Luana Miranda
Repórter Mulheres Jornalistas – SP
 
Morar no Brasil e ter um sonho de seguir carreira na área da comunicação fora do país, quais são as dificuldades e oportunidades que você pode encontrar? O Coletivo Mulheres Jornalistas entrevistou a jornalista Janete Weinstein que foi morar na Califórnia aos 16 anos para descobrir como ela conseguiu fazer uma carreira cheia de bagagens pelos Estados Unidos a ponto de ser a única brasileira a ter ganhado o Mark Twain de jornalismo, mesmo não tendo a língua inglesa como primeira. Confira como foi essa entrevista:
 
 
Quando descobriu que queria seguir na área da comunicação?
Desde pequena sempre tive paixão pelo jornalismo, ainda quando criança eu sempre fingia ser apresentadora de televisão. Aos oito anos eu respondi à um anúncio do jornal do estado de Goiás, O Popular, que buscava por um repórter mirim para contribuir para a coluna infantil e fui aprovada, guardo minha carteirinha até hoje, com a data de 1988. Depois, aos 10 anos comecei a frequentar a rádio que o meu pai tinha em Itumbiara, GO, eu me apaixonei pela tecnologia, pela forma que ele estava se conectando e se comunicando com as pessoas. Foi dali que eu descobri que eu queira aquilo para mim, queria ser apresentadora na rádio, queria ser jornalista.
Como foi sua trajetória na área até agora?
Aos 16 anos eu vim para a Califórnia, e por conta de toda a dificuldade, por ser imigrante e não ter uma base, eu acabei optando por uma faculdade segura na época, que foi Artes, mas mesmo assim, não foi algo que me deixou satisfeita, estava sempre faltando algo. Eu sempre pensava “quem iria contratar uma recém-chegada e que ainda tem sotaque?”, então eu já me bloqueava e o sonho de ser jornalista ficou por um tempo congelado. Em 2005 eu resolvi voltar à faculdade, entrei em uma das melhores aqui da Califórnia de comunicação. Foram longos três meses para eles me darem uma resposta, e quando a carta chegou e eu vi que fui aprovada, foi uma emoção muito grande, por tudo, por eu ser imigrante, por ter dúvidas e se eu seria aceita por conta do sotaque e tudo mais. Começar a minha carreira como jornalista não foi fácil, mas também não foi impossível. Eu consegui meu primeiro estágio com uma das organizações mais reputadas na área de business network chamada CNBC e foi aonde eu aprendi bastante, aonde eu consegui a base para ser a jornalista que eu sou hoje. De lá passei para um canal local, depois para a CNBC, escrevi para a CNN também, entre outras. E esmo continuando não acreditando pelo fato de eu ser mulher e imigrante, hoje já são em torno de 10 anos que atuo como jornalista.
 
Qual o nome do prêmio que você ganhou de jornalismo investigativo e por onde ganhou?
O prêmio que eu ganhei é o Mark Twain de jornalismo e eu ganhei trabalhando para a KCSN em Northridge. Foi sobre a matéria que eu fiz de como o FBI não estava dando atenção suficiente aos kits de estupros que estavam guardados na polícia local. Eu não ganhei o prêmio sozinha, o noticiário daquele dia também ganhou e isso foi muito gratificante.
 
Como foi concorrer e ganhar ao prêmio?
Foi bastante recompensador receber o prêmio, ser a primeira mulher brasileira a ganhar este prêmio, ainda mais por não ser fácil ser uma jornalista mulher, latina e não tendo o inglês como primeira língua.
Mediante a um mundo tão machista, como foi conseguir a oportunidade de fazer matérias como está?
Eu sempre briguei por elas, sempre busquei, fazia e dava o meu melhor. Eu nunca deixei de não cobrir algo por ser mulher, costumo dizer que jornalista não tem gênero, você está ali para cobrir sua matéria, pegar sua sonora e é isso. Eu sou a única brasileira a ter um Mark Twain, então é uma vitória muito grande, não só pra mim, mas também para todas as jornalistas brasileiras que vivem atualmente aqui na Califórnia.
 
