Por Letícia Fagundes, Jornalista investigativa 

 

Da seca do Nordeste às enchentes no Sul

Carla Patrícia Bezerra de Severo nasceu em Águas Belas (PE), no Agreste pernambucano, onde a seca moldou a infância. “A nossa vida era pegar água no caminhão-pipa”, lembra. A rotina era de filas e baldes, a água chegando como exceção, não como direito. Como milhões de nordestinos ao longo do século XX e início do XXI, o pai tomou a decisão clássica da migração: sair do semiárido e buscar no Sudeste uma chance de estabilidade em São Paulo, o que não deu muito certo.

Carla Patrícia Bezerra Severo, nordestina morando no Sul. Enfrentou seca e enchentes.

  “A nossa vida era pegar água no caminhão-pipa em Pernambuco. Eu me lembro até hoje que nós íamos com os baldes. Nós enxergávamos no caminhão pipa e era aquela fila pra pegar um balde de água para poder levar pra casa. Foi sempre assim toda a vida. Nunca foi diferente. Nós viemos para o Rio Grande do Sul por conta disso. Primeiro nós passamos em São Paulo. Vivemos em São Paulo dois anos. Porque em São Paulo não tinha condições, estávamos morando dentro de uma favela e  meu pai botou a consciência na cabeça, porque não era o lugar pra ele criar os filhos dele. Então viemos aqui pro Sul”, conta Carla Patrícia.

Onde falta água, falta trabalho

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta em estudos sobre infraestrutura que disponibilidade de água é variável estratégica para instalação industrial, especialmente para setores como alimentos, bebidas, têxtil, energia e mineração.

Empresas evitam áreas onde há risco de racionamento, custos de captação são elevados e quando a infraestrutura hídrica é insuficiente.

Segundo dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), durante a grande seca de 2012–2017, considerada uma das mais severas da história recente, mais de 1.000 municípios decretaram emergência. Estudos e relatórios federais indicaram que entre 10 e 20 milhões de pessoas foram afetadas direta ou indiretamente, especialmente agricultores familiares e populações dependentes exclusivamente de abastecimento por carro-pipa.

 

Entre 1960 e 1980, cerca de 8 a 10 milhões de nordestinos migraram para outras regiões, sobretudo para o Sudeste. São Paulo concentrou a maior parte desse fluxo. Até hoje, estima-se que mais de 9 milhões de pessoas nascidas no Nordeste vivam no Sudeste, sendo São Paulo o principal destino histórico.

Foi assim que a família de Carla migra de São Paulo e chega aoRio Grande do Sul. Já adulta e com filhos, a nordestina passou a enfrentar outra face da crise climática: as enchentes históricas no Rio Grande do Sul em 2024, que afetaram mais de 2 milhões de pessoas e devastaram centenas de municípios.

 

“Isso é tudo resultado do homem, porque se eles tivessem o cuidado com a natureza seria muito melhor. Eu culpo o mundo inteiro, as pessoas pela poluição e os desastres naturais. Os pobres nesse ambiente é um caso bem complicado e a tendência é piorar.  Se eles não tiverem consciência da poluição, da forma como está hoje, não vai ter melhoria no campo climático, infelizmente não vai ter. A camada de Ozônio está se acabando, eles não querem saber de reciclagem, cada vez mais é lixo que tu enxerga pela rua. E hoje quem sofre as consequências? Somos nós!”, falou Carla Patrícia.

 

Do calor intenso do Norte para o clima do Sudeste em MG

Por muito tempo, dizer que alguém “reclama demais do clima” foi tratado como traço de personalidade de gente que só sabe reclamar. Mas a ciência mostra que temperatura, umidade e pressão atmosférica não são apenas incômodos subjetivos, são fatores que impactam diretamente o funcionamento do corpo humano, informação esta falada inúmeras vezes pelos povos indígenas: somos parte da natureza e o corpo responde ao ambiente.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o calor extremo está associado ao aumento de desidratação, exaustão térmica, agravamento de doenças cardiovasculares e o risco está para todas idades. 

Estudos reunidos pela National Institutes of Health (NIH) indicam que o estresse térmico pode elevar níveis de cortisol,  hormônio ligado ao estresse  e interferir na qualidade do sono, ao afetar a produção de melatonina. Já o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) alerta que regiões tropicais devem enfrentar maior frequência de ondas de calor nas próximas décadas, com impactos diretos na saúde e na qualidade de vida.

Para Maria José da Silva Torres, o calor de Rondônia começou a ser um problema direto na saúde. Maria José que morava em Minas Gerais, região sudeste do Brasil, voltará as suas origens, uma vez que com o passar dos anos vivendo no norte a saúde não suportou mais o tanto de calor da região.

Maria José da Silva Torres, migrará dentro do Brasil por questões de clima e saúde.

