Por Mariana Mendes, Jornalista –SP
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A atleta paralímpica superou o câncer e voltou a competir

            O mês de outubro é conhecido pela campanha mundial na luta contra o câncer de mama. Este tipo de tumor, excluindo aqueles de pele não melanoma, é o que mais atinge mulheres em todo o Brasil, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA). Para o ano de 2021, foram estimados 66.280 casos novos, a maior parte deles atingindo mulheres a partir dos 50 anos. Porém, em alguns casos, atinge mulheres mais novas e essa foi a situação de Raquel Viel, atleta da natação paralímpica brasileira.

“Eu tinha uns nove anos quando minha mãe colocou na escolinha de natação, mais para aprender mesmo. Eu gostava muito de ir na piscina, então para ter mais segurança e ajudar no desenvolvimento – também nasci com uma deficiência visual congênita – ela colocou para aprender”, conta Raquel, que possui apenas 10% da visão. Em 2008, Raquel entrou oficialmente para o esporte paralímpico de elite. Desde então, conquistou o ouro nos 100m costas, prata nos 100m peito e nos 400m livre, e bronze nos 50m livre e nos 100m livre nos Jogos Parapan-Americano de Toronto 2015, sendo um dos principais nomes da natação na classe S12.

Com muito treinamento e dedicação, Raquel estava presente nos Jogos Paralímpicos do Rio 2016. Logo após ficar muito perto do pódio e conquistar o quarto lugar nos 100m costas, classe S12, ela recebeu a confirmação de que tinha um tumor maligno no seio esquerdo. A atleta conta sobre essa jornada. “Eu descobri um nódulo na mama esquerda. Ele era bem pequeno, mas eu conseguia senti-lo. Eu fui várias vezes ao médico e não tinha o diagnóstico de câncer, apenas que era um nódulo benigno. Porém, ele foi crescendo e quando eu comecei a sentir dor, voltei ao médico e mesmo assim foi falado que não era câncer”. Tudo isso ocorreu no ano da competição.

“Chegou uma hora que eu fui no médico e falei ‘eu quero tirar porque está me incomodando, está doendo”. A médica de Raquel confirmou que ela estava liberada para participar das Paralimpíadas e, após o período, pediu para que voltasse e realizasse novos exames para a retirada do nódulo. “Quando eu voltei, fiz a biópsia e deu que era um tumor maligno. Ele cresceu muito rápido, em menos de um ano que eu percebi um nódulo de 1 cm e depois ele já tinha 5,6 cm”, explica.

A notícia abalou a nadadora. Além de ser uma notícia difícil de ser digerida, Raquel conta que sua mãe faleceu por conta de um câncer quando tinha apenas 13 anos. Ainda criança e com um irmão de 10 meses, ela viu sua mãe passar por tratamentos e sessões devastadoras de quimioterapia e, ainda assim, falecer. “Eu fiquei bem triste, não sabia nem o que fazer”, relembra de quando recebeu seu diagnóstico.

Entretanto, Raquel decidiu lutar contra essa enorme batalha de sua vida. Foram 16 sessões de quimioterapia, radioterapia e uma cirurgia. Mas quando questionada sobre a vontade de desistir da vida de atleta, Raquel responde: “Desistir de ser atleta eu acho que não, mas a primeira coisa que veio na minha cabeça é que não seria possível ser atleta com câncer”.

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Foto: Reprodução/Instagram/@raquelviel

Com a ajuda do médico e apoio do treinador, Raquel provou o contrário. Claro, seus treinos diminuíram, mas o câncer não afastou a nadadora da piscina por muito tempo. “Foi conversado com a médica oncologista e ela falou que o tratamento seria muito difícil devido ao tipo de câncer de mama que eu tive. Ele é bem agressivo e há muito risco de ter metástase, por isso o tratamento foi bem difícil, com as medicações mais fortes. Mas ela me disse que a atividade física seria muito importante. Ao contrário do que todo mundo acha, que quando está fazendo quimioterapia, a pessoa não consegue fazer atividade física, não é bem assim. O exercício ajuda a diminuir os efeitos da quimioterapia”, afirma Raquel.

