MENINOS ABUSADOS: Um silêncio social que precisa ser denunciado

por Letícia Fagundes, Jornalista e documentarista
A cultura da virilidade precoce, a falta de denúncias e as mulheres abusadoras
A sociedade brasileira ainda falha gravemente ao enxergar meninos como vítimas possíveis de abuso sexual. A confusão entre violência e virilidade, estão histórias de infância mutiladas por uma cultura que insiste em dizer que “homem sempre quer”, que “foi sorte”, que “isso fez de você um homem”. Sob o peso do machismo estrutural, milhares de crianças do sexo masculino atravessam a infância e a adolescência sem o direito de reconhecer a própria dor, muito menos de nomeá-la como ela realmente é, um crime.
Segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos no Disque 100, apontam que cerca de 70% das vítimas de violência sexual no Brasil são meninas. Isso não quer dizer que os meninos são menos violentados, significa, na prática, que são menos ouvidos, menos reconhecidos, menos acolhidos. Meninos são ensinados desde cedo que chorar é fraqueza, que falar sobre sentimentos é coisa de mulher, que sexo é conquista e não pode ser recusado. Quando o abuso vem de uma mulher, como babás, tias, amigas mais velhas, o discurso social transforma a violência em premiação: “deu sorte”, “já começou cedo”, “um garanhão desde pequeno”.
Essa narrativa distorcida mascara o abuso como iniciação sexual, silenciando os traumas em nome de uma masculinidade. A vítima se vê constrangida a rir junto, a se comportar como alguém que aproveitou a experiência, mesmo quando o corpo e a mente gritam o contrário. Esse riso, muitas vezes, é a única forma que encontram para sobreviver, o primeiro mecanismo de defesa de uma criança violentada e incompreendida. Com o tempo, esses garotos aprendem que a dor não pode ser exposta, que sua vulnerabilidade será ridicularizada e que sua sexualidade será posta em dúvida caso se reconheçam como vítimas.
A psicanálise chama de “repressão simbólica” esse apagamento emocional dos meninos. Em muitos casos, o trauma se transforma em sintomas físicos e psicológicos, desencadeando um ciclo para a vida toda. O ciclo da violência também pode se repetir, como aponta a literatura clínica, os meninos abusados sem acompanhamento psicológico adequado podem, futuramente, reproduzir a violência que sofreram ou se colocar continuamente em relações abusivas, sem entender por quê.
O apagamento é tamanho que até mesmo quando a agressora também pode ser uma mulher, ela costuma ser blindada imediatamente por estereótipos que a santificam. A mulher é vista como cuidadora, protetora, incapaz de fazer mal a uma criança. Muitas vezes, mesmo diante de denúncias ou suspeitas, essas mulheres são rapidamente defendidas, vistas pelo senso ideológico e estereotipado, “quase mães”. O julgamento moral da sociedade poupa essas abusadoras e revitimiza o menino, reforçando a ideia de que ele deveria ter gostado. O abuso cometido por mulheres, portanto, entra num terreno ainda mais nebuloso, onde a denúncia é quase impossível e a vítima acaba questionando sua própria percepção da realidade.
A violência cometida por uma mulher é frequentemente ignorada porque não há penetração e raramente violência física, o que gera menos visibilidade. Embora os dados do Centers for Disease Control and Prevention, nos EUA revelarem que asos de abuso sexual infantil, a imensa maioria dos agressores são homens, entre 80% e 95%, dependendo da faixa etária da vítima e do país, não há dados para os meninos que não entenderam e por sua vez, não denunciaram quando foram mulheres que os abusaram.
Já segundo o National Child Abuse and Neglect Data System e pesquisas do Brasil como o Sistema de Informação de Agravos de Notificação, gerenciado pelo Ministério da Saúde do Brasil e estudos de universidades com enfoque em violência intrafamiliar, 52% dos maus-tratos a crianças são praticados por suas próprias mães, não incluindo também dados de mulheres de fora do meio familiar.
Estudos internacionais e brasileiros apontam que mulheres são responsáveis por até 3 % dos casos de abuso sexual infantil, mas este número também não é real, mas sim questionável uma vez que as denúncias de abusos contra meninos ficam em silêncio.
Nas pesquisas que falam sobre abusos contra meninos, feito por mulheres, é normalizado e por isso não são compreendidos como vítimas.
O sistema de saúde e a educação, por sua vez, ainda não estão plenamente preparados para romper esse ciclo. Protocolos de escuta estão formatados para um perfil feminino de vítima. Faltam profissionais treinados para identificar sinais de abuso em meninos, falta linguagem emocional nas escolas, falta financiamento para criar espaços de acolhimento masculino e falta, sobretudo, coragem social para encarar que o machismo não apenas oprime mulheres, ele também destrói meninos.
A reportagem reúne três fontes essenciais: uma vítima que rompeu o silêncio e dois especialistas, uma psicóloga e um psiquiatra, ambos com ampla experiência clínica com crianças e adolescentes vítimas de violência sexual.
Fique com as entrevistas

Fabiano Viguini tem 19 anos e já carrega uma trajetória marcante e corajosa. Ator, modelo, apresentador, influenciador digital e escritor, lançou seu primeiro livro intitulado “Em um mundo complexo de um Pop Star”. Mais do que as luzes da exposição pública, Fabiano decidiu iluminar um tema ainda envolto em silêncios, o abuso sexual de meninos. Com sua voz ele rompe tabus ao compartilhar sua própria história, um relato que não apenas denuncia, mas acolhe, alerta e inspira outras vítimas a encontrarem força para se expressarem.