“Quando mais mais jovem, não me incomodava tanto, mas com o passar dos anos, passou a ser muito incômodo. Aqui em Rondônia é muito quente e úmido nessa nossa região, então isso passou a me incomodar bastante. E não é só alguém dizer: “Ah, mas você tem um ar-condicionado em casa, tem ar-condicionado no carro”, porque vai além disso. Não basta você ter um certo conforto, mas a cidade em si, o clima está no ambiente”, afirmou Maria José.

A justiça climática 

O ar condicionado de Maria José, moradora de Rondônia entra na conversa de justiça climática. Moradias ventiladas e seguras, energia elétrica e acessível, centros de resfriamento público, tudo isso engloba a justiça climática. Discutir meio ambiente, saúde, dignidade e equidade ambiental faz parte desse processo também de migração climática.

Em países ricos como os Estados Unidos e o Japão, cerca de 90% dos domicílios possuem ar-condicionado, segundo levantamento da International Energy Agency (IEA). Já no Brasil, a realidade é diferente. Estimativas de mercado e estudos setoriais indicam que apenas cerca de 16% a 20% dos domicílios brasileiros possuem ar-condicionado, segundo dados compilados pela International Energy Agency (IEA).

Esse dado expõe uma dimensão central do debate sobre justiça climática: quem mais sofre com o calor extremo, geralmente, é quem tem menos acesso a infraestrutura de adaptação. Em um país marcado por desigualdade social, o conforto térmico não é apenas questão de consumo

“Na minha experiência, passou a ser um incômodo no sentido de me atrapalhar para ter uma qualidade de vida melhor, para até mesmo fazer uma simples maquiagem, para fazer caminhada, enfim, para tudo.E como sempre houve em nós uma certa intenção de ir embora, de voltar para Minas, na verdade, então isso contribuiu, foi assim, decisivo para a gente voltar para Minas. O clima foi decisivo”, comenta Maria José.

Organização Internacional para as Migrações (OIM) reconhece que fatores ambientais, incluindo conforto térmico, influenciam deslocamentos internos, tanto por eventos extremos quanto por condições graduais.

“E eu acredito que isso aconteça o inverso também. A gente sabe de casos de pessoas que migram de uma região fria para uma região mais quente, porque preferem. Então, é uma questão também de preferência, de gosto mesmo pessoal, de se dar bem, de se sentir bem”, reflete Maria.

Estudos científicos do climatologista José Oliveira mostram ligação entre clima e migração. O estudo aponta que o Nordeste tende a perder população para o Sudeste.Entre 2008 e 2016, mais de 1,6 milhão de pessoas no Brasil foram deslocadas internamente por eventos climáticos extremos como enchentes e calor excessivo.Em 2024, cerca de 1,1 milhão de brasileiros foram forçados a deixar suas casas por desastres climáticos, principalmente enchentes no Rio Grande do Sul, com parte dessas pessoas migrando internamente como resposta ao desastre.

A International Energy Agency (IEA) aponta que países frios têm historicamente maior migração interna em direção a regiões mais quentes e costeiras, associadas a maior bem-estar subjetivo.

“Eu acredito piamente que essa mudança traz mais qualidade de vida, reduz o estresse, sabe? E com isso a gente se sente melhor, ou seja, é um ponto a mais para a gente estar bem. Se a gente tem que buscar qualidade de vida, eu acho que a gente tem que procurar estar onde a gente se sinta um pouco melhor. Claro que há outras questões a serem consideradas numa mudança, mas para mim foi crucial a questão do clima”, concluiu Maria.

Da Amazônia à perda de identidade dos indígenas

Os saberes climáticos indígenas que irão se perder com as migrações

Escolher sair ou ser forçado a sair. Sair com oportunidades e disseminar saberes ancestrais em universidades e pesquisas, ou sair para metrópoles abarrotadas de população em subempregos. A realidade dos povos indígenas diante da migração climática brasileira é um problema grandioso.

Flaviano Franco, cacique do povo Guarani Kaiowá, do etnoterritório Cone Sul, em Mato Grosso do Sul,  fala do avanço do desmatamento e das queimadas no Centro-Oeste brasileiro tem produzido efeitos que vão além da perda ambiental: impacta diretamente a permanência de povos indígenas em seus territórios tradicionais e a perda dos saberes ancestrais, importantes para remédios, pesquisas para humanos e animais.

Cacique Flaviano Franco,Guarani Kaiwoá e os saberes que estão se perdendo com migracões

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), por meio do sistema PRODES, mostram que o desmatamento no Cerrado, bioma predominante em Mato Grosso do Sul, segue em níveis elevados nos últimos anos. Já o Monitor do Fogo aponta aumento recorrente de focos de queimadas na região. O MapBiomas registra que o Brasil perdeu milhões de hectares de vegetação nativa na última década, com impactos significativos sobre terras indígenas e seu entorno.

