Por Adriana Buarque, Jornalista – SP
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Chefe de reportagem: Juliana Monaco, Jornalista

Perspectivas ainda são incipientes no país, mas encontra solo fértil para desenvolvimento 

O Dia Mundial do Meio Ambiente foi comemorado na data de 5 de junho. Embora Lavoisier tenha afirmado no século XVIII que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, vivemos numa época de consumo desenfreado em que tudo é descartado. E tal atitude se reflete diretamente no entorno em que vivemos. Diz a narrativa clássica que o Todo Poderoso deu ao homem a responsabilidade de cuidar do jardim em que estava. Quer algo mais atual do que isso?

Instituída em 1972 durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo, pela Organização das Nações Unidas (ONU), a data tem por objetivo conscientizar a respeito da importância de preservar os recursos naturais – e uma das maneiras de preservá-los é por intermédio da reciclagem. “O planeta será próspero quando ele continuar saudável”, defende Andrée Vieira, presidente do Instituto Supereco, “e então teremos o conceito de sustentabilidade, tratando o ser humano de forma integral”.

Projeto Tecendo as Águas – Ação Educativa “O mar não está pra lixo”, mutirão de limpeza; Imagem: Divulgação/Instituto Supereco

Reciclar é tão importante que está presente em vários dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), lançados pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2015. Os ODS têm o papel de orientar políticas nacionais e atividades de cooperação internacional pelos próximos 15 anos. “O cenário muda o tempo todo, logo é necessário ter uma visão sistêmica do processo”, completa Andrée. O assunto é longo, envolve várias frentes e está longe de se esgotar.

Conhecido mundialmente, o triângulo da reciclagem é formado por três setas no sentido horário: a primeira representa a indústria; a segunda, o consumidor; e a terceira, a reutilização da matéria-prima. Ele foi criado na década de 1970 pelo então estudante de arquitetura Gary Anderson, nos Estados Unidos. Anderson, nascido no Havaí, concorreu com outras 500 pessoas para criar uma imagem que representasse papéis reciclados, numa disputa realizada pela Container Corporation of America.

Imagem: iStock

Naquela época, o jovem aluno se inspirou em um gráfico sobre o ciclo da água, feito anteriormente por ele nos estudos sobre reaproveitamento, para, então, chegar ao resultado final. Gary Anderson levou dois dias para criar o ícone.

O início do processo

O mundo passou por uma grande mudança no padrão de consumo há décadas passadas. De acordo com os especialistas, após a Segunda Guerra Mundial, a produção de embalagens e produtos descartáveis utilizando combustíveis fósseis cresceu de modo significativo. O aumento dos resíduos sólidos chamou a atenção para a necessidade da redução de lixo, e alguns países, então, começaram a reciclar, dando novo destino e reaproveitando ao que foi descartado.

Atualmente, estamos presenciando os efeitos do consumo desenfreado e o descarte inadequado, afetando diretamente nossa saúde e o meio ambiente. Vários materiais utilizados no cotidiano demoram centenas de anos para se decompor na natureza, como o plástico e o vidro. Para minimizar esses efeitos, algumas mudanças foram necessárias, entre elas, a reciclagem desses resíduos.

Mônica Borba, fundadora do Instituto 5 Elementos, alimentando a composteira do IPEC – Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado; Imagem: Instituto 5 Elementos

A reciclagem é o processo de reaproveitamento de resíduos para a produção de um novo produto. Dessa forma, ele serve de matéria-prima, fechando seu ciclo de fabricação. Esse procedimento tem como objetivo a redução de sobras — daí a importância do reaproveitamento —, apesar de não ser a única medida para isso. “Nem tudo que é reciclável será reciclado”, ensina Mônica Pilz Borba, fundadora e diretora do Instituto 5 Elementos – Educação para a Sustentabilidade.

Existem posturas necessárias a fim de alcançar práticas sustentáveis e de reciclagem e elas são conhecidas como os 5 Rs da reciclagem. São elas: Repense (seus hábitos e comportamentos de consumo); Reduza (o desperdício); Recuse (descartáveis e outros vilões da natureza); Reuse (busca de alternativas para os objetos sem utilidades); e Recicle (qualquer material reciclável). Entretanto, a diretora ressalta que sem separar os objetos a partir da fonte é problemático.

