Por Regina Fiore, Jornalista
Diretora de jornalismo: Letícia Fagundes, Jornalista
Chefe de reportagem: Juliana Monaco, Jornalista

A fofoca é a espinha dorsal da manutenção da sociedade moderna: foi capitalizada pelos programas vespertinos e desvenda até crimes, quando levada a sério

Comecei (e terminei) a assistir a minissérie documental sobre o assassinato da atriz Daniella Perez, em 1992. “Pacto Brutal”, lançada este ano, está disponível em um dos serviços de streaming que andamos assinando nos últimos tempos. Com produção e direção de Tatiana Issa e Guto Barra, a história de true crime é contada em cinco capítulos, com depoimentos emocionantes de Glória Perez, mãe da vítima, Raul Gazolla, viúvo de Daniella, entre outros personagens, muitos deles conhecidos pelo grande público, por serem celebridades globais.

A série é realmente excelente, fica a recomendação para quem busca algo para fazer no final de semana. A produção traz todas as visões sobre o caso, com a análise de psicólogos, depoimentos de testemunhas, advogados e promotores, policiais e pessoas envolvidas com os protagonistas do crime. Os únicos que ficaram de fora da produção foram os assassinos de Daniella, Guilherme de Pádua e Paula Thomaz, que não foram procurados ou ouvidos. Uma decisão sábia, na minha opinião, não ampliar ainda mais a voz de duas pessoas que cometeram tal crime. 

Além de trazer detalhes do assassinato, mostrar fotos chocantes de como o corpo de Daniella foi encontrado e abrir toda a dor que a mãe da atriz sofreu ao longo dos anos, mesmo depois da condenação de Pádua e Paula por homicídio, a minissérie é uma tentativa bem-sucedida de não deixar a mídia revitimizar Daniella por meio de suspeitas sobre seu caráter ou sua responsabilidade pelo crime do qual foi vítima. 

É também uma comprovação da força de Glória Perez enquanto mãe, da comoção que o caso gerou na época, e das falhas com as quais a justiça se depara durante um processo criminal. Hoje, o assassinato de Daniella se enquadraria na lei do feminicídio, que é considerado crime hediondo desde que foi estabelecido, em 2015.

Mas um aspecto da história me chamou atenção por ser muito curioso (curioso é realmente a palavra): o que levou os investigadores até os assassinos de Daniella Perez foi a dedicação que um verdadeiro fofoqueiro coloca sobre a fofoca. No dia 28 de dezembro de 1992, um senhor estava passando em uma estrada do Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, à noite. 

Fofoca exige dedicação

Um lugar deserto, afastado, com cara de abandonado, daqueles que ninguém escolhe para dar um passeio. O senhor em questão estava passando de carro, com seu caseiro, e notou que haviam dois outros carros parados na beira da estrada. Ficou curioso e aí é que vem a diferença do verdadeiro fofoqueiro para o poser (ainda usamos essa expressão?): ele anotou a placa do primeiro carro, pediu para o caseiro manobrar, voltou pelo mesmo caminho e anotou a placa do segundo carro, mesmo achando que se tratava apenas de um casal namorando sem constrangimentos. 

Ele anotou as placas dos carros sem ter a mínima suspeita de que se tratava de um crime. E ainda deu uma boa olhada na mulher que estava dentro de um dos veículos, memorizando sua fisionomia, mesmo sofrendo de vista cansada. Hugo da Silveira, guardemos o nome do homem que realmente faz jus à ocupação de fofoqueiro. A fofoca bem feita, com placa de carro anotada e fisionomia memorizada, fez dois assassinos descuidados não saírem impunes do crime que cometeram. 

A fofoca bem feita tem um espaço gigantesco na vida das pessoas, eu inclusa (mas precisa ser bem feita, se for pela metade pode causar um colapso social). Afinal, o que é um jornalista se não um grande fofoqueiro, que vai atrás de coisas que provavelmente não têm nada a ver com sua vida para escrever sobre elas em detalhes, espremer e entregar o puro suco da fofoca? 

O que é um lead (jornalistas entenderão) se não um resumão, um teaser da fofoca? Quem, onde, quando, porque e, principalmente, de onde vem o dinheiro são as perguntas que geralmente já respondemos logo no primeiro parágrafo da matéria. A fofoca como método de trabalho, a fofoca instrumentalizada e ensinada nas faculdades de Comunicação Social como boa prática da profissão. E não basta ouvir de alguém, o bom fofoqueiro (ou jornalista) suja os sapatos, vai lá ver com os próprios olhos para contar a fofoca com mais detalhes – que é o que gostamos de ouvir. 

