Por Adriana Buarque, Jornalista – SP
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Antes considerados incapazes e dependentes, a terceira idade traz novas perspectivas num universo que se transforma a cada dia

“To everything there is a season” – o trecho da música de rock norte-americano dos anos 1960 cantada pelo The Byrds diz que “tudo tem seu tempo determinado.” Na verdade, a frase foi proferida há milênios por Salomão quando estava em idade avançada, bem como parece ir na contramão do mundo pós-moderno em que se cultua a juventude. No fundo, reflete que todos envelheceremos, todos sabemos que um dia iremos morrer e que nossa memória irá jazer no esquecimento.

Por outro lado, atualmente, existe um movimento procurando abocanhar uma fatia do mercado em franca ascensão: os idosos, ou a terceira idade. Quem são eles? O que pensam? O que consomem? A chamada “economia prateada” move R$ 1,6 tri por ano, e um grande banco do país chegou a regravar o hit do cantor Fabio Jr “20 poucos anos” para “50 e tantos anos”. Logo é para ser levado em consideração um público que tem poder de decisão e, diferente do que se pensa, está lúcido e ativo. 

A Política Nacional do Idoso e o Estatuto do Idoso regem os direitos são assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 anos. A novidade do Estatuto, portanto, está nas punições mais severas para quem cometer crimes contra a terceira idade, como o abandono e o desrespeito à dignidade. Estabelecidos por lei, educação, cultura, lazer, transporte, segurança, aposentadoria estão contemplados no rol que protege uma faixa etária que carrega uma bagagem com muito a acrescentar e que parecer ser negligenciada pela sociedade. 

“O Brasil tem uma pirâmide etária desequilibrada”, afirma a historiadora, mestra pela Universidade de São Paulo e criadora do blog Mulheres Viajantes, Thaís Carneiro. De acordo com a pesquisadora, o país começa a lidar nos últimos anos com a velhice e, culturalmente, tem sofrido um choque que sai da lógica da infantilização e da regressão. 

Thaís Carneiro em atividade no Mulheres Viajantes/Imagem: Rafa Gushi

Thaís ressalta que o conceito do ancião vem do pater famílias da Grécia, em que o homem era a autoridade máxima e exercia as funções de juiz, chefe religioso e militar. “O historiador Carlo Ginzburg também diz que na narrativa da Bíblia hebraica quem recebeu as instruções para não comer do fruto proibido foi Adão e não Eva”, explica a acadêmica quanto ao papel masculino relacionado ao saber. 

“Na Idade Média, o feminino foi associado às bruxas devido ao manuseio das ervas medicinais e ao conhecimento intuitivo”, comenta a professora, “entretanto, é o que os pajés nas comunidades indígenas também fazem hoje em dia, corroborando a lógica da liderança masculina anciã”. 

Se intuição é pertencente ao feminino mas o masculino acaba dando seu pitaco, fato é que no final ambos acabam se misturando. E em se tratando de convivência, o casal Elisabete e João Cardoso, juntos há 53 anos (namorando há 58!), prova que sim, ainda existem uniões longevas num mundo de relacionamentos líquidos. “Tenho um pensamento mais abstrato”, filosofa Bete, “enquanto ele tem um pensamento mais prático”.

“Cada um tem sua individualidade, mas no final entramos num acordo, resultando num café com leite”, brinca. Elisabete é educadora e João é engenheiro da computação e ambos vieram de Portugal para o Brasil ainda jovens. “Quando fizemos aniversário de namoro, por incrível que pareça, ele se emocionou mais”, recorda, “e assim vivemos como sócios e amigos apesar dos gostos diferentes.”

Perspectivas no longo prazo

O interesse pela vida independe de classe social. O fato de ajudar os menos favorecidos ou participar de uma comunidade é determinante num projeto de envelhecimento – que é um projeto de vida que não se dá da noite para o dia. Essa é a opinião de Maria Clara Nassif, psicóloga, diretora e sócia-fundadora do CARI psicologia e educação. 