Nesta entrevista, Fabiano aborda o impacto de ter sido estuprado na infância, a solidão de crescer em uma sociedade que ensina homens a não chorar, o peso do machismo no silenciamento das vítimas e a dor de não ter sido acolhido como poderia ter sido se não fosse um menino. Ele fala sobre o trauma que marcou sua adolescência, e sobre a coragem de falar publicamente para ajudar outros meninos que ainda vivem calados. Suas palavras escancaram as falhas da sociedade e das instituições diante de uma dor profunda, mas também abrem caminhos para o reconhecimento, a escuta e a transformação.
IMJ – Quando você percebeu que o que aconteceu com você não era “uma iniciação sexual”, mas um abuso?
Fabiano Viguini – Na verdade, eu não identifico que eu fui abusado. Eu identifico que eu fui estuprado. Quando eu era pequeno sempre fui muito esperto E sempre soube o que tinha acontecido comigo. Porém, eu identifiquei que aquilo era um estupro e não um abuso quando eu tive acesso às informações, entre a minha pré-adolescência e a minha adolescência. Eu comecei a ter educação sexual, comecei a conhecer os limites do meu corpo, dizer não, foi quando eu realmente entendi que o que eu tinha sofrido foi uma penetração. Então tinha sido um estupro e que eu não tinha sofrido um abuso. Quando eu fui estuprado tinha por volta de uns 5, 6 anos. Foi muito doloroso.
IMJ – Você já ouviu frases como “isso fez de você homem”? Como isso te impactou?
Fabiano Viguini – Então, eu já ouvi algumas frases como: “O fato de você ter sido estuprado, será que não fez você virar homossexual?”, “Será que isso não te desencadeou desejos por homem?” Eu acho péssima essa pergunta.Porque como que eu gostaria de ficar com homens se eu fui estuprado por um? Eu nunca tive referencial paterno, porém eu sou gay e eu nasci gay. Eu me identifico como, eu sinto atração pelo gênero masculino. Então eu sou gay, eu nasci gay, e o fato de eu ter sido estuprado não influenciou no meu gênero sexual.

IMJ – Crescer em uma sociedade onde o homem é ensinado a não chorar, a não falar da dor dificultou seu processo de denúncia, por exemplo?
Fabiano Viguini – Dificultou muito o processo. Eu vim de fato falar sobre e expor, depois dos meus 18 anos. Antes eu vivia calado. Cresci na adolescência, eu chorava de madrugada. Ninguém sabia o que tinha acontecido. Porém, eu tinha uma melhor amiga, que eu sempre contava pra ela o que estava acontecendo, mas eu tive que guardar durante muito tempo essa dor, aprender a lidar com ela.Hoje eu faço terapia, mas por muitos anos eu fui o meu próprio terapeuta. Eu fui aquele adolescente que sentia as crises fortes e que infelizmente tinha que lidar.
IMJ – Você acha que o machismo contribui para o silêncio dos homens vítimas de abuso?
Fabiano Viguini – Eu não tenho dúvidas. Com toda certeza!
IMJ – Você chegou a denunciar? Se sim, como foi a reação das autoridades?
Fabiano Viguini – Na verdade, eu não cheguei de fato a realizar uma denúncia, mas sim um boletim. A polícia não está interessada em saber, não está interessada em buscar ajuda. Aconteceu quando eu era pequeno, não tinha sido algo recente. Então, pra eles, é muito indiferente. E aí vêm aquelas perguntas: “Por que você não denunciou antes?” Eu faço outra pergunta: Será que o seu filho denunciaria? Sendo um parente da família? Sendo uma criança que cresceu carregando aquela dor? Será que você denunciaria?
IMJ – O que você gostaria de ter escutado como um menino que você acredita que não foi tão acolhido se fosse uma menina nesse caso?
Fabiano Viguini – Eu gostaria de ter escutado que nunca mais eu deveria permitir que ninguém encostasse no meu corpo. Eu gostaria de ter sido acolhido. Eu gostaria de ter tido apoio da minha família. Eu gostaria de ter feito todos os exames possíveis. Porque eu tenho nojo do meu corpo. Até hoje eu passo por processo de terapia. Eu deito na cama e eu sinto a cama se esfregar em mim. Eu vou tomar banho e tenho medo de alguém estar me filmando no banheiro, sendo que eu moro sozinho no apartamento. Não consigo tomar banho e passar um sabonete em barra, só consigo usar sabonete líquido. Eu fui aquele adolescente que nunca, por exemplo, realizou uma masturbação, porque eu não consegui. Eu passei a minha adolescência inteira com esse trauma entalado e eu só chorava.
IMJ – O que você diria hoje para outros homens que passaram por isso e ainda têm vergonha ou medo de falar?
Fabiano Viguini – Eu sempre tive aquele negócio na minha cabeça que um dia eu precisaria contar. O que me desencadeou a ter coragem de contar foi ver que outras pessoas já tinham passado por aquilo. Toda vez que eu penso em contar o que aconteceu comigo, primeiro que eu acho que você tem que estar preparado psicologicamente pra falar. Porque as perguntas são muito perversas, os comentários são muito desumanos. Você tem que estar preparado para falar sobre isso. Eu me identifiquei preparado, por isso que eu fui e comentei sobre tudo que tinha acontecido comigo. Foi para vários portais e sites. O meu único foco, pra eu não sentir medo, vergonha, é saber que eu tô ajudando a vida de outras pessoas.

IMJ – A cultura em que você cresceu valorizava a quantidade de experiências sexuais como sinal de masculinidade? Isso distorceu sua forma de ver o que te aconteceu?
Fabiano Viguini – Eu vim de conceitos cristãos. E conceitos cristãos dizem que você só pode transar depois do casamento, mas tem aquele padrão do homem e da mulher. Então, pra você ser homem, você tem que ter uma mulher. Porém, como eu disse no início, eu sempre fui uma criança muito esperta. Isso nunca distorceu a minha vida ou a forma que eu pensava sobre o fato de eu ter sofrido um abuso. Sempre tive a consciência clara que eu era gay, que eu sentia atração por meninos e o estupro não influenciou no meu gênero.
