Nosso desabafo através dos ídolos

 

Por Fernanda Dora, Jornalista – Rio Grande do Sul/ Porto Alegre

fernandadora@gmail.com

Editora Chefe: Letícia Fagundes, Jornalista

 

Nunca foi fácil perder alguém muito menos um ídolo. Ainda mais quando ele nos remete ao que mais importa: boas risadas e momentos de leveza. Arrisco-me a dizer que a perda do excepcional ator Paulo Gustavo nos lembra o acidente de Ayrton Senna e ainda a tragédia dos Mamonas Assassinas. Perder gente jovem, que nos representa de alguma forma nunca é tarefa fácil ou óbvia. Viver isso em tempos de pandemia é ainda um pouco demais para nossa saúde mental.

 

Paulo Gustavo só nos trouxe coisas boas, se engajou contra essa doença, apoiou quem pode, mas como salienta sua amiga e também atriz Mônica Martelli, foi um exemplo maior de amor: fez-nos rir de nossas mães, mas principalmente de nós mesmos. Teve filhos fora de série, com seu grande amor, o médico Thales Bretas. Ensinou-nos que o amor é o natural e não o contrário.

 

E estamos precisando de amor, de verdades, de simplicidade e de vida nesses tempos de tantas perdas pessoais e coletivas. Perdemos pessoas queridas, o convívio, empregos, a empatia, a compaixão, o diálogo e muitas vezes a noção neste mundo caótico que criamos para nós mesmos.

 

Quis entender mais sobre esta questão dos ídolos serem um espelho de nosso sofrimento nessa hora e a especialista Ana Joulie Moura, esclarece: “O luto nos leva a passar por cinco fases: negação, isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação – entender que de fato a morte aconteceu. Todo mundo se identifica com a dor, da pessoa mais próxima a mais distante. E nos tempos atuais estamos “no mesmo pacote”, estamos todos potencialmente sujeitos a viver isso a qualquer momento. No caso do ator Paulo Gustavo, mesmo não sendo alguém da família, a gente sente esse lamento profundo, porque além de ser um excelente humorista e uma pessoa original, ele passou por uma doença que muitos estão passando. Não perdemos só a pessoa, mas o que ela representa – o que poderíamos ter e não teremos mais. Essa identificação de estarmos vulneráveis e vivendo um processo natural de colapso. Qando a pessoa se vai, leva junto muito do que a gente também possui, almeja e sonha”.

 

O ser humano sempre sobreviveu em comunidade, estar isolado não é natural. Estamos todos estressados, deprimidos e cansados. Vivemos contraditórios tempos de faltar tempo para tudo, de nunca dar tempo, de estarmos sempre atrasados, mesmo sem sair do lugar.

 

Isso nos alerta para algo importante, é preciso falar nisso e temos que ter alguém que nos ouça. Quanto mais colocarmos nossas dores para fora, mais saudáveis seremos e, assim, poderemos ajudar ao outro, um a um, olhando ao nosso redor. Não temos que ter vergonha ou receio do que se passa dentro de nós. Temos que falar abertamente disso.

 

Pesquisas apontam o quanto isso afeta todas as classes e idades, temos que nos apoiar uns aos outros. Mas como se todos respondem que está tudo bem automaticamente? Não é feio não estar e não é culpa ou falha nossa, individual.

 

A gente pode começar aos poucos: responder ao chamado de um amigo (nossa que corajoso ele já está sendo!) com nosso melhor, com nosso tempo, com um conselho, com nosso coração e amor. E isso vale para quem sequer conhecemos, mas cruzamos na rua. Os olhos já pedem muitas vezes por muito mais que alimento, fundamental e básico, mas por atenção, um olhar olho no olho. E o lado bom é que tem muita gente que sempre foi atenta a isso e está ensinado aos outros. Não é porque sou jornalista, mas acho que isso que me levou o ser. Talvez a forma com que fui criada, exemplos que tive, mas também algo que se não era natural, criei. Ao interagir com alguém, sempre perguntei primeiro o nome e me apresentei, olhando nos olhos e querendo saber de verdade da pessoa, sua história, muitas vezes errante como a nossa. Procurei nunca julgar, detesto ser julgada. E isso faz toda a diferença.