O que mais você conquistou na área da comunicação?
Uma das minhas outras conquistas aqui foi montar o BDCITV, em 2010, uma plataforma multimídia, com uma audiência muito grande, podemos dizer que era como se fosse a Folha de São Paulo, mas com assuntos apenas da Califórnia, o que me deu a oportunidade de poder cobrir eventos grandes, como o Oscar, a visita do Obama no estado, etc. O BDCITV abriu portas para mim e para várias jornalistas, tanto daqui como estrangeira, queria dar a elas uma oportunidade de construir sua carreira. E um outro projeto, mais recente foi a publicação de um livro sobre a comunidade de moradores de rua no condado de Los Angeles.
 
Como você enxerga o mercado na área da comunicação nos EUA?
O mercado aqui em Los Angeles é muito competitivo, tanto pra homem quanto para mulher, é um dos mercados mais visados para se trabalhar como jornalista, a capital do entretenimento. Então fica melhor você sair da faculdade e fazer seu estágio fora da Califórnia, em um estado menor, onde você pode cometer seus erros e aprender, ter mais experiência do que aqui em Los Angeles. Atualmente o mercado está muito diferente com essa era digital, muitos jornais estão fechando, demitindo jornalistas então está tendo uma revolução. O meu portal multimídia, por exemplo, ficou no ar durante seis anos, mas não estava mais dando conta por falta de apoio, então eu resolvi deixá-lo no pause por agora. E estou voltando ao mercado como freelancer.
 
Enfrentou dificuldades por ser brasileira?
Muitas, por ser brasileira, e por ser mulher. Eu lembro que um companheiro de profissão um dia veio me perguntar quem era o dono da BDCI e quando eu disse que era eu ele me disse que era impossível por eu ser mulher. Disse bem assim: “Não, isso não pode ser um trabalho de uma mulher, isso é um trabalho de homem, está muito profissional”. E eu disse: “Pois é, foi eu, desde a logo até tudo”.
 
As oportunidades que uma mulher jornalista tem dentro dos Estados Unidos são grandes?
É possível, precisa de uma pesquisa muito grande na área que a pessoa quer se dedicar, se é entretenimento, esporte, moda entre outros, mas é fundamental se especializar, ver aonde estão oferecendo essas oportunidades, as instituições, que estão fazendo doações para projetos e ir apresentando. Contanto que venha com a cabeça aberta, porque discriminação a gente vê em qualquer lugar.
 
Você sofreu em algum momento da sua trajetória preconceito na sua profissão por ser mulher?
Hoje é diferente, eu já estou aqui a quase 26 anos e não tenho mais um sotaque tão forte, mas eu passei por muitas coisas, por muitas discriminações, muitos assédios. Por ser brasileira pensavam que eu era de fácil acesso. Deixei um dos meus trabalhos porque eu chegava todos os dias em casa frustrada pelas brincadeiras e indiretas que faziam pra mim, o meu chefe uma vez me disse ‘’Bom, se você quer sobreviver no mundo dos esportes você vai ter que entrar no jogo, e é assim que a gente joga, então agora você é uma de nós, tem que aguentar tudo isso’’ Eu fiquei lá três meses, não consegui mais me sentir confortável na área do esporte, que é uma área que eu adoro. Então pra mim, isso foi uma grande frustação, por não suportar esse mundo machista.
 
Qual a dica que você daria para uma jornalista brasileira que pretende fazer uma carreira internacional?
Criar suas próprias oportunidades, acreditar em você mesmo, fazer suas pesquisas e tirar um tempo para você, para saber o que realmente quer, porque a gente não pode ter tudo, mas pode ter um sonho e aos pouquinhos ir realizando.

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