IMJ – Que mudanças você gostaria de ver na forma como a sociedade trata meninos e homens vítimas de abuso?
Fabiano Viguini – A sociedade ainda abraça mais as mulheres que foram estupradas. Ainda tem um pouco disso. Porque a mulher já vem daquela perspectiva do homem assediar ela. A sociedade poderia abraçar mais os meninos, ouvir mais. São vidas! Então deveriam abraçar mais, ouvir mais, independente da idade. Porque um estuprador não vê idade. Ele apenas estupra, para ele é apenas um corpo, não tem gênero. Então acredito que os meninos deveriam ser mais ouvidos, mais abraçados, mais acolhidos.

Silvia Oliveira é psicóloga formada pelo Centro Universitário do Distrito Federal (UDF), com pós-graduação em Psicanálise pelo Instituto Ciclo de Brasília. Especialista em Psicanálise Clínica e Neuropsicologia, atua com foco na infância e juventude, trazendo à tona, com escuta sensível e olhar técnico, os impactos do abuso sexual em meninos. Silvia evidencia como o machismo estrutural silencia dores e impede que esses meninos reconheçam seus traumas, numa sociedade que ainda ensina que “homem não chora” e “homem sempre quer sexo”.
Nesta entrevista, a psicóloga analisa com coragem e profundidade os efeitos psíquicos de abusos invisibilizados, a fragilidade da rede de proteção diante dos meninos e o papel da linguagem, da educação e da escuta no processo de cura. Suas reflexões são um convite urgente à sociedade, acolher o menino ferido, construir espaços seguros de fala e romper com o ciclo de silêncio que aprisiona tantos em culpas e dores não ditas.
IMJ – Como o machismo estrutural influencia a forma como meninos interpretam e silenciam experiências de abuso sexual, especialmente diante da ideia cultural de que “homem não chora” e “homem sempre quer sexo”?
Silvia Oliveira – O machismo estrutural nos é conhecido como algo que é passado historicamente, de geração em geração, de famílias, que é ensinado. E tenta trazer ali um sentimento de normalidade. É normal, o homem é assim e ele tem que ser assim. Se ele não for, ele não é homem. Então, o machismo estrutural é ensinado como padrões rígidos de masculinidade, em que as emoções não podem ser expressas por esses meninos, por esses homens. Afinal de contas, se expressar emoções como medo, vulnerabilidade, choro, dor, esse homem não é homem. Ele é qualquer coisa, porque um homem tem que ser viril. O homem não pode ter medo de absolutamente nada, não pode ter ansiedade. O homem que chora, que mostra emoções, é considerado fraco.
O machismo estrutural traz uma cadeia de situações que vão aprisionando angústias, o sentimento de não poder ser de verdade, de que se eu me mostrar, vou deixar de ser o masculino que a sociedade espera que eu seja. Isso cria uma barreira psicológica enorme que impede os meninos de reconhecerem e nomearem suas experiências traumáticas.
Quando um menino passa por abuso como casos que atendi no consultório, de homens que chegam e dizem: “fui abusado pelas amigas da minha irmã, que era muito mais velha do que eu”, a sociedade responde: “Você teve sorte, isso não foi abuso” ou ainda “Fui abusado pela babá, por uma tia” e escutam: “Olha que sorte você teve”
E aquela pessoa está fragilizada emocionalmente, angustiada, mas não pode se sentir assim. Porque, afinal, o homem tem que ter sua sexualidade à flor da pele. Qualquer pessoa que tocar nele, principalmente uma mulher, ele então “é muito homem”. Isso faz com que as crianças, especialmente os meninos que pouco se fala tenham medo de falar, porque se falarem, vão sentir que de alguma forma a culpa é delas: foram frágeis, vulneráveis, não fizeram o que os adultos ensinaram.
Introjetam a ideia de que o homem deve ser sempre sexualmente disponível. Que ele sempre quer sexo, distorcendo a percepção do que é consentimento e do que é violência. Muitas vezes, os meninos interpretam o abuso como validação da sua masculinidade, como um ritual de passagem, reforçando o silêncio, a dor, a ferida, a vergonha, o medo.
A repressão emocional prolongada pode resultar em sintomas psicossomáticos quando o corpo grita. Freud vai dizer: “quando a boca não fala, fala a ponta dos dedos”. Quando esse menino passa por um abuso e tem que se calar porque o machismo diz que ele deve estar sexualmente disponível o tempo todo se ele revela que foi abusado por outro homem, é ele quem será envergonhado.
Essas feridas, essas mágoas, vão se acumulando. Em psicologia, chamamos isso de psicossoma: quando o corpo começa a falar. Pode ser tristeza, pode ser uma doença mesmo, uma situação nos rins, voltar a fazer xixi na cama, regredir a fases da infância porque ele não conseguiu expressar o que sente.
Isso aparece nas atitudes, nos comportamentos. Ele não está bem, mas socialmente ele não pode falar das emoções. É criticado, as pessoas riem, os parentes dizem: “Um menino desse tamanho fazendo xixi na cama?” Ele fica mais calado, mais fechado, para de brincar como antes, começa a receber acusações, apontamentos. E quanto mais isso acontece, mais ele se fecha.
Para os meninos, falar sobre abusos é muito mais difícil. Esse fechar-se, entrar nesse mundo interno, é mais aceito socialmente do que nas meninas. A menina mostra mais na tristeza, no olhar. O menino, mesmo demonstrando, não é tão cobrado. Afinal, o menino deve se resguardar, é o macho, o alfa, não tem medo. Desde pequeno, esconde dentro de si, e isso gera várias dores, até mesmo a dificuldade de entender como ele é amado.
