Tipo mais grave da dengue que circula no país pode ter surto em onze estados no mês de março
Segundo Ministério da Saúde, dengue tipo 2 causa danos mais graves a saúde
Clara Maria Lino – Repórter Rio de Janeiro
 
Todos os estados do nordeste, o Espírito Santo e o Rio de Janeiro estão em alerta para o tipo 2 da dengue neste ano. De acordo com o Ministério da Saúde (MS), o surto está previsto para o mês de março e estes locais são considerados de maior risco para uma epidemia. O tipo do vírus considerado o mais perigoso, volta a circular desde 2018 após 10 anos de controle e, desde então, vem aumentando o número de casos na população.
 
De acordo com o microbiologista Sharton Coelho, existem quarto sorotipos do vírus: “A dengue é uma doença infecciosa viral transmitida por mosquitos, a qual pode acontecer principalmente em regiões de climas quentes e tropicais. Existem quatro sorotipos do vírus e a infecção pode ser causada por qualquer um deles.” Ou seja, o ser humano pode ser infectado até quatro vezes. Cada sorotipo gera imunidade para toda a vida. Sharton ainda define a dengue como uma doença que pode ou não apresentar sintomas.
 
“Nos casos mais graves, com quadros de hemorragia extrema e outras complicações severas podem ocorrer fatalidades. Não existe tratamento para a infecção e os sintomas são controlados com medidas de suporte.” As temperaturas elevadas, o aumento dos períodos de chuva como já comentados e a característica peridomiciliar (está presente em um raio de apenas 50 metros em torno do domicílio, ou seja, não possui alcance para outras regiões) do mosquito colabora para a contaminação. 
 
Em 2019, quase 1,6 milhão de pessoas foram contaminadas no Brasil. Dessas, mais de 780 morreram. Um aumento de quase 490% comparado ao ano de 2018. Se for levado em consideração todas as doenças transmitidas pelo Aedes aegypti (dengue, zika e chikungunya), houve aumento de 248% comparado ao mesmo período. Um comunicado divulgado pelo MS alerta a população pelo combate ao mosquito que pode gerar outras doenças:
 
“O Ministério da Saúde convoca a população brasileira a continuar, de forma permanente, com a mobilização nacional pelo combate ao mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya, doenças que podem gerar outras enfermidades, como microcefalia e Guillain-Barré, o Aedes Aegypti.”
 
Já  a Secretária de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ) alerta para a manutenção do combate ao vírus. 
 
“O ovo do mosquito Aedes aegypti leva, em média, sete dias para chegar à fase adulta, em que o inseto se torna vetor dos vírus da dengue, zika e chikungunya. Por isso, vasos de plantas, calhas de chuva, garrafas vazias, bandejas de condicionadores de ar e todos os recipientes de água que podem se tornar criadouros do mosquito devem ser inspecionados, pelo menos, uma vez por semana. E em 10 minutos é possível executar essa rotina.”
 
 
O microbiologista Sharton Coelho esclareceu as principais dúvidas da população acerca do tema:
 
Clara Maria- O que é Aedes aegypti?
Sharton- Aedes aegypti é um dos mosquitos transmissores da dengue e de outras arboviroses (vírus transmitidos por vetores artrópodes), como Zika e Chikungunya. 
 
Clara Maria- Qual a diferença entre Dengue, Zika e Chikungunya?
Sharton- Todos esses vírus enquadram-se no grupo dos arbovírus. Dengue e Zika pertencem a mesma família Flaviviridae, enquanto o Chikungunya é uma Alphavirus da família Togaviridae. Em relação as manifestações clínicas, a Febre do Zika pode estar relacionado a distúrbios neurológicos (como microcefalia em fetos e encefalite em adultos), enquanto Dengue está relacionado predominantemente com alterações vasculares e coagulação, principalmente nos casos mais graves. O Chikungunya, por sua vez, está relacionado principalmente com quadros de polialtrargia crônica. No entanto, é importante ressaltar que há ainda grande dificuldade em distinguir essas infecções, uma vez que as manifestações mais brandas e até mesmo manifestações graves apresentam sinais e sintomas muito semelhantes, sendo necessário o auxílio de diagnóstico laboratorial (incluindo sorologia e métodos moleculares para a identificação do vírus) acompanhado do quadro clínico do paciente para que o diagnóstico seja mais preciso. Chikungunya também pode causar quadros de encefalite, por exemplo.
 
