Quando a Polícia salva, quem conta?

por Letícia Fagundes, Jornalista Investigativa
Um resgate no 12º andar reacende o debate sobre o papel social das forças de segurança
O que poderia ter sido marcado por luto terminou com vida preservada. Em um momento de extrema tensão, no 12º andar de um prédio residencial em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, uma pessoa em intenso sofrimento emocional ameaçava contra a própria vida. Do lado de fora, cada segundo parecia suspenso no ar para a equipe de policiais penais e civil.
A mídia de massa frequentemente ressalta os casos em que agentes de segurança matam e as estatísticas mostram que milhares de pessoas morrem em confrontos com policiais no Brasil todos os anos, com mais de seis mil óbitos decorrentes de intervenções policiais registradas em 2023, o que representa uma média de cerca de 17 mortes por dia em ações de segurança pública no país, segundo a Agência Brasil.
Porém essa não é a única face do serviço policial. Existem também relatos significativos de policiais que agem sob risco extremo para salvar vidas, muitas vezes sem que essas ações ganhem destaque, como nesta ocorrência em que profissionais colocaram técnica e coragem em prática para preservar uma vida em crise.

Foi nesse cenário que o policial penal Everton Muniz de Lima tomou a decisão rápida de acessar a parte externa do edifício para alcançar a sacada onde a vítima estava. O deslocamento exigiu precisão e controle emocional absoluto. A altura, o espaço reduzido e a imprevisibilidade da situação impunham riscos reais. Ainda assim, ele avançou, centímetro a centímetro, até se aproximar o suficiente para agir.
Enquanto isso, a policial penal Grasiela Costa Schmaltz assumia outra frente igualmente delicada: a palavra. Posicionada também ao lado de fora da janela, ela manteve diálogo constante com a pessoa em crise. Em tom firme e acolhedor, buscava estabelecer conexão, diminuir a tensão e manter aberta uma ponte de confiança em meio ao desespero.
Dentro do prédio, o inspetor da Polícia Civil Guilherme Moraes Machado trabalhava contra o tempo para viabilizar o acesso forçado ao imóvel. Enquanto o colega se equilibrava na área externa, ele tentava arrombar a porta, preparando o reforço necessário para a intervenção final.
O que se viu foi uma engrenagem humana funcionando sob pressão máxima. Contenção, negociação e estratégia operaram juntas. Quando o contato físico foi finalmente estabelecido, o gesto foi rápido e decisivo e a vida foi preservada.

A ocorrência terminou com a vítima em segurança e encaminhada para atendimento especializado. Para quem acompanhava, ficou a imagem de profissionais que, diante do limite entre a vida e a perda, escolheram agir com coragem, preparo e confiança mútua.
Ao conversarmos com os três policiais, ficou evidente que, embora sejam reconhecidos como heróis pela atuação decisiva, eles próprios evitam esse rótulo. São profissionais que, fora da farda, têm famílias, filhos, pais e pessoas que os aguardam em casa todos os dias. Ainda assim, diante da urgência daquela cena no 12º andar, não hesitaram. A prioridade foi preservar uma vida. O instinto de proteção falou mais alto que o medo e a escolha foi agir.
Entre o abismo e a vida
Equilibrado do lado de fora do 12º andar, a muitos metros do chão, o policial penal, Everton Muniz de Lima, foi quem avançou pela área externa do prédio até alcançar a sacada onde a vítima estava. Em meio à tensão e ao risco evidente, o policial penal descreveu como viveu aqueles segundos decisivos, marcados por emoção, instinto e pela convicção de que era preciso agir para preservar uma vida.