Muitos transtornos podem vir desses abusos: dificuldade em entender a própria sexualidade na vida adulta, não sentir prazer ou nem saber onde está o prazer no corpo. Transtornos de ansiedade, depressão, pânico infelizmente são comuns. E não é só na infância. Se não tratado, isso vai ser levado pela vida adulta, até a velhice.
Ele vai criando esse ambiente interno de reviver essas situações, de sentir que deve ser objeto de desejo de alguém, sem poder dizer nada. Tem que permanecer ali. Em psicanálise, chamamos isso de “voz da lei”, o superego, que diz: “Você não pode. Você tem que ficar calado.”
Muitos homens, para esconder dor, ansiedade, dificuldades afetivas, apresentam ainda mais rigidez no machismo. Às vezes, vemos homens que perseguem homossexuais, que riem de outros homens, propagando o machismo de forma ainda mais intensa e muitas vezes, dentro deles há a marca do abuso, daquilo que não puderam falar.
Quanto mais propagam o machismo, mais é possível ver que há feridas profundas. E nem sempre é abuso sexual direto. Pode ser um abuso psicológico: o homem não pode ser sensível, não pode chorar, não pode ter medo de barata. E qual o problema?
Essa ideia passada pela história afeta profundamente a formação do “eu” dos meninos. Afeta a base psicológica e emocional que um menino merece ter na sua história.
IMJ – Quais os efeitos psicológicos a longo prazo em meninos que foram abusados, mas cresceram acreditando que foram “iniciados sexualmente” muitas vezes rindo junto com os agressores ou ouvindo isso de adultos próximos?
Silvia Oliveira – Ao longo da vida de um menino, um garoto, um jovem, um homem que sofre abuso sexual, quando a gente fala de efeitos psicológicos a longo prazo, gera ali nele aquilo que em psicanálise a gente vai chamar de mecanismo de defesa, que é racionalizar ou também trazer como uma negação daquele trauma vivido, daquela iniciação que se teve de forma abusiva.
O menino, para suportar a dor emocional, a dor psíquica, ele cria um discurso, uma máscara de violência do qual ele sofreu. Ao longo da vida, podem surgir vários efeitos. Como por exemplo, uma confusão da sua identidade sexual, que acarreta muita dor, angústia, falta de aceitação de si e dos outros. A dificuldade em estabelecer limites sexuais. Então ele pode continuar se colocando em relacionamentos abusivos, escolhendo pares que vão abusar tanto emocionalmente como sexualmente, ou vai reproduzindo nas suas fantasias aquele lugar do abuso que traz angústia, tristeza, que por mais que ele tente fugir, parece que está sempre ali, como uma sombra que não se dissipa.
E aquela alegria, aquele bem-estar nas questões sexuais, ficam invadidos. Então ele não sabe por limites no que é realmente amor, liberdade ou abuso. Se mistura dentro dele. E é uma angústia que, no momento em que ele poderia estar vivendo algo intenso, ele pode estar misturado com aquele sentimento do abuso, de uma iniciação sexual que se deu partindo de um abuso.
Ele fica muitas vezes envolvido em relacionamentos abusivos, que geram dependência emocional.
Uma outra situação que acontece a longo prazo com a questão desses efeitos do abuso é o sentimento crônico de vergonha e culpa. A pessoa fica difusa, mesmo que ela não consiga diferenciar de onde começou, qual foi a origem de tudo isso, ela carrega dentro dela uma vergonha e uma culpa que ela não sabe nomear, ela não consegue dizer. E ainda que ela saiba, lembre dos acontecimentos, o nomear, o colocar isso em palavras, lhe é muito difícil. O bloqueio acontece, e aí gera-se muito mais dificuldade de digerir essas emoções tão difíceis, essas emoções que, se não digeridas, de fato vão continuar acarretando o adoecimento físico, psicológico, emocional, relacional.
Uma das coisas que a gente vê muito dentro desse quadro, dentro desse contexto, são os transtornos de humor, incluindo depressão e ansiedade. Uma vontade enorme de se esconder. E essa pessoa, por se sentir culpada, com muita vergonha, e não saber nomear, acaba resistindo à busca de um tratamento, ao engajar-se nesse processo de buscar caminhos para se curar.
Ainda que ela esteja num processo de terapia, de análise psicanalítica, deitando no divã, muitas vezes há resistência ao falar, resistência ao mergulhar porque dói nas emoções. Para poder sarar, é preciso que a gente faça esse ato psicológico eu vou chamar aqui de cirurgia de chegar ao cerne da questão. Muitas vezes ela foge, do que ainda sem entender, sente medo, vergonha.
Uma das outras coisas que a gente percebe muito em crianças que sofrem abuso sexual e falando diretamente da relação dos meninos, é um comportamento precoce da sua sexualidade. Ele é sexualizado precocemente e muitas vezes de forma promíscua. Então, ele tem muito interesse em andar por caminhos que realmente vão corromper, vamos dizer assim, os desejos que seriam leves, que seriam gostosos, que levariam ele a esse processo de viver a sua maturação sexual.
Esse comportamento sexualizado precoce ou até mesmo promíscuo, acarreta e traz dentro dele, de novo, uma prisão na sua liberdade sexual, de poder ser inteiro na sua sexualidade. Há uma necessidade imensa de mergulhar nesse mundo do sexual muitas vezes na pornografia, muitas vezes numa necessidade de masturbação intensa e ele acaba, de fato, entrando em alguns caminhos que vão trazer esse vício, e vão machucar e atrapalhar muito mais qualquer desenvolvimento que ele pudesse ter saudável na sua sexualidade.