Clara Maria- Quais são os sintomas da dengue?
Sharton- A dengue é uma doença febril autolimitada, podendo não apresentar sintomas (casos assintomáticos) ou apresentar sintomas que variam de leves a graves. Normalmente os sintomas podem ser observados de 4-10 dias após a exposição à picada de um mosquito infectado. Os sintomas prodrômicos (inespecíficos) podem ser confundidos com o da gripe, cujos pacientes apresentam febres, dores de cabeça, dores atrás dos olhos, dores articulares e musculares, náuseas e vômito, erupção cutânea e fadiga. Nos casos de progressão da doença, alguns pacientes podem apresentar dores articulares, sangramentos diversos (principalmente nariz e gengivas) bem como hipovolemia e choque hipovolêmico. Questões que podem levar o paciente a óbito se não for acompanhado clinicamente.
 
Clara Maria- Como ocorre a transmissão da Dengue?
Sharton- A transmissão acontece pela picada de um mosquito infectado. Esses vírus são capazes de replicar tanto no hospedeiro artrópode quanto no hospedeiro humano (através do mosquito).
 
Clara Maria- Como é feito o diagnóstico da Dengue?
Sharton- O diagnóstico é feito pela clínica do paciente associado a testes laboratoriais que incluem sorologia e métodos moleculares como a amplificação do genoma viral por PCR. Exames clínicos como a contagem de plaquetas e hematócrito também podem auxiliar o diagnóstico.
 
Clara Maria- Como prevenir?
Sharton- A maior forma de prevenção consiste no controle do vetor e evitar ser picado pelo mosquito tomando algumas precauções. O verão é a pior época devido à proliferação do mosquito. Esses vetores proliferam em águas paradas como poças. Por isso, é extremamente importante eliminar toda e qualquer água parada como em vasos de plantas, pneus, e garrafas. Colocar areia nos vasos, virar as garrafas de cabeça para baixo são algumas medidas importantes a se tomar. Além disso, o uso de repelentes, inseticidas e telas podem ajudar. Todas as pessoas devem se conscientizar de que a eliminação do foco de água parada e do acúmulo de lixos à céu aberto contribui para a diminuição da proliferação desses vetores e de seus criadouros, e é um dos métodos mais eficazes de combate à dengue.
 
Clara Maria- A segunda vez que tiver dengue, necessariamente será hemorrágica?
Sharton- Não existe nenhuma relação que comprove que uma infecção secundária por um sorotipo diferente cause necessariamente quadros hemorrágicos. Existem infecções primárias e secundárias que também podem ser hemorrágicas. Assim como também é verdadeiro que a infecção secundária e a primária não sejam hemorrágicas. Vários fatores estão associados a essa questão, como o sorotipo do vírus que a pessoa foi infectada, fatores ambientais e fatores do próprio hospedeiro. 
 
Clara Maria- Existe vacina? É eficaz?
Sharton- Existe uma vacina licenciada. No entanto, sua utilização se limita a uma faixa etária que vai de 9-45 anos, e se mostrou pouco eficaz na proteção. Assim, para os países com alta endemicidade de dengue e que pretendem utilizar Dengvaxia® como parte de sua estratégia integrada de controle e prevenção da doença, a Sala de Apoio à Gestão Estratégica (SAGE) recomenda como opção preferencial, a triagem pré-vacinação, na qual apenas os indivíduos previamente infectados pelo vírus da dengue sejam vacinados, uma vez que foi observado o aumento da gravidade da doença em indivíduos que tiveram dengue pós-vacinação sem exposição prévia. Sorotestes ou Testes de Diagnóstico Rápido, atualmente disponíveis podem ser considerados até que testes mais aprimorados estejam disponíveis.

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