A reciclagem é essencial para mantermos uma sociedade sustentável. Segundo Mônica, o que induz o processo é o preço da matéria-prima. Além do reaproveitamento do resíduo como substância básica de novos produtos, o que gera economia para as empresas, há outros benefícios, como: redução no gasto de energia; redução dos gases de efeito estufa (GEE); preservação de fontes de matéria-prima; diminuição do gasto com aterros sanitários; geração de emprego.

O Brasil, de acordo com Monica, está dividido em duas regiões de reciclagem: 1) Norte, Nordeste e Centro-Oeste para papel e latinha; Sul e Sudeste para todos os tipos de matéria-prima. Outro ponto positivo que evidencia a importância da reciclagem é a criação de empregos e geração de renda, principalmente para a população mais pobre. A coleta do material reciclado pode ser feita de várias formas: pela prefeitura, por empresas privadas ou por cooperativas. No Brasil, as cooperativas de catadores de lixo são responsáveis por 50% da coleta. Atualmente, há cerca de 800 mil catadores, sendo que 30 mil estão organizados em cooperativas e o restante trabalha de forma autônoma.

Coleta seletiva: o que pode e o que não pode

Todo mundo já viu os cestos de coleta de lixo reciclável, seja no seu prédio, na rua ou no ambiente de trabalho. Mas você sabe a forma correta de descartar o lixo ou o que vai para cada lugar? “As pessoas já foram ensinadas, todavia não têm ciência de sua responsabilidade e de como descartar”, comenta Sonia Wense, idealizadora do Programa Pense Sustentável, que procura conscientizar a população sobre práticas de sustentabilidade e descarte.

A opinião é compartilhada por Dalva Freitas, síndica de condomínio na região da Consolação que dispõe de lixeiras para coleta seletiva. “A adesão na separação de lixo não é de 100% por parte dos moradores”, conta Dalva, “muitos deles sequer dividem seus resíduos e acabam sendo multados pelo prédio”. Por outro lado, o recolhimento por parte da prefeitura não corresponde ao esperado: é preciso fazer um cadastro e a espera para recolher o lixo separado é longa. “Existe uma lista”, relata Dalva, “em que aguardamos por dois anos e nada”. Segundo ela, tudo o que é separado é doado a coletores de cooperativas, bem como há a possibilidade de entrega no futuro a companhias privadas.

Imagem: iStock

As lixeiras são padronizadas e cada cor corresponde a um material: azul é para papel ou papelão; amarelo para metal; o verde coleta vidro; já o vermelho, plástico; a marrom serve para os orgânicos; enquanto o laranja para resíduos perigosos; preto para madeira; cinza para resíduos gerais não recicláveis ou contaminados; roxo para resíduos radioativos e finalmente o branco para resíduos ambulatoriais e de serviços de saúde.

Uma pegada fashion

A questão do reaproveitamento vai além da separação de lixo como conhecemos normalmente. Buscando uma proposta inovadora no cenário da moda, o Brasil Eco Fashion Week desde 2017 tem como pilar principal a sustentabilidade e a reciclagem. “A partir de uma trajetória dentro do empreendedorismo, vimos a necessidade de novos propósitos e então criamos a BEFW”, relembra Rafael Morais, criador do evento. A partir de uma curadoria de marcas por intermédio da seleção por edital para showroom e desfiles, o Brasil Eco Fashion procura impactar o entorno de maneira não só ambiental, mas também cultural e social.

Desfile BEFW/ Imagem: Brasil Eco Divulgação

“Nosso casting engloba uma diversidade de modelos, desde negros e indígenas até com Síndrome de Down”, pontua Morais, “além do que incluímos marcas de brechó e upcycling no evento”. Ser sustentável na moda, de acordo com o organizador, vai desde a empresa que tem o selo do comércio justo, beneficiando a bordadeira que mora no interior do país, passando pelo tecido dos fornecedores até as conexões do discurso com a prática. “Atualmente, o consumidor compra sua roupa para um propósito, logo a vestimenta deve chegar ao final de seu uso com o objetivo de ser reinserida ao ciclo”, insiste Rafael.

“O Brasil é riquíssimo em matéria-prima diversificada em todas as regiões, especialmente aquelas que não estão no mainstream, como a juta castanhal”, continua o idealizador do BEFW. Quanto aos novos estilistas, ele afirma que estão atentos à economia circular, e as grandes empresas estão preocupadas em desenvolver tecnologias de como vão impactar o meio ambiente ao descartar milhões de toneladas de fibras de tecidos.