Quando ele estiver com o seu companheiro ou com a sua companheira, ele não vai conseguir achar essa interesse que ele busca. Porque, além dos abusos e das marcas desse abuso, e de não conseguir identificar aquele lugar que causa tanta vergonha, tanto medo, de não decodificar essas emoções, ele ainda adentra por esse caminho dos vícios, do contexto sexual, que não deixa ele ter uma naturalidade na vida a dois.
Em muitos casos, também surgem os quadros que a gente vai falar do transtorno do estresse pós-traumático. E esses casos trazem consigo sintomas dissociativos, que vão, ao longo da vida, levando a pessoa cada vez mais longe do seu eu, daquilo que ela é, e ela não consegue fazer leitura sobre si mesma ou sobre a vida. E ela traz esse estresse pós-traumático para o seu dia a dia, acarretando várias situações, e não sabendo como lidar com esse caminho.
Por isso, a importância de se saber o que realmente são os efeitos psicológicos a longo prazo de meninos que foram abusados. E foram abusados, geralmente, por pessoas a gente vai falar que 90% dos casos acontecem dentro do âmbito familiar, num contexto em que as pessoas se conhecem. Então, o trauma é muito maior, porque são pessoas da nossa confiança. Mas ainda que seja alguém de fora que, nos dados, vamos dizer, é menor ainda assim esses traumas todos acontecem.
Mas como o afeto, essa linha que nos envolve familiar, geralmente é onde realmente acontecem os maiores atos de abuso sexual, esse romper com o seu eu, esse lugar de não se entender, acaba se tornando muito mais forte. Porque a criança, esse olhar para esse adulto, essa pessoa que tem uma representatividade na sua infância de proteção, de carinho, de afeto há uma confusão dentro dela. Ela vai dissociar, vai tirar dela esse chão, esse lugar de apoio que ela precisa para crescer e se descobrir.

IMJ – De que maneira o sistema de escuta e acolhimento ainda falha com meninos vítimas de violência sexual, e como o estigma da masculinidade afeta o acesso a uma rede de proteção real e eficaz?
Silvia Oliveira – Quando nós falamos da questão da violência contra meninos, do abuso sexual nesse contexto, nós percebemos uma falta de preparo muito grande de alguns profissionais e da sociedade na atenção a esse menino que sofreu violência sexual. O sistema de proteção muitas vezes está formatado para atender um padrão, e esse padrão de vítima é o padrão feminino, o que invisibiliza os meninos.
Os profissionais podem não saber fazer perguntas adequadas ou desconsiderar alguns sinais de abuso, mesmo por preconceito de gênero. Afinal de contas, dentro dessa estrutura de masculinidade que trazemos, desse ensinamento que recebemos, dizem: “não, o menino não, o menino é homem, ele sabe se defender.” E acabam deixando esses meninos, esses homens feridos, às margens.
Além disso, a falta de capacitação específica de alguns profissionais da área, como psicólogos, assistentes sociais e até delegados, para escutar meninos e escutar sem preconceito infelizmente ainda é um problema. O estigma da masculinidade, o medo de serem vistos como fracos, “menos homens” ou até de terem sua orientação sexual questionada, inibe o relato, a fala, o colocar para fora essa dor.
O próprio menino pode ter dificuldade de se reconhecer como vítima. Por exemplo, um menino que foi abusado por uma mulher por uma professora, uma amiga da irmã, uma prima foi ensinado que isso não era um abuso. E por conta disso, essa vítima, por ter esse papel de homem aprendido culturalmente, acredita que deveria ter gostado daquilo que aconteceu.
Então, falar sobre isso, colocar para fora, e saber que as pessoas não vão conseguir acolhê-lo da maneira que ele precisava ser acolhido, é um dos pontos dificultadores da escuta e do acolhimento desse menino ferido, machucado.
O discurso social ainda reforça que o menino tem que ter uma experiência sexual cedo. E se ele tiver isso, ele é muito sortudo o que desqualifica a gravidade do abuso que ele possa ter vivido. E aí a gente inclui todos os tipos de abuso que ele pode ter passado. Afinal de contas, o menino ter experiências ainda novo não é considerado problema algum. Esse é o machismo estrutural.
E com isso, meninos, jovens, homens estão sangrando no seu eu, naquilo que é.
IMJ – Como a ausência de linguagem emocional ensinada a meninos desde pequenos contribui para o silenciamento dos traumas e impede que eles reconheçam que foram vítimas?
Silvia Oliveira – Quando a criança, o menino, não aprende a nomear as suas emoções e Lacan vai nos dizer muito isso, que nós entramos na história através da linguagem, desse se autoconhecer socialmente, ser conhecidos a gente entra na vida pela linguagem.
Então, quando o menino, nesse contexto de abuso, de trauma, acaba não conseguindo ter esse lugar da fala, da linguagem, ele não desenvolve, não aprende a nomear emoções como medo, vergonha, tristeza, vulnerabilidade. Ele cresce com esse déficit, que a gente pode chamar de déficit na alfabetização emocional.
E não saber nomear algo faz com que aquela dor fique aprisionada dentro dele. Chamando dessa forma de analfabetismo emocional, a gente percebe a dificuldade de reconhecer o reconhecimento, na verdade do seu próprio sofrimento.
A impossibilidade de narrar o trauma, de trazer isso em palavras, faz com que esse menino, esse homem, esse jovem, não consiga digerir, decodificar essa dor, essas emoções que são difíceis para ele. Afinal de contas, ele não consegue nomeá-las, falar sobre, narrá-las.
Existe uma tendência à somatização, a transformar esse sofrimento psíquico em sintomas físicos. Então a gente vai ver muitos homens sofrendo com várias questões de saúde física, e a ordem disso vem dessas feridas que habitam dentro deles.
