Nem “Todas as Mulheres do Mundo”

A série da Globoplay foi inspirada em um clássico brasileiro homônimo dos anos 60, do dramaturgo Domingos Oliveira, mas a releitura permanece desatualizada


A Globoplay, serviço de streaming da Globo, estreou mês passado a série “Todas as Mulheres do Mundo”, escrita por Jorge Furtado e Janaína Fischer, com direção artística de Patricia Pedrosa. Dividida em 12 capítulos, a série é baseada na vida e composição de Domingos Oliveira (1936 – 2019), dramaturgo, diretor, ator e poeta responsável pela obra de mesmo nome, de 1966. 
 
O filme original, assim como outras sete produções do autor, serviu de inspiração para a nova série, que também é uma homenagem à Domingos. Os personagens principais continuam: Paulo, hoje interpretado por Emílio Dantas, ganhava vida em Paulo José. Maria Alice, personagem de Sophie Charlotte, foi vivida por Leila Diniz, que foi casada com Domingos Oliveira. 
 
A série conta a trajetória de Paulo, um solteiro convicto em busca do amor e seu envolvimento com várias mulheres, inicialmente diferentes entre si, mas todas com sua beleza e particularidades que fazem o personagem se apaixonar perdidamente. No entanto, seu grande amor é Maria Alice, que deixa Paulo no Brasil para estudar ballet na Europa. 
 
Cada capítulo conta uma dessas histórias de apaixonamento, sendo que cada uma das mulheres é traduzida também pela trilha sonora do capítulo em questão: intérpretes femininas brasileiras consagradas como Marisa Monte, Cássia Eller, Rita Lee, Alcione, Elza Soares, Céu, Elis Regina e Maria Bethânia. 
 

Uma série tão 2010

 
Percebe-se ao longo do desenvolvimento da história que houve esforço por parte dos roteiristas em atualizar o contexto e a forma como homens e mulheres são apresentados. No entanto, a modernização dos personagens ainda ficou ultrapassada tendo em vista as diversas discussões atuais que se têm levantado sobre papéis de gênero e estereótipos. 
 
Paulo, por exemplo, é um homem que visivelmente não se enquadra em padrões de masculinidade típicos: é sensível, gosta de poesia, música, cultiva e demonstra o amor por outros homens de quem é amigo e não é um provedor bem sucedido do lar. No entanto, o personagem continua sendo complacente com as mulheres que o cercam, ciumento e possessivo não só em relação à Maria Alice, também com outras com quem se relaciona. 
 
Além disso, cumpre o estereótipo de colocar apenas uma mulher em um verdadeiro pedestal de santidade imaculada, enquanto as outras são as mulheres com quem ele pode se divertir, ter relações menos profundas e terminar relacionamentos, já que está esperando pela única mulher que de fato o merece: Maria Alice. 
 
Do ponto de vista do personagem, são as mulheres que terminam seus relacionamentos com Paulo, mas fica claro que ele não está realmente disponível para nenhuma delas, já que continua se relacionando com Maria Alice mesmo à distância. Seu comportamento com ela muitas vezes é abusivo: em determinado momento ele pede para ver a geladeira dela para ter certeza de que ela não se envolveu com nenhum outro homem. 
 
Enquanto isso, as personagens femininas que passam pela vida de Paulo, inclusive sua melhor amiga, são mostradas como várias facetas das mulheres sedutoras e envolventes que se aproximam de homens apaixonados e inocentes, que acreditam no amor, e depois os deixam. 
 
A figura da femme fatale é atualizada, mas continua presente, e os autores se apropriam de algumas discussões contemporâneas, como relacionamentos abertos ou definições de gênero, numa tentativa de acompanharem o debate estabelecido em muito setores sociais. O resultado, no entanto, fica caricato. 
 
Sobre a relação de Paulo com sua melhor amiga Laura, interpretada por Martha Nowill, fica a mostra a incapacidade masculina, mesmo na versão atualizada, de se envolver como uma mulher sem que haja no envolvimento alguma expectativa de romance ou sexo. Laura e Paulo tentam um relacionamento e acabam voltando a ser amigos depois que percebem que não são completos como casal. 
 
A presença forte do amor romântico, idealizado e endossado pela trama, deixa algumas personagens mais complexas, como Estela, interpretada por Fernanda Torres, sem o desenvolvimento merecido. Fica no ar a impressão de que todas as mulheres são armadilhas para o homem médio se apaixonar perdidamente e depois ser abandonado, quando na realidade a taxa de abandono de mulheres é muito mais elevada, em diversas situações. 
 
Além disso, a série deixa bastante a desejar em termos de diversidade. Apesar de as mulheres escolhidas fugirem em algum nível do padrão de beleza das atrizes globais, há pouca representatividade de classes mais pobres, já que a série é ambientada em bairros de classe média do Rio de Janeiro. A única mulher que aparentemente tem uma situação econômica mais humilde é sustentada pelo amante. 
 
A representatividade racial é praticamente inexistente, já que apenas duas das 10 mulheres com quem Paulo se relaciona são negras e, dos homens, há apenas um personagem negro com alguma relevância para a trama, sendo ele estereotipado como o novo malandro do século XIX.  
 
“Todas as Mulheres do Mundo” é o retrato de que, em termos de produção audiovisual, o Brasil tem grandes chances de concorrer tecnicamente com as produções internacionais, mas ainda precisa revisitar sua história e conhecer sua população para atualizar os padrões dos anos 60. 

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