No Brasil, o artista que se destacou com o tema da reciclagem foi Vik Muniz, visto que desenvolveu um trabalho com catadores de lixo do aterro do Jardim Gramacho em Duque de Caxias, no estado do Rio de Janeiro, atentando para o tema da sustentabilidade.

Vik realizou inúmeras exposições nacionais e internacionais e, em 2010, sua atividade com os trabadores foi transformada no documentário intitulado “Lixo Extraordinário”, com repercussão no Brasil e no exterior.

Imagem: Eurozoom

“A partir dos anos 1990-2000, a reciclagem no meio artístico passou a ocupar um lugar mercadológico por intermédio de um caráter simbólico”, afirma o curador Cadu Gonçalves. Segundo Gonçalves, o colecionador normalmente não se interessa muito pela arte que envolve tal processo por estar associada ao perecível e ao artesanato. “Se bem que em locais como a China, por exemplo, a reciclagem na arte tem um aspecto de reconfiguração e denúncia mais do que obra propriamente dita”, completa. 

A profissionalização como novidade e reaproveitamento de eletroeletrônicos

A carreira do Gestor Ambiental é algo muito recente, com as primeiras ideias surgindo na década de 1980. “Existe ainda um distanciamento enorme entre o discurso acadêmico e o público leigo”, diz Ana Carolina Roque, formada pela EACH USP Leste em 2021. Carolina também critica a ausência de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável, pontuando que existe um “longo caminho a ser trilhado”. 

Electronics Recycling

Engenheiro ambiental, Felipe Olegario é analista de operações da ABREE – Associação Brasileira de Reciclagem de Eletrodomésticos e Eletroeletrônicos. Criada em 2012, a organização conta com mais de 50 membros que cuidam da gestão da cadeia de logística reversa, ou seja, de como os materiais são separados para então serem reinseridos e reciclados. As parcerias contam com a participação de prefeituras, varejistas e tem como alvo chegar ao consumidor final. “Queremos instalar coletores em academias, igrejas e escolas, por exemplo, para que as pessoas se conscientizem da importância do reaproveitamento desses produtos”, comenta Felipe.

O relacionamento com cooperativas de catadores faz parte de um processo informativo, bem como o contato com universidades e escolas estão nos planos da ABREE. De acordo com Felipe, “as crianças têm um cuidado com o meio ambiente que proporciona uma abordagem educacional”.  

De fato, a prática da reciclagem também tem impacto na formação das futuras gerações. É importante que os pequenos sejam educados e cresçam num ambiente em que isso seja algo comum. Dessa forma, é preciso investir em ações que promovam uma mudança de hábitos na sociedade, por meio de uma transformação cultural e com um impacto ambiental ainda maior. 

Esse foi o resultado alcançado na Escola Sesi da Vila Leopoldina por intermédio do Desafio Semana Sem Lixo. “É crucial ressaltar que a iniciativa partiu dos próprios alunos dos 3º, 4º e 5º anos”, destacou Bruna de Almeida, coordenadora pedagógica do Fundamental I. Idealizado por estudantes entre 9 e 11 anos, eles estabeleceram metas para os seguintes dias da semana: Segunda sem carne, Terça sem descartáveis, Quarta sem compras, Quinta sem industrializados, Sexta compartilhada, Sábado com a natureza.

Imagem: Escola Sesi Vila Leopoldina

Bruna descreve que o processo de desenvolvimento do projeto levou dois meses para ser finalizado. “A ação foi um estímulo à autonomia, além do desenvolvimento do pensamento construtivista do aluno, o que para nós, professores, é estimulante ao trabalho educativo”, conclui a pedagoga.

“Muitas famílias também aderiram ao desafio e seguem participando”, acrescenta a professora Caroline Leme. “Acredito que esse evento deve ser realizado anualmente, com mais preparo e divulgação de informações para que uma parcela maior da comunidade escolar se envolva e participe, até que isso ganhe corpo e pequenos novos hábitos diários passem a ser incorporados na escola”, completa a docente.

Diversidade de possibilidades

O Brasil ainda está incipiente no que diz respeito ao reaproveitamento de resíduo sólido. Um exemplo disso é a reciclagem de insumos da construção civil, que podem ser comercializados como matéria-prima secundária. “Todo o lixo da construção civil é rastreado”, analisa Roberto Settanni, empresário da Architrave Engenharia. “Cada material a ser reciclado, como madeira, plástico, papel, vidro, alumínio, tem sua caçamba própria”, completa, “aliás, de todos, o alumínio é o que tem maior reaproveitamento – cerca de 90%”.