Aquilo que nós chamamos em psicanálise de mecanismos de defesa mecanismos de defesa primitivos como negação, dissociação é muito utilizado para tentar esconder suas dores e angústias mais profundas.
Além disso, muitos meninos acabam expressando o sofrimento de forma externalizante, através de agressividade, irritabilidade, se colocando em risco. Isso vai mascarando o verdadeiro sofrimento interno, aquilo que de verdade está buscando um caminho para sair.
Mas como ele não sabe nomear, como não sabe colocar em palavras, acaba transbordando por alguns caminhos e podem ser estes os caminhos do seu transbordar.
IMJ – É possível observar uma ligação entre o silêncio forçado de meninos abusados e o desenvolvimento de comportamentos autodestrutivos ou mesmo de reprodução da violência mais adiante?
Silvia Oliveira – Sim, o estudo da psicologia do trauma já evidenciou uma forte correlação entre experiências de abuso não elaboradas e comportamentos autodestrutivos na adolescência e na vida adulta.
Temos alguns exemplos dessas manifestações comuns que acontecem nesse contexto de trauma: automutilação, uso abusivo de drogas, de álcool, tentativas de suicídio, comportamento sexual de risco e, em alguns casos, a repetição da violência — quando o indivíduo inconscientemente assume o lugar de agressor numa tentativa distorcida de resolver aquele trauma, o que a psicanálise chama de repetição compulsiva.
Isso não significa que todo menino vai ser um abusador, ou que um menino abusado vai reproduzir violência, mas o risco aumenta se não houver uma intervenção profissional, terapêutica, psicológica. Porque essas angústias, essas dores, vão estar latentes ali como diz Freud numa tentativa de encontrar um caminho para sair, porque está doendo dentro dele. É uma ferida aberta.
E ele vai encontrar, infelizmente, esse caminho. Ou de ser a pessoa que vai produzir ou reproduzir o abuso ou a violência, ou se colocar em relacionamentos em que ele novamente vive abusos tanto psicológicos como físicos.
IMJ – Que caminhos você acredita que a psicologia, a educação e a própria mídia podem trilhar para romper esse ciclo de silêncio e violência, criando uma cultura que permita aos meninos reconhecerem-se como vítimas sem que isso signifique fragilidade ou perda de identidade?
Silvia Oliveira – Sim, nós acreditamos que, na psicologia, podemos sim romper com esse ciclo do silêncio, da dor, desse aprisionamento na alma. E podemos recorrer a alguns caminhos.
Falamos um pouco dos profissionais: a formação de profissionais mais preparados, com foco na escuta desses meninos meninos que já trazem consigo esse ensinamento do machismo estrutural, de que não podem falar, que falar é fraqueza, que precisam lutar sozinhos, porque, se falarem, serão humilhados. Precisamos de psicólogos, assistentes sociais, policiais, enfim, profissionais prontos e preparados para acolher esses meninos e entender os sinais que eles estão emitindo.
Esses sinais são muito importantes. Terapias com esse olhar sensível para o masculino que o menino saiba que ele pode e deve sentir vão auxiliar muito na cura emocional. E assim, criamos espaços seguros para que eles consigam elaborar, colocar para fora, nomear suas angústias e expressões emocionais.
Também penso na educação, que anda de mãos dadas nessa luta para ajudar esses meninos. Defendo a inserção de conteúdos sobre emoções, consentimento e masculinidade saudável desde a infância. Se nas escolas conseguirmos transmitir esse conhecimento, certamente vamos auxiliar muitos meninos que foram ensinados errado ou que vivem abusos e nem sabem que é abuso. Isso é libertador. A educação tem esse poder. O conhecimento liberta.
Projetos de educação emocional nas escolas para alunos, pais, cuidadores são de suma importância. A capacitação de professores para identificar sinais de abuso nos meninos também. A sociedade e os profissionais ainda estão mais atentos aos sinais nas meninas. Por isso, essa capacitação voltada para os meninos seria fundamental.
A mídia tem um papel essencial, como estamos fazendo aqui: esclarecendo, trazendo conhecimento. Campanhas que desconstroem a masculinidade tóxica são urgentes. A representação de homens vulneráveis, sem serem ridicularizados, também é um caminho de liberdade para os que sofrem com o machismo estrutural.
Programas educativos que incluam a violência sexual contra meninos na mídia certamente alcançarão muitas famílias, muitos meninos, muitos homens que têm sua criança interior ferida e que podem encontrar ali um caminho para começar a nomear suas angústias, suas dores, colocar em palavras aquilo que está quase explodindo por dentro.
Os estudos da psicologia e da psicanálise contribuem muito para trazer à tona o que está recalcado, escondido. Ajudam essa pessoa a nomear o que antes era só trauma, sem palavras, e construir uma nova narrativa sobre a própria história. E essa nova narrativa é uma possibilidade de renascimento, de reconstrução, de cura, um lugar de curar pessoas.
Ao invés de sermos pessoas feridas que ferem porque pessoas feridas ferem podemos ser pessoas curadas que curam outras. Se juntos nessa corrente do bem que eu gosto de chamar nos unirmos para falar mais sobre o tema, para aprender a acolher, para estarmos disponíveis na escuta e no cuidado, e também para nos curarmos dessa masculinidade tóxica, certamente alcançaremos um patamar muito melhor no nosso contexto histórico.

Bruno Raffa é médico psiquiatra formado pela PUC, com residência em Psiquiatria no Hospital São Lucas da PUCRS e em Psiquiatria da Infância e Adolescência no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria do mesmo hospital, atua como preceptor e supervisor em instituições de referência, como a Fundação Mário Martins. Com mais de uma década de experiência clínica, seu trabalho foca em transtornos psiquiátricos decorrentes de traumas, especialmente abuso sexual infantil, e os impactos do machismo estrutural no desenvolvimento emocional de meninos.
