Por Aline Almeida, jornalista
E-mail: line.jrn@gmail.com
Chefe de reportagem: Juliana Monaco
Diretora de jornalismo: Letícia Fagundes

Cresce o número de mulheres na área de tecnologia, mas o caminho ainda é longo para conquistar a igualdade de gênero no mercado de trabalho

Há muito tempo, as mulheres vêm lutando por equidade de gênero. E o que mais vemos são pesquisas e estudos sobre o tema, e no meio profissional não é diferente. Mulheres lutam diariamente para terem mais espaços em áreas que, até então, são consideradas majoritariamente masculinas. Um exemplo é a área de tecnologia, na qual cada vez mais mulheres vem buscando espaço e migrando para o ramo de TI. Segundo o estudo realizado pelo Cadastro Geral de empregados e desempregados (Caged) mostra que, nos últimos cinco anos, a interação feminina na área de tecnologia cresceu 60%, de 27,9 mil mulheres para 44,5 mil em 2020, provando que o setor pode, cada vez mais, gerar oportunidades e incentivar mulheres a desenvolverem uma carreira na tecnologia.

No entanto, para que mulheres continuem a se interessar a ocuparem cargos dentro do ramo, é necessário quebrar o padrão de que certas profissões são masculinas e outras femininas, afinal, o mercado de trabalho foi construído em cima do ponto de vista que funções ligada à racionalidade e objetividade é para homens e funções que aderem à subjetividade e emoção para mulheres,  fazendo com que as meninas dificilmente escolham uma carreira em tecnologia ou ciências exatas. Já para os meninos, essas áreas se apresentam naturalmente, afinal, os estereótipos definem que homens já se interessam  instintivamente por games, máquinas e tecnologia. Ou seja, precisamos incentivar e mostrar desde a infância todas as possibilidades de profissões que toda e qualquer menina pode escolher se ela desejar, para assim poder quebrar o paradigma existente dentro das profissões.

Uma pesquisa realizada pela Unesco em São Paulo, cidade do México e Buenos Aires, em 2018, aponta que a maioria das meninas entre 6 e 10 anos acredita que profissões em exatas não sejam para elas. Além das crianças, os pais e professores também corroboraram para a pesquisa e 50% deles acham que a falta de interesse das filhas nessas profissões é algo exclusivamente natural. Unicamente 33% dos pais consideram que a falta de interesse se deve à falta de incentivo e que isso pode ser mudado.

“Sempre me senti deslocada em ser a única da família a se interessar por computadores, a minha vida inteira ouço as pessoas me dizendo que minhas escolhas são de meninos e para meninos, isso é muito desanimador,” conta Juliane Sousa, formada em análise e desenvolvimento de sistemas. 

Imagem: Shutterstock

Iniciativas que podem ser adotadas para mudar o cenário da desigualdade de gênero em TI

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apenas 20% dos profissionais da área de tecnologia são mulheres. Outros dados, dessa vez divulgados pelo Instituto Allen, mostram que as mulheres levarão mais de um século para alcançar os homens na área de ciência da computação.  

Mas podemos diminuir esses anos e chegar ao mesmo patamar que os homens, conquistando de uma vez por todas equidade de gênero, e construir  uma cultura igualitária, quebrar estereótipos impostos pela sociedade patriarcal que acham que podem determinar o que as mulheres podem ou não escolher como profissão. 

Uma das iniciativas que podem contribuir para que esse cenário mude são instituições de ensino e empresas adotarem medidas que incentivem meninas a seguirem a carreira tecnológica. Um exemplo é o programa criado por jornalistas e designers que tinham o interesse de aprender a programar e sentiam falta de apoio e incentivo, pois para elas não faz sentido apenas consumirmos tecnologia e não estarmos participando da criação e desenvolvimento dela. Foi assim que nasceu o Programaria, uma iniciativa que ensina de forma gratuita mulheres a programarem. 

