Protestos em meio à pandemia: é hora de ir às ruas?

Por Melissa Rocha, Jornalista – RJ 

melissa.rocha@mulheresjornalistas.com 

Editora Chefe: Letícia Fagundes, jornalista

Atos contra Bolsonaro mobilizaram milhares no mês passado e prometem o mesmo para este mês. Mas também levantam a dúvida: é seguro ir às ruas com a pandemia ainda não controlada?

No final do mês passado, milhares de manifestantes foram às ruas protestar contra o governo, ou melhor dizendo, o desgoverno de Jair Bolsonaro. Foi o primeiro ato presencial e de dimensão nacional desde o início da pandemia, e um segundo está marcado para o dia 19 deste mês.

A mobilização, que movimentou 180 municípios, surpreendeu o governo, que nos últimos meses detinha o monopólio das ruas. Mas o ato levantou algumas questões: estaria a oposição sendo hipócrita, uma vez que está fazendo o mesmo que os apoiadores do governo, ou seja, promovendo aglomerações? É seguro ir às ruas com a pandemia ainda não controlada?

Primeiro, é preciso definir bem o que une e difere os atos de ambos os lados. É inegável que tanto os atos a favor como os contra o governo geraram aglomerações, mas as semelhanças param por aí. Em atos a favor do mandatário, o grande número de pessoas sem máscara era flagrante. Isso porque negar a pandemia era justamente uma das pautas dos apoiadores do governo. Já nos protestos contra Bolsonaro, a pauta era oposta, o que fez da máscara um símbolo dos manifestantes, sendo, inclusive, distribuída gratuitamente em alguns pontos. Além disso, grande parte dos que foram às ruas haviam perdido algum ente querido para a covid-19. Aparentemente, quando o governo decidiu fazer da fantasiosa imunidade de rebanho a sua bandeira, minimizando as mortes que essa estratégia traria quase a um “efeito colateral”, não levou em conta a revolta que causaria em parentes e amigos das vítimas, nem que se tornaria alvo dela.

Ademais, o ato contra o governo visava expressar a indignação com o retrocesso social que Bolsonaro vem promovendo a pleno vapor. A sistemática recusa em comprar vacinas, exposta na CPI da Covid, não apenas contribuiu para o elevado número de óbitos, como também levou inúmeros estabelecimentos à falência. A fome voltou a assombrar o país, enquanto o mandatário se esbalda em um churrasco com amigos e familiares, exibindo uma picanha vendida a R$ 1.700 o quilo. E não foram só os alimentos que subiram de preço. A mensalidade dos planos de saúde aumentou, a conta de luz e gás também. Ser brasileiro se tornou caro. Em contraponto, integrantes do governo nadam em um mar de benesses. No final de abril, uma medida provisória autorizou reservistas e servidores públicos aposentados que ainda ocupam determinados cargos públicos a receberem acima do teto constitucional de R$ 39 mil. A medida permite aumentar os salários de Bolsonaro e seu vice, Hamilton Mourão, bem como de generais que atuam no governo. Um verdadeiro deboche com aqueles que espremem seus rendimentos para conseguir pagar um compra mínima no supermercado.

Já sobre a segunda questão, a resposta é simples: não, não é seguro ir às ruas com a pandemia ainda não controlada. Isso porque a máscara reduz a possibilidade de contágio, mas não anula. Por isso, sempre haverá o risco, mesmo que baixo. É importante que as pessoas que vão aos atos tenham plena consciência disso. Mas isso não desqualifica os protestos, e nem de longe é um argumento válido para rechaçar a revolta com o governo.

O que o Brasil vive hoje é um ponto de inflexão que determinará o rumo das próximas eleições. Por isso, se você for aos protestos, use máscara, mantenha a distância e, se possível, fique em quarentena nos dias posteriores. Se decidir não ir, e preferir se manifestar de outra forma, como em panelaços, tudo bem. Afinal, manter o isolamento social diante de um governo que nega a pandemia, e quer a todo custo nos impor a imunidade de rebanho, também é um ato de resistência. A única coisa errada neste momento é não se revoltar.

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