O que passou pela sua cabeça no momento em que percebeu que aquela pessoa precisava de ajuda urgente?
Eu não sei o que passou na minha cabeça, estou bem emocionado. Ela estava precisando de ajuda e eu agi com o meu coração, acho que eu esqueci um pouco a razão naquele momento, talvez eu coloquei a minha vida em risco, mas eu só pensava em poder ajudar ela. Ter a minha colega me ajudando, me incentivando, dizendo ‘vai, que vai dar tudo certo’ e eu só queria ajudar, salvar ela. Eu sei que ela estava num momento complicado da vida dela, não sei o que estava acontecendo com ela e espero que Deus possa cuidar dela daqui para frente. O importante é que deu tudo certo. Estou bem emocionado.
Que tipo de preparo emocional e técnico um policial precisa ter para lidar com situações tão delicadas como essa?
A nossa profissão é um desafio diário, porque o dia a dia vai nos moldando e, como a gente trabalha diariamente com a questão penal, com presos privados de liberdade, a gente acaba aprendendo a lidar com as nossas emoções, sabemos o momento que tem que agir, o momento que tem que dar um passo atrás e acho que esse preparo, essa experiência que eu tenho, isso fez a diferença nesse momento em que eu tinha que agir, mas também tinha que ter o controle da situação e, ao mesmo tempo, eu tinha que ir conversando com ela, pedindo para ela se acalmar, que eu estava ali só para ajudar e que eu não estava ali para fazer mal.
Depois dessa ocorrência, como você ficou emocionalmente? Existe algum tipo de apoio psicológico para os agentes que passam por situações assim?
Fico emocionado por ter ajudado e sim a gente tem atendimento, tem uma equipe de psicólogos que nos atende, se houver necessidade. A nossa instituição nos ajuda nesse sentido. Eu estou bem, graças a Deus, estou bem tranquilo, coração leve e hoje a gente só tem que comemorar por ter dado tudo certo.
Que mensagem você deixaria para pessoas que estão enfrentando um momento de desespero e para familiares que não sabem como agir?
A mensagem que eu deixo é sempre acreditar no próximo. Por mais que a gente ache que os problemas da gente são os piores do mundo sempre vai ter alguém para poder nos ajudar. E talvez, nesse momento, foi Deus que me colocou ali, Deus que me deu coragem. Eu tenho uma filha, naquele momento eu não pensei nem em mim. Eu pensei na minha família, eu só pensei em ajudar ela. É essa a mensagem que eu deixo. Não deixem de acreditar no próximo, nas pessoas. O bem sempre vence!
Porta Arrombada, Vida Salva
Lotado na 2ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa, o policial civil Guilherme Moraes Machado teve papel decisivo na ocorrência. Enquanto dois colegas atuavam pelo lado de fora do prédio, ele tinha mais uma estratégia: ingressar pelo interior do apartamento. Diante da porta trancada e da urgência da situação, realizou o arrombamento para garantir acesso rápido ao local, permitindo a intervenção conjunta que resultou no resgate.

Em um momento tão crítico, como você construiu a confiança necessária para conseguir intervir e ajudar aquela pessoa?
Eu estou em férias, estava em casa e recebi pelo grupo do condomínio ali: tinha uma pessoa no prédio ao lado do meu aqui pedindo socorro, enfim, na janela. Prontamente saí para a rua, peguei minha arma, peguei algema, não sabia que situação que se tratava, peguei minha carteira funcional. Então fui planejando, em questão de fração de segundos, o que eu ia fazer. Fui informado, quando cheguei na portaria, que dois colegas da Polícia Penal haviam adentrado ao prédio e haviam subido de elevador, mas antes havia informação que alguém estava ameaçando a vida da pessoa e não ela atentando contra a própria vida.Me inteirei da situação e um conhecido meu que mora ali me deu a situação real: “Não, ela tá dizendo que estão tentando matar ela, mas não tem ninguém. Ela vai tentar tirar a própria vida, ela tá pedindo socorro e tá na janela”.
Me informaram que os colegas policiais penais entraram pelo apartamento do lado e estavam ingressando pela janela. A porta estava trancada do apartamento dela. Eu estourei a porta e corri em direção a ela. Quando o colega Everton estava chegando na janela, eu puxei ela pela camiseta e o colega se jogou para dentro. Aí ela caiu pra dentro, a gente dominou ela.
A confiança é meio que automática, parece que vira uma chave na cabeça da gente, sendo bem franco, parece que vira uma chavezinha na cabeça da gente. O instinto de polícia é essa coisa: tu vai. Lógico, o medo te dá limites, ele faz tu te abrigar, ele faz tu ter o devido cuidado contigo, mas tu vai, tu não pensa em nada, tu vai. Tu só pensa em resolver. E, graças a Deus, a gente usou os meios que nós tínhamos e foram os meios efetivos pra salvar a vida da senhora.
A corporação oferece preparo específico para lidar com saúde mental e prevenção? Você considera que esse tema precisa ser mais debatido na formação policial?
A corporação faz alguns programas sobre a questão mental do policial, tem programas ali no nosso departamento de saúde. Eu praticamente nunca participei, nunca achei necessário pra mim, mas eu acho extremamente necessário, eu acho muito bom, tem que ter. Porque com o que a gente lida diariamente, quem está na linha de frente, não é fácil o que vê, o que passa. Então tem que ter acompanhamento, é super importante quando o policial sentir a necessidade de ter a quem recorrer. A instituição oferece isso, com certeza.
A questão da saúde mental tem que ser debatida na formação, tem que ser avaliada, tem que ser bem explicada. Talvez o aluno, antes de ingressar, obviamente quem não é da segurança pública ou veio de outra instituição não tenha dimensão do que vai passar, do que vai ver, do que vai vivenciar. Isso é muito importante ser colocado para o aluno policial, para que ele tenha uma mínima noção e um psicológico minimamente adequado para aquilo.
Logicamente não tem como, em aula, simular o que é um confronto direto, o que é a adrenalina de uma operação policial, o que é uma ocorrência como essa que eu peguei hoje. É tudo muito rápido, você quer o fim daquela ocorrência o mais rápido possível, e que seja o fim desejável: que você consiga se preservar e preservar aquela vida que está em risco. Então eu acho muito necessário, na formação do aluno policial, ele ter um acompanhamento, ter um assessoramento sobre esse tema.
Depois de viver uma situação assim, o que muda na forma como você enxerga o seu papel na sociedade?
Já é a segunda vez que isso acontece comigo, exatamente isso: uma pessoa tentando tirar a própria vida, e eu intervi a tempo. Obviamente não fiz nada sozinho, sempre tive o apoio dos meus colegas.A gente sai, num primeiro momento, extremamente cansado fisicamente, mas sai muito feliz. Às vezes a gente não acompanha aquela pessoa para saber o pós. Talvez eu nunca mais vá falar com ela, né? Mas eu saio feliz, saio agradecido porque não aconteceu nada comigo, não aconteceu nada com meus colegas e não aconteceu nada com aquela vida. Aliás, aquela vida foi salva. Eu tive uma participação nisso aí!
Então eu saio grato por essa ocorrência. Pode ser meio clichê, mas eu saio vendo que o que eu escolhi pra mim é o que eu realmente amo fazer. A polícia é a profissão a qual eu escolhi, a qual eu me dedico, e aquele juramento que a gente faz quando se forma eu levo muito comigo. O nosso lema, que é servir e proteger, eu carrego muito comigo isso aí e procuro sempre dar o meu melhor, independente da situação. Por exemplo, eu tô em férias e entrei de cabeça nessa ocorrência, dando o meu máximo. Jamais, em hipótese alguma, viraria as costas pra uma situação dessas, independente de estar de férias ou não. Procurei dar o meu melhor e saio gratificado, saio grato dessa ocorrência.
Farda não tem gênero
Também pelo lado externo do prédio, posicionada na janela vizinha, também ao lado de fora, a policial penal Grasiela Costa Schmaltz assumiu uma das funções mais delicadas da ocorrência: o diálogo. Enquanto o colega se aproximava fisicamente para a intervenção, foi ela quem buscou estabelecer conexão com a pessoa em crise, utilizando a palavra como instrumento de aproximação, tentando acalmar, ganhar tempo e construir confiança em meio à tensão extrema.
Como foi para você, como mulher e agente da segurança pública, conduzir uma ocorrência tão sensível?