Outro exemplo é a empresa Microsoft, que vem, gradativamente, oferecendo programas de capacitação profissional com o objetivo de expandir a participação de mulheres no campo da tecnologia. Em abril, foi oferecido duas mentorias pelos programas: #ElasnaIA e #SegurityGirls com princípios em nuvem e inteligência artificial para 80 mulheres. 

O blog ‘mulheres na computação’ é uma grande referência para mulheres e tem como pauta o empoderamento feminino, focando nas tendências, atualizações e informações que favoreçam as mulheres de modo a incentivar estudantes a não desistirem do curso. Atualmente, o blog conta com mais de 150 mil membros. 

Para Juliana Oliveira, Software Engineering, é bem difícil ter que estar em uma posição de validação o tempo todo. “Entendo por que muitas mulheres desistem da profissão. No dia a dia, vejo que as mulheres que trabalham diretamente com tecnologia parecem ter que se afirmar muito mais, provar sua capacidade de maneira muito mais incisiva para conseguir crescer no mercado,  enquanto para os homens não há essa pressão.”

O levantamento divulgado pela Accenture juntamente com a organização Girls Who Code afirma que cerca da metade das mulheres deve deixar a profissão antes dos 35 anos. Afinal, é muito difícil continuar motivada com tanta pressão e barreiras dentro do mercado de trabalho da tecnologia.

Não podemos deixar de lado um dos principais fatores que também contribuem na hora em que mulheres vão escolher que profissão seguir, pois, de acordo com um levantamento do IBGE, além de sermos maioria na população brasileira e, consequentemente, estudarmos e termos vida mais longa comparado aos homens, também enfrentamos desigualdades salariais. Afinal, qual mulher que, além de estudar e trabalhar a vida toda tanto quanto ou ainda mais que os homens, vai optar por uma profissão que seja menos remunerada? Bem desanimador, não? Isso é o que mostra uma pesquisa de remuneração total feita pela consultoria Mercer e divulgada pela Forbes em janeiro deste ano. Segundo o estudo, a área de tecnologia é o setor com maior disparidade salarial. A Mercer levantou dados de 30 mil empresas em todo o mundo, sendo 797 brasileiras, e constatou que no cargo de executivos a diferença salarial chega a 36%, no setor de gerência 7% e 9% em funções operacionais. 

O Brasil tem mais da metade da população negra, mas isso não significa que os negros estão inclusos em áreas de destaque. Se as mulheres sofrem desigualdade de gênero dentro da TI, imagine mulheres negras. Uma pesquisa realizada pela Preta Lab constatou que 15% das alunas ingressantes dos cursos da área de computação são mulheres negras. Assim, empresas têm tomado iniciativas de diversidade e inclusão, com o intuito de aderir funcionárias negras dentro do mercado. Um exemplo disso é o projeto da Microsoft Black Womem in Tech, cujo propósito é capacitar mulheres negras para a tecnologia. 

Mulheres que contribuíram para o avanço da tecnologia 

Você sabia que várias mulheres fizeram história dentro da tecnologia? Veja abaixo algumas mulheres que deixaram seu marco:

Ada Lovelace

Augusta Bryon Ada Lovelace, além de ter sido condessa, foi escritora e  matemática. Nascida no século  XVIII, Ada foi a responsável por criar o primeiro algoritmo capaz de ser processado por uma máquina, no entanto, à época, não existia maquinário que pudesse comprovar seu feito. Após 100 anos, conseguiram provar que o algoritmo criado pela Condessa estava correto. Hoje, Ada é considerada a primeira programadora da história. 

 As garotas ENIAC

Betty Snyder, Marlyn Wescoff, Fran Bilas, KAy McNulty, Ruth Lichterman e Adele Goldstine foram as mulheres responsáveis por manipular o primeiro computador digital e totalmente eletrônico. Elas eram chamadas de “As garotas ENIAC”, devido ao nome do computador: Electrical NUmerical Integrator and Computer.

