente, estava com as reações para a América Latina, mas chegou um momento que eu pensei, eu vou. E fui para a posse como cidadã normal. E era aquele mar de gente. Nunca fiz isso no Brasil, por que nunca fiz isso no Brasil? Sair para celebrar uma eleição. Para fazer isso é preciso acreditar também e ali era um momento histórico e acompanhei toda a posse e tinha muitas bandeirinhas no ar. 

No Biden fiquei muito angustiada e preocupada com a segurança, na expectativa de algo ruim acontecer. Mas isso mostra que a cada novo ano o mundo fica mais complicado.  Ao mesmo tempo, vendo de uma maneira mais otimista a chegada do Biden.

MJ: Como você está vendo esse retrocesso?

Titi Mesquita: Essa polarização, essa emergência de gente… Acionaram um despertador, principalmente para a imprensa. Tem um grupo imenso e gigantesco de pessoas que temos ignorado. Não estamos mais falando com eles e por quê deixamos de falar e demos espaço para os loucos falarem? E eles acreditaram. Estamos com a mea culpa de ter que encontrar uma maneira de falar com essas pessoas, também. De alguma forma temos que chegar nelas… ainda não sei como, mas percebi a necessidade disso. 

Acreditamos, com razão, ainda tenho um certo otimismo, que o pensamento liberal havia vencido. Podíamos relaxar, mas esquecemos que esta massa de pessoas estavam por aí e não tinham acompanhado, e estavam se sentindo acuadas. E se organizaram. 

Mas nós também estabelecemos que agora tudo bem um homem beijar outro homem e mulher pode beijar mulher, e o politicamente correto, nós decidimos isso e pronto. Achamos que estávamos agindo corretamente, mas para eles, não. E por que não conseguimos convencê-los? Por que a gente deixou de falar com eles? 

Antigamente, aqui no Brasil, todos estávamos na frente da TV assistindo a mesma novela e o mesmo jornal, seja na casa mais pobre ao lar mais rico.  

De repente houve uma segmentação. Com a imprensa também foi muito forte e cada um consome um tipo de notícia. Com a segmentação a gente perdeu os elementos em comum. Nos EUA é muito claro: você é de direita você assiste a Fox; de esquerda, assiste a NBC; de centro assiste a ABC. E não vê o que os outros estão vendo, não entende o que os outros estão entendendo, não sebe o que os outros estão sentindo, por quê você está completamente segmentado e porque tem todas estas opções.  

MJ: E o que seria possível fazer para falar com estas pessoas? 

Titi Mesquita: É o que falávamos, sobre inclusão. A inclusão deve passar por isso também, não é só entender o que acontece com as comunidades negras, nas comunidades latinas, como pensa o indígena na Bolívia. Temos que incluir estas pessoas também. O que pensa o Bolsonarista ferrenho, o que pensa o pessoal do Trump e como falar para eles. A inclusão deve ser para eles também. É a única maneira de tentar achar o que temos em comum, pois sempre tem algo em comum, né? 

MJ: O que significa uma cobertura justa para você?

Titi Mesquita: Uma pergunta difícil. As pessoas diriam: tem que ouvir os dois lados. Eu não acredito. Isso virou uma tendência, tem que ouvir os dois lados, mas depende da matéria. Se você está fazendo uma matéria sobre a terra ser redonda e chama Galileu de um lado e chama o Torquemada do outro, o chefe da inquisição, e você estará causando um desserviço. Não tem que dar voz para maluco. Nunca vou entrevistar um terraplanista.

Acho que uma matéria justa é quando somos honestos conosco. Eu estou vendo o que estou vendo ou estou vendo o que acho que deveria acontecer, o que eu gostaria que acontecesse? E não é fácil. Significa deixar seus preconceitos e suas ideias pré-concebidas do lado de fora e de uma maneira mais aberta possível. Não é ser imparcial, porque acho que isso é muito difícil, mas tentar ser honesto. Entender que você está vendo isso pelo seu filtro e, se o seu filtro está retratando o que realmente está acontecendo, acho que isto seria uma matéria verdadeira, como se apresenta, uma matéria justa. 