 

Esta semana mesmo ia a pé, como sempre ando e só se preciso, ao supermercado. Levava exatos R$ 40,00 no bolso, em duas notas menores para compras básicas. Na sinaleira um pai com um casal de filhos, esforçadamente bem vestido, as crianças também. Erguia timidamente um cartaz pedindo ajuda na calçada, próximo à sinaleira. Quase se escondia e nenhum carro podia ajudar, observei por alguns minutos, olhando para trás. Foi quando decidi voltar, a pé e ir ao encontro deles. Estendi a mão com uma nota de R$ 20,00, ele a pegou com alegria, mas encabulado. O olhei nos olhos, perguntei seu nome e me apresentei. Ele abriu um sorriso castigado e surpreso e então me agachei para falar com as crianças na altura delas. Perguntei do que elas gostavam e dei parabéns a todos por estarem juntos, falei o quanto o pai, e a mãe, que me contaram estar em casa cuidando do avô, eram especiais e que desejava que todos fossem muito felizes, que se mantivessem unidos esse ajudassem, pois amor é o que agente tem para dar nessa vida.

 

Pesquisas mostram que na pandemia a gente vive isso: muitas vezes quem tem pouco, é que divide. Mas a gente tem um mundo dentro da gente, que vai muito além do dinheiro. Adoro biografias, casualmente estou lendo a do grande produtor Nelson Motta: De Cu pra Lua. Por sua simplicidade e generosidade, conhecido como Nelsinho. Pois ele fala logo no início que acha que teve sorte na vida porque aprendeu bem cedo a maior lição com seu pai, que lhe disse que na vida, quem tem mais, sempre tem que dar mais. E, como falamos aqui, isso não tem a nada a ver com dinheiro, mas com o que a gente carrega de carga emocional.

 

Neste momento estamos exatamente todos vulneráveis e frágeis. Se pedirmos e aceitarmos ajuda, poderemos ajudar mais gente. Não por acaso, a pandemia trouxe consigo uma epidemia em saúde mental. E nas mudanças de trabalho, tive a sorte de me encontrar com pessoas conectadas com o futuro comportamental que já acontece agora. Naturalmente foi alguém parecido que se deu conta que tínhamos muito em comum profissionalmente, mas antes disso, como seres humanos. Aliás, sempre tive essa sorte na minha jornada. A gente sempre pode ir além e fazer mais. Quero contar a vocês que em uma ação solidária e paralela ao trabalho, essa empresa oferece apoio psicológico a todas as pessoas que precisam neste momento, seja qual for o motivo, precisamos nos ajudar. Eles organizaram uma rede em todo o Brasil e aproveitaram sua estrutura e experiência clínica para dar esse suporte. Então se sinta à vontade para falar de suas dores, se cuidar e se tratar, é essa a essência deles. E a rede está crescendo e ganhando parceria de universidades, como a Ulbra de Manaus. A Rede Internacional de Acompanhamento Terapêutico (RIAT), start up experiente, com sede em Buenos Aires e Manaus, atua na Argentina, país berço mundial da psicanálise e no Brasil e está pronta para te ajudar de forma fácil e ágil. O atendimento é feito através do chat do site covid.riat.com.br

 

Neste dia simbólico e nostálgico para todos, tome essa atitude ou ajude alguém que precisa e nem sabe que este tipo de apoio profissional existe e cuide da saúde mental de todos.

 

E a gente aproveita para contar que a Ana Joulie Moura, psicóloga e sócia-fundadora da RIAT – cujo slogan é: mais que num trabalho, um gesto de humanidade – nos ajudará a fazer a travessia nesta pandemia, colaborando em uma coluna que vai tratar de assuntos contemporâneos e diversos de comportamento, quando falamos em mente humana. Fique ligado que nos próximos dias o Mulheres Jornalistas estreia esta coluna quinzenal para nos ajudar a cuidar uns dos outros nesses dias contundentes.

 

Que a gente sempre lembre que amor e humor são fundamentais!

 

Sobre a autora do texto: Formada em jornalismo e marketing, Dora tem experiência em equipes de imprensa e projetos culturais da Bienal do Mercosul, Feira do Livro de Porto Alegre e Casamundi. Residiu e esteve em países dos quatro cantos da América Latina, além de Estados Unidos e Europa. Com inglês e espanhol fluentes, é tradutora e intérprete. Como editora, ajudou a criar alguns livros, escreveu o primeiro guia de Montevidéu para brasileiros e foi responsável pelas revistas FlexNutrition e FreeSurf. Dora é colunista da Mundi- Cultura em revista e adora boas histórias. Entrevistar pessoas é sua paixão.

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