“Me sinto cansada, mas sei que, ao orientar corretamente as pessoas, fazemos a diferença”

Entrevistamos uma infectologista que está na linha de frente do trabalho de tratamento e contenção da pandemia do Coronavírus e ela conta como foi sua mudança de rotina

 
Por Regina Fiore Ribeiro- São Paulo
 
Quem cuida de quem está cuidando de nós? Esta pergunta tem pairado sobre as cidades mais atingidas pela pandemia do novo Coronavírus nos últimos tempos, principalmente com as medidas de férias adiadas e turnos intensos que os profissionais da saúde têm enfrentado. Todas as autoridades, mesmo as que discordam da medida de isolamento social, reconhecem a importância do trabalho de técnicos, enfermeiros, assistentes e médicos neste momento de fragilidade da saúde pública. 
 
É importante lembrar que tais profissionais não são máquinas de salvar vidas, são seres humanos que também estão sendo afetados pessoalmente pela crise atual e têm que se dividir entre o trabalho cada vez mais exigente e a preocupação com a família que tem atingido toda a população. 
 
Entrevistamos a infectologista Adriana Weinfeld Massaia, que trabalha no Serviço de Controle de Infecção Hospitalar da Santa Casa de São Paulo e ela nos contou como tem sido equilibrar a rotina intensa com as expectativas, dúvidas e medos da família, composta por 3 filhos pequenos – uma meninas de 5 anos e gêmeos de 2 anos e meio. Entre um plantão e outro, a médica conseguiu responder algumas perguntas sobre como o trabalho tem afetado sua vida pessoal e vice-versa.
 
Mulheres Jornalistas: O que mudou na sua rotina desde o início da pandemia? Vc fez mudanças que considerou necessárias tanto em casa quanto no trabalho?
Adriana Massaia: A mudança na rotina em casa aconteceu por causa das crianças, que estão afastadas e isoladas. Tentamos estabelecer alguma rotina e cumprir as tarefas propostas pela escola. O trabalho no hospital mudou bastante. Além do habitual, todos os esforços estão direcionados à contenção da pandemia. Quando estou em casa, ainda fico à disposição no celular.
 
MJ: Quais são suas maiores preocupações nesse momento como mãe? E como médica?
AM: Como mãe, minhas preocupações são relacionadas aos estudos e à atividade física. No início, minha filha mais velha tinha muitas dúvidas sobre o que estava acontecendo. Aos poucos, fui explicando e conversando sobre as angústias dela. Com os menores, conversei apenas o que considerei que eles podiam entender.: Como médica, as preocupações são muitas: falta de equipamentos necessários, capacitação dos profissionais da saúde, superlotação dos hospitais e principalmente a gravidade dos doentes. 
 
MJ: Seu dia a dia ficou mais intenso? Você se sente mais cansada e sendo mais exigida por todos?
AM: Ficou muito mais intenso! Me sinto cansada, mas sei que, ao orientar corretamente as pessoas, nós fazemos a diferença.
 
MJ: As pessoas recorrem a você em grupos de whatsapp ou outras redes? Como você faz para aliviar um pouco o estresse contínuo que tem sido no seu trabalho e no dia a dia, com tanto informação sobre a pandemia?
AM: Claro! E eu respondo na medida que consigo. Penso que informar corretamente é a melhor forma de acalmar as pessoas. Mas é difícil aliviar o estresse, me cobro muito para fazer tudo certo e da melhor maneira. A melhor forma de escape para mim ainda é fazer exercícios físicos. 
 
MJ: Você tem momentos para “desligar”, ou seja, fazer coisas que não estão relacionadas a isso? A rotina tem permitido esse tipo de momento?
AM: Não consigo me desligar. Além do hospital e da minha casa, me preocupo com meus pais e minha avó, que estão isolados.
 
MJ: Você teve que mudar planos em relação às férias ou algum plano pessoal por exigência da situação?
AM: Sim, íamos viajar com a família em abril, no meu aniversário, mas precisamos cancelar.
 
MJ: Empatia é fundamental nesse momento. O que você gostaria de pedir para a população para ajudar os profissionais da saúde a atravessarem esse período difícil com mais suporte e tranquilidade?
AM: Pediria para as pessoas procurarem informações verdadeiras. Aos profissionais de saúde, principalmente do setor público, que tem menos recurso, pediria que trabalhassem em parceria para que tais recursos não faltem a nenhuma equipe.
 
MJ: Como mulher, como isso tem afetado sua vida pessoal?
AM: Minha cabeça não para um minuto. Preciso conciliar trabalho, filhos, marido, familiares, amigos e ainda as informações, que mudam a cada dia. São muitas incertezas!
 
Para finalizar, lembramos a importância do isolamento social para quem puder permanecer em casa, em qualquer idade. Para os grupos de riscos, como os idosos e pessoas com problemas respiratórios ou cardiovasculares, o cuidado deve ser redobrado. Cada pessoa também pode ajudar os profissionais da área da saúde, fazendo sua parte e cuidando de si. 

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