MJ: Reconhecimento internacional, responsável por um braço da AP News, uma das agências de notícias mais respeitadas do mundo. Como você vê uma jovem jornalista que se interessa por cobertura de conflitos?

Titi Mesquita: Jovem jornalista sai com todas as ferramentas, ela controla o meio. Ela entende do digital, entende de rede social, ela pega a câmera e grava, envia pelo celular. Mas a mais jovem não tem a vivência. Hoje tudo é muito acessível. Em Mossul, no Iraque, encontrei brasileiros e perguntei se eram jornalistas de qual veículos, mas não, foram cobrir o conflito de forma independente. Cada vez mais tem jornalismo de aventura fazendo conflitos. São os turistas, como chamávamos estas pessoas que vão cobrir pelo prazer. Mas não podemos nos prender ao passado… outro dia vi uma reportagem muito interessante. Um correspondente do Times, de Londres, se reportando sobre a guerra na Crimeia, final do século IXX, começo do século XX, a reportagem dele chegava ao Times uma semana depois. E era assim: “era uma manhã de sol, a temperatura era de trinta graus…” é lindíssima a maneira como ele escreveu, mas não é como o jornalismo hoje nem aqui nem em lugar algum, você tinha um tempo, a pessoa que lia o jornal também tinha um outro tempo, um outro ritmo. Na empresa onde trabalho, a AP, ela existe desde a independência americana, é a agência mais antiga de notícias do mundo. Ela começou na guerra da independência, porque naquela época já existia uma imprensa robusta nos EUA. Aí pensaram: por quê vamos cada um mandar uma pessoa para morrer nesta guerra se podemos mandar uma ou algumas para fazer a cobertura para todos os veículos. E assim começou a associação desses jornais, a Associated Press. E assim descobriram que seria mais rápido enviar a notícia pelo telégrafo. Foi ali que foi criado o formato da imprensa: quem, quando, onde, como e por que. Nós já passamos por várias revoluções na imprensa e essa (a revolução digital) vai ser uma outra e já temos muitas coisas bacanas, mas é muito, né? Aí fico lembrando de Caetano Veloso: quem lê tanta notícia?

MJ: Como uma apaixonada pela imagem enxerga esse momento da exposição global via smartphones, ajuda ou atrapalha o trabalho da imprensa? 

Titi Mesquita: As vezes ajuda, as vezes atrapalha (risos). A imagem do vídeo amador é tão presente hoje em dia que até a estética de imagem está mudando por causa disso.

MJ: Sabemos das dificuldades do dia a dia de um correspondente de conflitos, mas com a tecnologia e velocidade da informação, como ficou para se proteger?

Titi Mesquita: Ficou mais perigoso. Antigamente não viam o que estávamos produzindo. Agora eles possuem internet, acompanham a notícia numa CNN 24 horas, sabem o que está acontecendo e quando chegamos no dia seguinte no vilarejo eles comentam, falam “eu não gostei.” Eles também entendem a imagem e como eles estão sendo retratados. A bronca com a imprensa ficou maior.

MJ: O que é sagrado numa cobertura de conflitos?

Titi Mesquita: A única coisa que me interessa em guerra é a população civil. Mulheres e crianças e o que está acontecendo com eles. 

MJ: Quando ou onde, no front do conflito, você achou que não iria voltar?

Titi Mesquita: Alguns medos, em alguns momentos, é isso ai: acabou, game over. Alguns. Mas eu não falo sobre isso porque eles  (nossa  família) se preocupam comigo o tempo todo. Não quero que fiquem pensando. Já passou.

MJ: O que a levaria de volta para uma zona de conflito?