A sexualidade feminina e masculina foi colocada em jogo durante a covid-19. “Normalmente, existe a ideia de que a mulher num casamento está voltada para a família e na menopausa isso se agrava, enquanto o homem sempre tem a figura do ser autônomo”, disserta a psicóloga. “Com a pandemia, essas diferenças ficaram gritantes e se não há uma relação afetiva estável isso desequilibra o emocional.” Para a especialista, as disparidades foram acentuadas com a falta de diálogo e o aumento do número de divórcios durante o isolamento.

“A pandemia foi um divisor básico determinante para o idoso nos quadros neurológicos e psiquiátricos”, analisa Maria Clara, “quanto mais pró-ativa é a pessoa, melhor foi a reação dela perante o contexto.” O isolamento para o indivíduo na terceira idade pode desencadear um quadro depressivo que, muitas vezes, leva a situações clinicamente graves. “Os programas de qualidade de vida são uma centelha de esperança para esses pacientes, como estímulo por neuromodulação ou neuropatias”, conclui. A saúde pública na senioridade precisa ser observada, embora exista muitas pesquisas relacionadas à longevidade, sanidade, lucidez e agilidade. 

Imagem: iStock

Os estudos também podem estar voltados à arte e à música, assim defende Viviane Magalhães ou, como é mais conhecida, Vivi da Viola, musicista e professora de pós-graduação em Arteterapia e graduação em Musicoterapia. “A arteterapia não olha a estética e sim a leitura do inconsciente, acompanhando os modelos neurológico, comportamental e psicológico”, comenta. Já a musicoterapia procura traçar o repertório do paciente por intermédio da leitura com o ativamento da memória, seja ela neurológica ou física. 

A geriatra Luciana Branco concorda quando o tema é a busca por uma longevidade saudável. “O acesso à informação que a internet e a televisão proporcionam aumentou muito a consciência das pessoas sobre a prevenção”, defende. O também médico André Rodrigues, formado pela UNIFESP, acredita ser interessante a partir dos 40 anos começar a se consultar com um geriatra, sendo que, aos 60, a frequência se torna obrigatória para manutenção da saúde.

André comenta que as enfermidades mais comuns que seus pacientes apresentam são as de cunho degenerativo (hipertensão, diabetes, colesterol alto, obesidade), cognitivo (demência, depressão, perda de memória, alteração de personalidade) e de funcionalidade (capacidade física). Entretanto, o especialista ressalta que, como o Brasil é um país que está envelhecendo rapidamente, a população tem mudado a postura em relação aos mais velhos, modificando inclusive a representação social pejorativa de incapacidade e dependência em relação ao grupo.

Longevidade fitness

E falando em postura, nada melhor do que uma profissional de educação física para conversar a respeito. Ariane Abreu, responsável pelo programa Bio Master que ajudou a implantar na academia Bio Ritmo da filial da avenida Paulista, afirma que os exercícios ajudam muito na melhora do desempenho físico. “Os artigos científicos já provaram que a atividade física auxilia na prevenção e no tratamento do Alzheimer”, comenta.

Ariane explica que a sequência da prática aeróbica, de musculação e de alongamento influencia no andar e na força corporal de modo geral, sendo que os alunos seniores fazem o teste funcional de avaliação física a cada quatro meses. “O grupo gosta muito da socialização”, afirma a personal trainer, “é assíduo e estabelece uma relação de confiança com o professor”.

Programa Bio Master/Imagem: Bio Ritmo Academia

Naturalmente, nenhum exercício tem efeito se não for acompanhada de uma boa alimentação. “Hoje, temos idosos muito ativos que praticam atividade física regularmente, com um estilo de vida agitado e outros mais tranquilos, que não praticam movimentos”, analisa a nutricionista Letícia Vitoriano.

Segundo ela, a alimentação deve ser balanceada como em toda faixa etária, equilibrada em carboidratos, proteínas, gorduras, vitaminas e minerais. Letícia expõe que um idoso pode comer tudo o que um adulto come, o que vai diferenciar é se ele apresentar alguma patologia como diabetes ou qualquer outra na qual a comida faça parte do tratamento. Quanto à prescrição de suplementos, a nutricionista indica de forma individualizada.

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