Na entrevista, Bruno aborda como estereótipos de masculinidade como a negação da vulnerabilidade masculina dificultam o reconhecimento e o relato de abusos, gerando consequências como depressão, abuso de substâncias e comportamentos autodestrutivos. Ele destaca a urgência de políticas públicas que criem redes de acolhimento específicas para meninos, além de criticar a sexualização precoce e a falta de espaços seguros para que vítimas processem seus traumas sem serem revitimizadas por discursos como “foi sorte” ou “iniciação”. Sua análise combina rigor técnico com um olhar sensível às transformações sociais necessárias para romper ciclos de violência.
IMJ – Na sua experiência clínica, como o machismo estrutural que ensina que “homem não chora” e “não se vitimiza” interfere no reconhecimento e no relato de abusos sexuais sofridos por meninos?
Bruno Raffa – O abuso sexual, tanto em meninos quanto em meninas, é extremamente deletério para o desenvolvimento e gera várias questões psiquiátricas no futuro, como depressão, abuso de substâncias e outras questões que eu vou falar depois.
É muito comum que vítimas de abuso demorem muito tempo, anos ou décadas para verbalizar os ocorridos. Isso gera uma dificuldade para que possamos atuar de forma mais precoce e minimizar os prejuízos que mencionei.
É claro que, dentro do gênero masculino, a expressão dos sentimentos não é tão validada quanto no feminino. Muitos meninos acabam internalizando a dor, ou seja, não a expressam por medo de mostrar sua vulnerabilidade.
Vivemos um tempo em que a expressão dos sentimentos está sendo cada vez mais validada na nossa sociedade. Há uma tendência de mudança, e hoje conseguimos observar tanto que meu público de crianças e adolescentes é basicamente masculino que as famílias têm buscado atendimento e um espaço de fala, tanto para meninos quanto para meninas.
Ainda assim, percebo que, para o gênero masculino, falar sobre sentimentos continua sendo mais difícil. Os meninos tendem a expressar suas questões por meio de atos, de outras formas, enquanto no gênero feminino a expressão verbal é mais comum, porém acredito que essas características da nossa sociedade têm mudado de forma muito forte nos últimos tempos.
IMJ – Que impactos psiquiátricos você observa em meninos que foram abusados, mas cresceram ouvindo que “foi sorte”, “foi iniciação”, ou que deveriam ter gostado, como se o abuso fosse um marco positivo para sua masculinidade?
Bruno Raffa –Então, essas racionalizações como “sorte” ou “foi um processo de iniciação” são formas um tanto perversas, vamos dizer de negação da violência. Quando um menino recebe esse tipo de resposta ao tentar expressar algo relacionado ao abuso, ou falar sobre os sofrimentos que está passando, isso gera nele o reconhecimento de que a dor que sente não tem lugar.
Isso gera um fenômeno que a gente chama de dissonância cognitiva e emocional. E a que ela está associada? Está associada ao desenvolvimento futuro de psicopatologias as mais comuns são os transtornos depressivos e ansiosos, comportamentos autodestrutivos como abuso de substâncias, hipersexualização precoce, transtornos dissociativos, transtorno de estresse pós-traumático, desconexão emocional e dificuldade para estabelecer vínculos.
O que isso gera na pessoa? Ela não consegue ter um conhecimento profundo dos próprios estados internos. Isso faz com que não reconheça sinais de alarme ou seja, não identifica ameaças em outras pessoas porque não sabe lidar com a própria dor. Isso a torna propensa tanto a novas situações de abuso quanto a episódios de agressividade ou descontrole emocional, por não saber organizar e concatenar adequadamente suas emoções.
A pessoa vive com uma sensação constante de inadequação, sem conseguir lidar com questões práticas da vida como alguém que não passou por esse tipo de experiência. Por isso, sim, o tratamento precoce ajuda especialmente no reconhecimento dos próprios sentimentos e na desconstrução dessa dissonância cognitiva, permitindo à pessoa acessar a realidade emocional e reconstruir sua percepção da realidade.
IMJ – De que forma a pressão cultural para que meninos sejam “sexualmente ativos o quanto antes” pode confundir a percepção do abuso, transformando um trauma em algo que eles são levados a rir, esconder ou até valorizar publicamente?
Bruno Raffa –A sociedade brasileira sobretudo é muito sexualizada, que valoriza aspectos da sexualidade tanto nos meninos quanto nas meninas de uma forma muito precoce. A gente coloca a sexualidade como se fosse um marco que a pessoa tem que passar para adquirir uma espécie de experiência, ou algo nesse sentido, o que acaba gerando no jovem uma dificuldade de proteção e de lidar com seus próprios sentimentos. Existe uma pressão para que ele se sexualize logo, e isso pode vulnerabilizá-lo para situações de violência e abuso, porque ele entende que aquilo é algo que tem que ser feito, que é muito importante. Então, ele não consegue ler a própria experiência e acaba tratando uma situação que acha normal, mas que é extremamente violenta, quase como se fosse uma brincadeira, sem perceber que aquilo é algo muito sério e traumático, que gera consequências para a vida futura sem ele se dar conta, porque ele iniciou a vida sexual de uma forma, vamos dizer, equivocada, violenta, e isso gera uma predisposição a repetir esses padrões no futuro.
Então, é um traço da nossa sociedade, essa sexualização. Claro que em tempos mais precoces eu via isso de forma mais exacerbada, tanto na expressão, e hoje temos um olhar mais atento à sexualização de crianças e adolescentes, mas mesmo assim é algo tratado quase como uma brincadeira. A sexualização dos nossos jovens, de namoradinhas, é muito forte o jovem tem que perder a virgindade, ficar com todo mundo e isso é um comportamento que não é errado, mas cada um tem seu tempo, e não se respeita o próprio tempo.