Fallujah- Iraque, 2004

Titi Mesquita: Adoro o trabalho de campo, mas acho que nesta altura da minha vida, não. É um trabalho muito físico. Aquele colete à provas de balas que colocamos pela manhã pesa quinze quilos e ao final do dia ele está pesando cinquenta quilos. Um desastre físico. Trabalhamos em equipe. Estar em um grupo onde você precisa correr numa situação de perigo seria complicado, sem querer impor uma maneira de ter que me proteger de algum risco (as equipes, geralmente formadas por homens). Acho que não seria mais tão produtiva como eu fui, mas dá vontade de ir. Parece louco, mas é extremamente enriquecedor ver seres humanos, pessoas vivendo nesse limite, no meio de um conflito. Mostrar como vivem. E como fantásticos eles são. Você presencia provas de força, de resiliência que não se vê normalmente. Na Bósnia, 300 artilharias por dia e resolvi falar com um casal em Mostar. Eles vivendo no porão da casa já destruída, pois se recusaram a sair, já que ele era médico e não queria abandonar a cidade. Ela professora de inglês. Uma das coisas que eles tinham muito orgulho de falar era que apesar de tudo a padaria sempre abria. E a mulher com todas as dificuldades, o banho e ela  pegou um espelhinho e passou o batom para irmos comprar o pão, e pensei: esse é o ser humano que eu quero conhecer.

MJ: Pandemia X conflitos.

Titi Mesquita: Está bem difícil. Estamos reclamando por estarmos isolados, mas tenho equipe trabalhando na rua e cobrindo CTI de hospital e não estão segurando a onda. As vezes eles falam que precisam dar um tempo. É um trabalho. As vezes não está bom, mas é o nosso trabalho e vamos fazer. 

MJ: Casamento e conflito. Seu segundo marido, onde se conheceram?

Titi Mesquita: Sim, o Gordon. Foi numa cobertura longuíssima no Peru que nos conhecemos. Foi na invasão da embaixada japonesa em Lima. Sequestradores entraram durante uma recepção cheia de gente. Foi algo cinematográfico, tanto a entrada dos sequestradores como a entrada da polícia na casa. Achávamos que seria uma negociação rápida, mas eu estava chefiando a equipe e fui ficando e foram dois meses e meio que fiquei lá, mas durou uns quatro meses. Fecharam a rua e a imprensa do mundo trabalhando de cima de um prédio que dava para ver a casa e os sequestradores se comunicavam conosco com cartazes nas janelas. Com o tempo pedimos para a polícia nos deixar ficar mais próximo da casa e numa aproximação meu cinegrafista pulou para dentro da casa e foi uma loucura. Filmou tudo e mandou a fita por um fotógrafo que entrou junto. Dei a ideia dele “esquecer” o rádio comunicador lá dentro e começamos a ter uma comunicação direta com os sequestradores. Foi um sucesso. Sai da resposta… Essa cobertura rendeu muitas histórias (risos). Não tinha muita coisa para fazer ali, parados, esperando pelos acontecimentos (mais risos). Assim fomos nos conhecendo e começamos. Mas foram muitos anos nos encontrando como podia, pelo mundo. Até morarmos juntos demorou uns dez anos. 

MJ: E o que aquece o coração da Titi?

Titi Mesquita: Estar com meu marido, lendo, leio muito, gosto de muito de cinema, de ficção, da dança. As mesmas coisas que me faziam feliz antes, quando era mais jovem.  

MJ: 63 anos. Como se sente?

Titi Mesquita: Risos. Olha eu aqui com uma vida mais acertada. Uma senhora digna e comportada (mais risos).

Se somos feitos de histórias para contar, a carioca do mundo Cristiana Mesquita, o apenas Titi, tem uma coleção delas. Conta com o brilho de quem ama o que viveu e vive. Mas seu dia a dia ainda é intenso, falando com os correspondentes da América Latina, escolhendo o que será notícia para a AP News distribuir. Atua com seriedade e comprometimento com a noticia, como aquela jovem que embarcou no amor e na profissão com o coração. Que tem por Sandra Passarinho um profundo respeito, “minha guru, minha escola”, como afirmou para fechar esta nossa conversa.

E poderia ficar horas conversando e aprendendo com Titi Mesquita. 

3 comentários sobre “TITI MESQUITA – DE BAILARINA A CORRESPONDENTE INTERNACIONAL DE GUERRAS 

  1. Excelente e rara entrevista com bastidores e opinião de uma correspondente mulher, e com larga experiência em coberturas em áreas de conflito.

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