A Penitenciária Estadual Feminina de Guaíba, dirigida por Fernanda Kersting, recebeu uma sessão especial do documentário “cELAS” em um cine-debate promovido pelo Instituto Mulheres Jornalistas (IMJ). A atividade ocorreu dentro da própria unidade prisional, onde equipe, direção e mulheres privadas de liberdade acompanharam a exibição e participaram de uma conversa aberta sobre o filme e sobre suas próprias experiências.

Exibição do cine debate com presas nas dependências de Guaíba

A iniciativa faz parte da proposta central do IMJ: não apenas produzir narrativas sobre mulheres encarceradas, mas construir espaços de escuta com elas, considerando que suas percepções, vivências e críticas são fundamentais para compreender as estruturas que moldam o sistema penal feminino no Rio Grande do Sul.

 

Letícia Fagundes, segura o cartaz do DOC “cELAS” na Penitenciária Feminina de Guaíba-RS FOTO: Vinícius Monteiro

A diretora do documentário e jornalista Letícia Fagundes, entrevistou as presas para o documentário, voltou para a exibição e falou da importância das vozes nos presídios. “Eticamente, sequestrar uma história e nunca mais voltar não faz parte do que acredito. As pessoas concederam suas vozes para que a sociedade pudesse compreender e participar de suas realidades. Por isso, é fundamental retornar, mostrar o resultado a elas e entender o que também nós, como imprensa, precisamos mudar”.

A jornalista ressaltou sobre obras que buscam polêmica, mais que debates para melhorias.

“A mídia precisa se atualizar com urgência na forma como trata presídios, justiça e o trabalho policial, indo além da busca por audiência e da reprodução da cultura do medo. É necessário construir narrativas pedagógicas, responsáveis e comprometidas com a realidade, não com a fantasia típica de ficções audiovisuais.Temos a obrigação de sermos honestos com o público e reduzir as distorções que alimentam imaginários equivocados sobre esses ambientes”, completou.

 

Durante o debate, o retorno das detentas foi considerado especialmente valioso. Muitas destacaram que o documentário trabalha a humanidade das mulheres presas de forma rara no audiovisual, rompendo com estigmas que as colocam ora como “perigosas”, ora como “santificadas”. As falas se concentraram também na crítica delas ao funcionamento do sistema judiciário, historicamente pensado, estruturado e julgado majoritariamente por homens. Para várias mulheres presentes, o filme evidencia essa disparidade e reforça a necessidade de que suas histórias sejam contadas a partir de perspectivas mais diversas e inclusivas.

 

Fernanda Kersting, a esquerda, promove interação das presas e acolhimento FOTO: Vinícius Monteiro

A diretora da unidade, Fernanda Kersting, ressaltou a importância de iniciativas culturais e educativas dentro do presídio, afirmando que debates como o proporcionado por cELAS ampliam repertórios, fortalecem vínculos e abrem caminhos de reflexão sobre direitos, trajetórias e possibilidades de futuro.

Desde seu lançamento, cELAS tem percorrido presídios, universidades, escolas, coletivos e instituições interessadas em discutir encarceramento feminino, políticas públicas, desigualdades estruturais e direitos humanos. A circulação tem mostrado que o diálogo provocado pelo documentário é necessário e urgente, tanto dentro quanto fora das prisões.

 

O filme ainda não está disponível em formato público online. Para organizar uma sessão ou solicitar a presença da equipe do IMJ em debates e atividades formativas, o contato deve ser feito pelo e-mail soumulheresjornalistas@gmail.com com o assunto: Documentário cELAS.