“Devido ao desmatamento e às queimadas, os Guarani Kaiowá estão sem condições da agricultura tradicional e isso tem levado os Guarani Kaiowá a procurar em outros espaços. Aos poucos, os nossos territórios estão ficando iguais aos territórios não indígenas. Igual à cidade. Quase não há mais diferença entre terra indígena e cidade, por causa das queimadas, do desmatamento e da falta de incentivo e apoio.As florestas, o cerrado, as plantas medicinais, as árvores não estão sendo cuidados. O Guarani Kaiowá não consegue mais ver essas coisas como coisas necessárias. O Guarani Kaiowá está se acostumando a viver sem árvores, mas muitos ainda estão com a alma, com o espírito na natureza, na árvore, na terra”, comenta o cacique Flaviano.

O conhecimento se perde com a saída forçada dos povos ancestrais das florestas 

O desmatamento não destrói apenas árvores. Ele apaga bibliotecas vivas.

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Brasil perdeu milhões de hectares de vegetação nativa na última década, especialmente na Amazônia e no Cerrado. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 80% da população mundial utiliza plantas medicinais como parte da atenção primária à saúde.A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) alerta que cerca de 40% das línguas indígenas do mundo estão ameaçadas de extinção.

Ou seja, a perda de território reduz a capacidade de transmissão intergeracional de saberes e a migração forçada enfraquece práticas agrícolas, medicinais e espirituais ligadas ao ambiente específico.

O Cacique Flaviano afirma que o problema esta entre os próprios povos indígenas que perderam os saberes e também já não se interessam, pois migram. “Os anciãos diziam que o fogo de agora não é mais o fogo de antes. O fogo rebelde. O fogo está ficando sem controle, é o que a minha avó dizia. Os Guarani Kaiowá perderam essa percepção, um saber ancestral. Por isso as queimadas têm provocado conflito dentro do território e é um dos motivos dos Guarani Kaiowá repensarem sua permanência no território. A queimada dos lixos tem provocado incêndios que estão infestando o nosso território e os Guarani Kaiowá tentam se livrar dos plásticos, dos lixos, queimando. A queima dos lixos também tem gerado vários incêndios dentro do território”, disse.

A destruição na floresta é o principal problema para a falta de ânimo das novas gerações, segundo cacique Flaviano. 

“O aumento de saída de jovens ou famílias para outra cidade ou estado, o motivo que tem levado à saída do território tradicional é a degradação do seu ambiente, acabou o local da pesca, não tem mais árvores para se fazer as casas tradicionais, não tem mais espaço para o ensino, da educação indígena tradicional da família, devido ao território degradado e por ser pequeno demais o território. O motivo que tem levado jovens e famílias a buscar outra cidade e outro espaço é procurar maior espaço, a terra maior, maior terreno para a sua família. Isso tem levado as famílias a mudarem. Os jovens têm saído para estudar, fazer faculdade em outras cidades, em outros estados”, afirma.

Mas essa realidade não é tão bonita como se pensa. Em 2021, o total de indígenas universitários correspondia cerca de 0,5% de todos os alunos no ensino superior brasileiro.Pesquisas acadêmicas e reportagem apontam que, embora o ingresso tenha aumentado, a permanência e a conclusão dos cursos universitários ainda são desafios para estudantes indígenas, devido a barreiras culturais, raciais, econômicas e estruturais nas instituições de ensino.

“O que tem levado jovem a sair do seu território é desinteresse que foi causado por banalização da sua cultura indígena e do seu território pelo próprio sistema. O sistema… vem degradando, não só o território, mas a confiança do povo originário dentro do seu território. Quando a comunidade é forçada a migrar por causa da degradação ambiental, se perde a cultura, que é a identidade do território e do indivíduo indígena. Quando se perde o espaço, quando se sai do espaço tradicional, a cultura perde a força”, afirma o cacique.

Para o cacique Flaviano migrar também é perder um pouco de si para tentar se adptar em outro local que não tem sua cultura, seus costumes. “O espírito do povo indígena, do indígena, quando sai do seu território, ele é enfraquecido e, às vezes, o espírito não vai, o espírito não acompanha o indivíduo. Por isso, ele sempre retorna, mesmo que migre, muitos retornam para o seu território, e às vezes frustrados. O espírito tem que acompanhar o Guarani Kaiowá, então o espírito fica fraco, o espírito enfraquece com a migração. E não há percepção de futuro em outros territórios.Economicamente, quando se fala em economia para os Guarani Kaiowá, para os originários, se fala de qualidade de vida. Economicamente, para nós, o que tem valor é qualidade de vida. Não é o poder aquisitivo, mas sim poder praticar a economia tradicional, a troca de alimentos, a troca de objetos, a vivência entre o ancião e os seus netos, a circulação de alimentos dentro da família extensa, ela se perde com a migração.Então, economicamente, a família fica desestruturada e tende a migrar para outro tipo de economia que adoece”, conclui. 

Enchentes, secas, queimadas e desmatamento não são eventos isolados. São camadas de uma mesma crise que afeta saúde, emprego, moradia e a própria possibilidade de permanência no território. À medida que eventos extremos se tornam mais frequentes e intensos, o debate climático deixa o campo ambiental e se consolida como tema central de desenvolvimento, desigualdade e futuro econômico do país.

O território não é apenas geografia.
É condição de sobrevivência.