Quando me perguntam como foi para mim, como mulher, na hora a gente nem pensa. Nós ouvimos os gritos de socorro lá e a gente só correu para tentar ajudar. Então, para mim, foi gratificante a gente poder ajudar o próximo dentro do nosso trabalho, usando a técnica que a gente tem, os ensinamentos da instituição. Então, foi bem importante.
Você acredita que a escuta e o acolhimento têm um peso diferente nesse tipo de abordagem? Como isso aparece na prática?
Eu trabalhei no Instituto Psiquiátrico Forense, fui diretora do Instituto no ano passado, por quase dois anos. Então, para mim, foi bem importante o conhecimento que eu tive no Instituto Psiquiátrico Forense também, me ajudou bastante. A gente entrou e conseguiu fazer um acolhimento com ela. Ela estava totalmente surtada, mas conseguimos, pelo menos, fazer ela se acalmar um pouco, com a ajuda de todos que estavam ali.
Então, isso a gente aprende no dia a dia, que, na verdade, ser policial penal não é somente abrir e fechar cadeado. A gente tem outras demandas, a gente tem responsabilidades, a gente tem conhecimento técnico e a questão da vítima também é ensinada. Então, foi colocar na prática os ensinamentos que a gente aprendeu na Academia da Polícia Penal e no nosso dia a dia.
Situações como essa deixam marcas. Que tipo de apoio emocional é oferecido aos profissionais após ocorrências de alto impacto?
Eu estou há 11 anos na Polícia Penal e sei da nossa importância dentro da segurança pública. Quanto às marcas, é claro, mexe, mexe sempre, mas a gente tem o serviço de assistência, desculpa, o serviço de atendimento ao servidor da Polícia Penal, e isso é bem importante quando a gente tem algum problema. A gente tem esse acolhimento também dentro da instituição, tem um serviço que nos dá total apoio, que nos escuta. Então, isso também é bem importante.
Que recado você deixaria para outras mulheres policiais ou não sobre a importância de falar sobre sofrimento emocional e pedir ajuda?
As mulheres da segurança pública, a gente tem que ver o nosso valor, reconhecer o nosso valor, que nós somos tão policiais quanto os homens e a gente pode fazer muita coisa. Graças a Deus, eu nunca passei por uma questão de discriminação. Os nossos colegas sempre nos ajudam, pelo menos comigo sempre me trataram de igual para igual. Mas acho que é importante também a gente saber do nosso valor enquanto mulher, porque, além da técnica, a gente tem sensibilidade. Então, acho que isso é muito importante: honrar a instituição, honrar nosso serviço e ter em mente que nós somos profissionais da segurança pública, independente do gênero.