IMJ – O quanto a ausência de redes de acolhimento específicas para meninos vítimas de violência sexual reforça o isolamento emocional e o risco de transtornos psiquiátricos como depressão, ansiedade, uso de substâncias ou até suicídio?
Bruno Raffa –No nosso contexto não temos redes nas quais os meninos possam contar para ter uma escuta adequada, conseguir ser recebidos e ter os tratamentos. Ou seja, quando esse espaço não existe, o que acontece é o isolamento emocional, e a gente acaba tendo dificuldade para fazer um diagnóstico precoce e dar o acolhimento adequado. Porque, como eu falei antes, aumenta o risco de depressão, ansiedade, transtorno de substâncias, comportamentos violentos, até mesmo, em casos mais graves, o próprio suicídio. Às vezes a gente tem protocolos, ideias, mas nada muito bem estruturado na questão dos meninos, principalmente. E nada que tenha uma aplicabilidade prática. Não sei se falta, às vezes, financiamento dos órgãos responsáveis, mas a gente vê que quem trabalha na clínica privada as pessoas procuram, enquanto em ambientes de clínica pública as pessoas ficam muito vulneráveis sem um espaço adequado, tá?
IMJ – Muitos meninos abusados não são vistos como “vítimas possíveis” nem pela sociedade, nem por profissionais de saúde. Como esse apagamento da dor masculina sustentado por estereótipos de força, invulnerabilidade e desejo constante afeta o diagnóstico e o início do tratamento psiquiátrico?
Bruno Raffa –Como profissional que atende há mais de 10 anos, eu não acho que haja, dentro dos profissionais bem formados, uma não valorização ou falta de escuta nesse ponto. Acho que às vezes tem profissionais que não estão muito preparados para trabalhar com essa questão, ou profissionais que atendem adultos e não têm mais pesquisas sobre infância e adolescência, e acabam tendo dificuldades no reconhecimento. Mas um profissional da área bem informado é capaz de acolher e validar, porque a gente trabalha com algumas questões de validação: quando a gente diz que aquilo é real e que aconteceu, a gente dá o primeiro passo para o atendimento.
Não acredito que hoje em dia o homem machão que passa por tudo seja algo que de fato a sociedade valorize. A gente está trabalhando mais com questões emocionais. Mas muitas vezes, em alguns grupos sociais, ainda existe essa coisa do homem não sofrer ou não passar por nada. Isso é fruto da ignorância, de ambientes não muito dotados de informação, conhecimento e outras questões.
Mas sim, o acolhimento de um profissional bem capacitado consegue formar um vínculo e fazer uma intervenção precoce, minimizando os traumas e as consequências futuras, bem como eu falei, do abuso sexual.
IMJ – Na sua visão, que mudanças estruturais seriam urgentes tanto no sistema de saúde quanto na educação para que meninos possam identificar o abuso, nomear seus traumas e buscar ajuda sem serem deslegitimados pela masculinidade tóxica que ainda os cerca?
Bruno Raffa –Seria importante, dentro da nossa sociedade, que primeiro os órgãos de saúde responsáveis pudessem ter um olhar e um financiamento adequado para as pessoas capacitadas para isso. Porque a gente tem, principalmente aqui em Porto Alegre, muitos profissionais capacitados, mas o que não tem é espaço e financiamento. Então, claro que trabalhar com capacitação de profissionais da educação, sobretudo no colégio, que é a primeira porta para o reconhecimento, é importante.
Acredito que protocolos de escuta qualificada nós temos muitos, e muitas pessoas trabalham de forma adequada sobre isso. Campanhas para conscientização são importantes, na medida em que geram uma problematização, mas elas também têm que ser bem organizadas para não gerar uma viralização da vitimização, que às vezes acontece quando um assunto é falado muito extensamente, sendo deturpado e banalizado. Então, campanhas bem adequadas, baseadas e orientadas por profissionais que trabalham com essa questão, seriam importantes.
Os serviços especializados seriam outra questão, mas dependeríamos muito de financiamento de órgãos ou instituições interessadas em ajudar esse grupo. Eu acho que hoje em dia o grupo masculino é muito vulnerável para muitas questões, tanto por imposições da própria sociedade quanto por mudanças que estão ocorrendo. Como eu falei, 70, 80% da minha prática clínica é com meninos, e vejo que muitas vezes eles têm poucos espaços nos quais se sintam validados, se sintam bem. Então, acho que isso é muito importante, mas precisamos de investimento das instituições, porque temos material humano para ajudar nessas questões.
É importante, para quem trabalha muito com meninos, adolescentes e crianças, pensar em como a masculinidade é vista hoje, porque percebo que muitos meninos têm dificuldade em como se portar ou lidar com diferentes situações nos ambientes. Isso acaba gerando, muitas vezes, comportamentos que esperávamos mais validados, e muitas questões de violência e comportamentos inadequados, porque eles estão transitando em ambientes, como a escola, que não têm estrutura para lidar com eles.
Alguns meninos precisam de ambientes estruturados, com mais cobranças e limites claros, porque eles percebem ambientes muito abertos, com regras pouco estabelecidas, como frágeis, e acabam transgredindo para estabelecer a própria personalidade. Isso é algo que vemos hoje.
Numa sociedade em que toda masculinidade é tóxica, os meninos acabam não se sentindo com um espaço e despertam o pior deles, que é a competitividade e agressividade. Esses comportamentos geram situações de violência em ambientes escolares e outros, porque não existe uma forma adequada de orientar o homem sobre como se portar. Muitas vezes, por serem mais impulsivos e por questões da própria adolescência, os meninos acabam se comportando de forma inadequada por não saberem os limites dos ambientes.