A medalhista da natação continuou sua rotina profissional na medida do possível. Ela afirma que parar com tudo seria muito difícil. “Eu ia ficar muito ruim em casa, já tinha ficado muito abalada com o diagnóstico. Então, se eu ficasse em casa só pensando no câncer e no tratamento, seria muito mais difícil”. O seu técnico, sempre ao lado durante o processo, a incentivou a realizar treinos leves, respeitando os seus limites, com um treino adaptado ao tratamento. “Eu fui treinando durante a quimioterapia e, em seis meses, acho que não faltei um treino. Eu treinava todos os dias, inclusive aos sábados.” A carga da sua preparação diminuiu e, ao final do tratamento, Raquel afirmou estar muito cansada.

Contudo, faltando uma quimio para finalizar, os atletas paralímpicos iriam participar de uma seletiva nacional para o Mundial de natação. Raquel afirma que estava quase nem parando em pé, mas com a liberação da médica para competir, ele fez o impensável. Já na seletiva, em abril, a esportista bateu o índice, o sexto melhor tempo do mundo,  para participar da próxima competição. “Ninguém esperava, nem eu, nem a médica e nem o técnico que eu iria conseguir”. E no Mundial do México de 2017, pouco mais de um ano após o diagnóstico, ela conquistou a medalha de bronze na prova dos 100m costas da categoria S12. Durante todo o seu tratamento, Raquel permaneceu dentro das piscinas. O único momento em que ficou afastada foi durante os 20 dias após a sua cirurgia.

A conquista foi muito celebrada, porém Viel conta que sentiu bastante os efeitos do forte tratamento de câncer. “Fiquei com a mobilidade do braço esquerdo um pouco reduzida. Eu consigo treinar bastante, mas meu rendimento não voltou a ser igual ao que eu tinha nos Jogos Olímpicos do Rio.” Mesmo ainda competindo em alto nível e com o objetivo de ficar entre as 10 melhores do mundo ainda esse ano, Raquel não conseguiu fazer outro ciclo olímpico e ficou fora dos Jogos de Tóquio em 2020. Tendo ficado perto do pódio em 2016, ela queria buscar medalha na competição, mas toda sua jornada foi prejudicada pelo câncer, além de precisar mudar seu estilo devido aos efeitos colaterais.

“O esporte foi tudo para mim”, conta a nadadora sobre a importância da continuidade das atividades. “Me ajudou no tratamento, nos efeitos da quimioterapia e como a parte psicológica foi fundamental. Aquela hora que eu ia nadar era melhor hora para mim, eu esqueci um pouco do câncer. E, também, todo o apoio que eu tive da minha família, dos meus amigos e do meu técnico, que fez de tudo para eu conseguir nadar e ajudar a enfrentar todos os tratamentos.”

“Eu acho que o esporte tem isso, de te dar mais força, ajudar a superar. Era pensar um dia de cada vez, aquele dia acordar e enfrentar por partes, O esporte é importante, durante o tratamento, após ele e na prevenção. Todo mundo tinha que ter essa parte da atividade física como uma rotina porque ajuda bastante”, conclui Raquel.

O esporte auxilia na prevenção

             A última declaração de Raquel Viel está completamente correta. Segundo o INCA, os hábitos saudáveis e a inclusão de atividade física regular podem evitar cerca de 13% (aproximadamente 8 mil) dos casos de câncer de mama. Além da prevenção, a pesquisa  Número de casos e gastos com câncer de mama no Brasil atribuíveis à alimentação inadequada, excesso de peso e inatividade física, elaborada pela Coordenação de Prevenção e Vigilância (Conprev) do INCA, mostra que quase 13% dos gastos federais do SUS no ano de 2018 com tratamentos da doença poderiam ser poupados com a redução dos fatores de risco, como inatividade física. Isso soma aproximadamente 102 milhões de reais.

A doutora Bruna Zucchetti, oncologista especialista em câncer de mama e coordenadora da área da doença do Hospital 9 de Julho, comenta sobre o assunto: “A atividade física é recomendada pela Sociedade Americana de Oncologia (ASCO) tanto para reduzir a incidência do câncer de mama quanto para as pacientes que já tiveram o diagnóstico da doença. Sabe-se já que as mulheres com câncer de mama que fizeram, pelo menos, 150 minutos por semana de atividade física moderada tiveram menos retorno do câncer que as pacientes sedentárias. Por atividade física moderada entende-se caminhadas mesmo”, explica.

Este fato é necessário ser reforçado, já que 28% das mulheres de 20 países não sabem que a ausência de atividade física é um grande fator de risco para câncer, como explica a pesquisa de 2020 da União Internacional para o Controle do Câncer.