Profissão Fofoqueiro

Muitos jornalistas podem dizer: não é só fofoca, é interesse público. Verdade, a imprensa é fundamental para manutenção da democracia porque apura pautas de interesse público e expõe o que as pessoas, principalmente as poderosas, gostariam que ficasse por baixo dos tapetes. Por exemplo, as semanas a fio que o “Surubão de Noronha” foi assunto em quase todos os sites de notícias do país – atenção, contém ironia. 

Quando estamos passando por uma fase difícil, que flerta com a tragédia, a primeira coisa que as pessoas nos perguntam é: “mas o que aconteceu?”. Interesse altruísta? Não. Preocupação? Talvez. Mas a espinha dorsal da curiosidade, à primeira vista, ingênua, é a fofoca. Nosso interesse pela vida alheia provavelmente começou logo quando aprendemos a nos comunicar, ou seja, há milhares de anos. 

Apresentadores de programas vespertinos podem ser lidos como fofoqueiros que monetizam seu talento para, mais do que fofocar, capitalizar os resultados das fofocas ao vivo, em rede nacional. Sonia Abrão é uma delas; não por acaso é também uma das depoentes da minissérie “Pacto Brutal”. Creditada na minissérie como apresentadora e jornalista: indiscutivelmente fofoqueira. 

A célebre frase, muitas vezes atribuída à Freud, “quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo” deveria ser reescrita para: “quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo, mas quero todos os detalhes para saber tanto de Paulo quanto de Pedro, para eu contar para o João o que eu sei de Paulo e de Pedro e, assim, João saberá mais de mim”.

Na psicanálise, independente da linha de estudo ou pesquisa, é ponto pacífico que, quando falamos de algo que nos incomoda sobre outra pessoa, geralmente estamos falando de algo que nos causa identificação e, por isso, ressoa tanto aos nossos ouvidos. “Quer dizer que, se me incomoda que uma pessoa seja, por exemplo, independente demais é porque também sou muito independente?” 

Não necessariamente. Pode ser que você tenha um desejo muito grande de ser dessa forma, mas não consegue por questões mais íntimas, ainda não elaboradas. O mecanismo de projeção é complexo, mas faz parte das explicações do porquê a fofoca sobrevive há tantos anos e continua tendo público cativo. A fofoca também faz parte da manutenção social, da perpetuação da moral e dos valores que moldam nossa sociedade. 

Se pensarmos bem, o próprio analista ou psicanalista é um fofoqueiro passivo – classificação que acabei de criar. Ele ou ela está ali, ouvindo os problemas e questões alheias, trazendo sua visão e opinião, mas não repassa a fofoca porque existe o mandamento sagrado do fofoqueiro passivo, também conhecido como ética profissional, que diz: “não repassarás a fofoca dos pagantes”.

Claro, quando a fofoca vem acompanhada de difamações, mentiras ou intenções de prejudicar outras pessoas, pode ser considerada um sintoma de uma patologia grave ou até uma perversão social. Mas é fato que, desde que a imprensa existe, revistas, programas, sites, blogs, perfis nas redes sociais e podcasts que falam sobre a vida dos outros são os que têm mais audiência e conquistam mais público e repercussão. 

Créditos finais e agradecimentos

Os fofoqueiros dedicados são a verdadeira engrenagem que movimenta este país. Ou, pelo menos, são o lubrificante da engrenagem que faz o motor do país funcionar, mesmo nos dias mais difíceis. Um salve para:

Hugo da Silveira, verdadeiro responsável por desvendar o assassinato de Daniella Perez.

Leão Lobo, que entreteu durante muitos anos os telespectadores fofoqueiros e segurou, sozinho, a audiência da TV Gazeta (onde eu estudei jornalismo).

Chris Flores, a fofoqueira que desmascarou a Grávida de Taubaté e cunhou uma das expressões mais autoexplicativas e brasileiras dos últimos tempos.

Cátia Fonseca, a fofoqueira que aproveita para comer enquanto fofoca, afinal nada combina mais com uma fofoca do que um cafézinho passado na hora com um bolinho de hoje ou uma fornada de pão de queijo.

Cristina Rocha, que assumiu seu lado fofoqueira que gosta de ver o circo pegar fogo, deixou os telejornais e foi apresentar o “Casos de Família”.

Anahy D’Amico, a fofoqueira palpiteira, que há 15 anos ouve a fofoca toda calada e, no final, diz para cada um o que deveria ou não fazer, do alto de sua sabedoria. 

E, claro, o extingo Ego, que nos contava que “Adriana Bombom compra sutiã salmão” ou que “Carol Nakamura afirma estar contente: estou contente”, além de “Chico Buarque compra baguetes para o lanche da tarde” ou ainda que “De óculos, irmã de Neymar sorri”. #ObrigadaPorTudoEgo, seu lugar no pódio dos fofoqueiros foi mais que merecido: alcançar os TTs do Twitter, mesmo em seu fim.

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