Imagem: iStock

Settanni declara que o aço passa pelo processo de laminação a frio para então se transformar em bobina. Em linhas gerais, o material sucateado sofre perda metálica, indo primeiro para as usinas diretamente para os fornos, onde é derretido para ser reaproveitado. Outros materiais, como bloco e argamassa, são britados e utilizados como agregado fino, isto é, areia. O engenheiro releva também a importância do valor do processo de reaproveitamento das outras matérias-primas, bem como a reciclagem de energia.

A transição energética é um processo no qual há uma mudança na composição da(s) principal(is) fonte(s) de energia de uma matriz energética. Baseia-se no propósito de substituir a utilização de fontes finitas e prejudiciais ao meio ambiente, como os combustíveis fósseis, por fontes renováveis. Com o objetivo de reduzir os custos e a emissão de gases de efeito estufa para atmosfera, essas mudanças são indispensáveis pensando no futuro da sociedade e na diminuição dos problemas climáticos, como o aquecimento global.

As mudanças climáticas são preocupação mundial e a Vibra Energia quer ter papel ativo, oferecendo aos seus clientes soluções energéticas oriundas de fontes limpas e sustentáveis. Essas fontes são renováveis, ou seja, inesgotáveis, fazendo com que seja uma alternativa ao uso de combustíveis fósseis. Alguns exemplos dessas fontes são a energia solar, eólica, hidráulica, geotérmica e de biocombustíveis, e um dos benefícios do reaproveitamento delas é a diminuição dos custos para o país e para os consumidores.

Não podemos esquecer de outro recurso natural que desperta preocupação devido ao risco de futura escassez: a água. Sobre seu reuso, a Sabesp tem como foco a produção a partir das próprias Estações de Tratamento de Esgotos. Essa água é fornecida para empreendimentos com demandas relacionadas a processos industriais e serviços públicos, ou seja, fins não residenciais. Para a população em geral, a Sabesp dispõe de materiais de orientação sobre uso consciente da água e simuladores de consumo.

Mulheres no mundo corporativo e perspectivas na sustentabilidade

Juliana Sá, Corporate Relations & Sustainability da Scania Group, descreve sua trajetória no universo empresarial e da reciclagem. Autora de diversos artigos, dentre eles “Causa mortis: Mudança Climática” no e-book “Essas Mulheres Sustentáveis” (2022), trabalha com sustentabilidade desde 2014, quando começou a atuar com mobilidade sustentável, investigando o uso do biometano – um combustível renovável produzido a partir de resíduos – no transporte pesado. “À época, parecia ‘futurologia’ mexer com um combustível oriundo do lixo”, diz, “escrevi um texto na minha newsletter no LinkedIn sobre o tema. Mas deu certo e hoje, anos depois, vejo que o interesse pelo assunto está crescendo e a importância do combustível para frear a mudança climática também.”

A profissional afirma que aos poucos foi lidando com outros pilares da sustentabilidade como “Diversidade & Inclusão”, quando criou o primeiro programa para apoiar e valorizar as mulheres do setor automotivo, o Scania Queen of the Road, que este ano vai para a sétima edição e já reuniu mais de 180 mulheres da América Latina.

Imagem: iStock

“Depois, também trabalhei com outras pautas de redução de carbono, Impacto Social e Economia Circular. Todos os temas têm entrado na agenda de muitas companhias dada a importância que a Sustentabilidade tem ganhado para as empresas que querem ser longevas”, completa Juliana. “Afinal, chegará o dia em que se você não for sustentável, ninguém vai querer comprar seus produtos, investir na sua empresa ou trabalhar para você. Conduzir o tema da Sustentabilidade nas empresas e instituições é fundamental e necessário. Estamos falando do legado que deixaremos para as próximas gerações”, filosofa.

Segundo Juliana, em geral, as mulheres têm características afloradas como sensibilidade, resiliência, intuição, empatia, entre outras, que têm muita conexão com a pauta da Sustentabilidade. “O tema, muitas vezes, é intangível e faz parte de uma visão de longo prazo. Requer disciplina e convencimento para as coisas acontecerem”, acrescenta. 

E como ela mesma conclui, “o olhar feminino é fundamental para incluir nas discussões questões que, muitas vezes, não seriam consideradas se houvesse apenas um olhar masculino.” Sempre existe a possibilidade novas soluções e perspectivas para questões que exigem esforço coletivo.

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