“É importante refletir que, à medida que a gente investe em ações de promoção de modos de vida mais saudáveis, o recurso que é gasto [no tratamento] poderia ser investido em ações de prevenção primária, ou até mesmo reinvestido em ações de diagnóstico e tratamento do câncer”, defendeu uma das autoras da pesquisa, a nutricionista Maria Eduarda Melo, da Conprev.

A médica ainda explica sobre os benefícios da prática esportiva na reincidência do câncer. “O exercício físico é um aliado para diminuir a chance do tumor voltar. Com ele, conseguimos também que a paciente mantenha o peso (sabe-se que a obesidade é um grande fator de risco para o câncer). Além disso, o exercício é um dos tratamentos mais eficazes que dispomos para combater a fadiga relacionada à quimioterapia, então, sempre que a paciente puder, é recomendado realizar alguma atividade física durante o período da quimioterapia.”

Ainda assim, Zucchetti esclarece o auxílio da atividade física na autoestima das pacientes em tratamento. Em um caso específico, a oncologista relembra que sua paciente ficou mais vaidosa após o diagnóstico e procurou uma nutricionista tanto para melhorar sua saúde quanto por um aspecto estético.

Em relação à intensidade da atividade física para aqueles que possuem a doença e estão passando por quimioterapia e outros tratamentos, ela simplifica que as pacientes devem se sentir confortáveis com o tempo e força realizada. “Tenho pacientes que fazem caminhadas leves por 10 minutos, tenho outras que mantém rotina de academia com personal trainer, isso depende muito da disposição de cada paciente. Para pacientes que estão em acompanhamento, como em uso de hormonioterapia, por exemplo, a recomendação é, pelo menos, 150 min/semana de atividade aeróbica moderada. Obviamente que isso é o mínimo, sempre encorajo minhas pacientes a realizarem mais que isso”, finaliza.

Outras atletas que superaram o câncer

             Um dos maiores nomes do tênis feminino, Martina Navratilova teve seu câncer detectado em 2010, aos 53 anos. Dona de 18 prêmios Grand Slam de simples, 59 no total e 167 títulos jogando sozinha, um recorde absoluto entre homens e mulheres, já estava aposentada quando a doença a atingiu. “Eu me senti destruída. Sempre tive boa saúde e, de repente, anunciam que eu tenho um câncer. É brincadeira?”, declarou à ABC News. “Eu havia enfrentado Chris Evert, Steffi Graf e as irmãs Williams. Nunca imaginei que meu adversário estivesse fora da quadra”, disse a tenista na época.

Já a história da jamaicana Novlene Williams-Mills foi um pouco diferente. A velocista soube um mês antes dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 que tinha câncer de mama. Em seu terceiro ciclo olímpico, Mills não permitiu que a doença a impedisse do maior feito de um atleta profissional, competir em uma Olimpíada. E não apenas ela correu a prova do revezamento 4x400m, como também conseguiu uma medalha de prata.

“Quando fui diagnosticada, foi chocante sendo jovem – 30 anos. Eu era a pessoa que nunca sonhou em ser uma paciente com câncer, uma sobrevivente do câncer. Isso realmente me deixou confusa. Eu estava devastada”, contou ao site Suvivornet.

Em mais um caso de superar o câncer e voltar a competir, Novlene precisou de quatro cirurgias, após as primeiras tentativas falhas de se livrar do tumor. Com uma dupla mastectomia, a velocista teve sua última cirurgia em janeiro de 2014 e voltou a competir em abril. Mais uma vez, nos Jogos Olímpicos do Rio 2016, dois anos após sua recuperação, Novlene ficou com a medalha de prata na mesma prova de 2012.

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Foto: Reprodução/Instagram/@williams_mills

No mundo do basquete feminino, Edna Campbell é extremamente conhecida pelo seu talento. Mas seu pioneirismo veio mesmo quando a atleta decidiu continuar jogando na Women ‘s National Basketball Association (WNBA) após seu diagnóstico de câncer. Enquanto estava no Sacramento Monarchs, ela recebeu o tratamento e voltou para participar do último jogo da temporada em 2002.

Um símbolo para sobreviventes da doença, Campbell tornou-se porta-voz nacional na WNBA pela luta contra o câncer de mama junto com a Susan G. Komen Breast Cancer Foundation. Em 2008, após se aposentar do esporte, formou-se em enfermagem e, desde então, continua lutando para dar atenção aos pacientes da doença.

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