Grace Hopper 

Grace foi a primeira mulher a se formar na universidade de Yale, conquistando seu PHD em matemática e também professora na universidade de Vassar. Foi uma das primeiras programadoras do Harvard Mark e criou linguagens de programação para um dos primeiros computadores comerciais dos Estados Unidos, o UNIVAC. Hopper é conhecida como a Incrível Grace. 

Estrelas além do tempo

Estrelas além do tempo é um filme que conta a história de três cientistas negras: Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson. Elas trabalharam na agência espacial NASA fazendo história durante a corrida espacial, fazendo com que o astronauta John Glenn fosse o primeiro norte americano a orbitar ao redor da terra durante a Guerra Fria em 1962.

Muitas mulheres contribuíram para o desenvolvimento e inovações durante a evolução do mundo, contudo sempre são deixadas de lado. Mas, apesar de tentarem apagar da história, continuam a resistir. Não há nada que mulheres não sejam capazes de fazer. 

“Eu estava em busca de algo que me despertasse curiosidade e fosse uma profissão em que a cada dia houvesse desafios e coisas novas para aprender”, conclui Juliana Oliveira. Certamente Juliana escolheu uma profissão que oferecerá muitos desafios de coisas novas, afinal a tecnologia não para de se desenvolver a cada dia. 

Imagem: Shutterstock

Mulheres que inspiram na área de tecnologia

Além das mulheres que fizeram história no passado e deixaram seu legado, nos dias atuais não é diferente. 

Gwynne Shotwell, presidente e COO da SpaceX

Sabemos que a SpaceX é uma das empresas mais conhecidas do mundo e tem como objetivo habitar outros planetas. Mas uma das principais da equipe de Elon Musk é Gwynne Shotwell. Com bacharelado em ciências e mestrado em engenharia mecânica, ela é responsável pelas operações e também coordena as relações estratégicas da empresa. Shotwell recebeu um Prêmio Mundial em Tecnologia na categoria “Individual Achievement in Space”, além de ter seu nome gravado no hall internacional da fama das mulheres da tecnologia. 

Raj Seshadri, presidente de Dados da Mastechef

Raj é uma das responsáveis pela entrega absoluta de capacitações da empresa, entre eles analytics, inovação e engajamento. Antes de ser presidente de dados da empresa Masterchef, Raj ocupou cargos de liderança na BlackRock, Citi, U.S. Trust e McKinsey e Company. Atualmente, é membro do conselho administrativo de pós graduação em Negócios em Stanford. 

Sara Wahedi, CEO e fundadora da startup Ehtesab

Sara Wahedi é fundadora da startup afegã de tecnologia Ehtrsabe, tendo como primeiro produto um aplicativo que envia em tempo real alerta de segurança, energia e trânsito para os moradores de Cabul, capital do Afeganistão. O sistema informa a situação, se há perigo ao redor, podendo ser linchamento público e invasão domiciliar, ou seja, atua efetivamente para a segurança de todos no país. 

Sara não vai parar por aí. Ainda esse ano, ela pretende criar a opção de enviar SMS, podendo assim alcançar moradores de áreas rurais, para que eles  também possam estar informados sobre os perigos iminentes. Sara faz parte das listas de mulheres mais influentes do ano de 2021, da BBC 100 Woman. 

Sabemos que a área de tecnologia é uma profissão que sempre terá coisas para aprender, por isso empresas precisam sempre estar oferecendo incentivo como oficinas, palestras, cursos para as profissionais se sentirem acolhidas e incluídas. Com a qualificação adequada, será possível preencher a quantidade de vagas existentes e que virão. Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), a procura por profissionais chegará em 420 mil pessoas até 2024. 

“Espero, cada vez mais, ver mulheres na minha equipe, e que elas olhem para as mulheres que estão no mercado e que têm se destacado e usem como exemplo de inspiração para construir uma carreira sólida dentro da TI.” Conclui Juliana Oliveira. 

Site Protection is enabled by using WP Site Protector from Exattosoft.com