Livro de infância no exílio: Vozes banidas pela ditadura militar

Livro reúne depoimentos de 46 brasileiros que viveram a infância no exílio após serem banidos pela ditadura militar
O livro reúne depoimentos de filhos e filhas de militantes e intelectuais de esquerda que foram perseguidos, presos, torturados e assassinados pela ditadura militar no Brasil. São histórias inéditas, sensíveis e humanas, contadas por 46 brasileiras e brasileiros que eram crianças durante o regime militar. As narrativas mostram como essas infâncias foram vividas longe do país de origem e revelam também como os militares brasileiros trataram essas crianças nesse período.
Algumas delas foram trocadas por diplomatas capturados pela resistência armada, outras nasceram no exterior e sequer conseguiram ser registradas como cidadãs brasileiras em embaixadas. Há ainda aquelas que foram levadas para fora do país para não serem mortas ou desaparecidas, como ocorreu com seus pais.
“Crianças e exílio é um livro impactante, que provocará um forte solavanco na história brasileira desse período sombrio e violento (…). Hoje, deixam para trás um retiro maldito e inscrevem seus nomes na história do Brasil”, afirma o jornalista e escritor Eduardo Reina, autor da introdução.
A apresentação de capas é assinada pelo jornalista Caco Barcellos:
“Crianças e Exílio, em síntese, é um livro sobre odisseias individuais de pessoas que foram condenadas a viver sem pátria e que, unidas nesta obra, decidiram romper o silêncio sobre os segredos de sobrevivência nos ambientes de gente conservadora e de profunda rejeição ideológica”, resume.
No prefácio, a psicóloga Vera Vital Brasil, integrante do Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação, destaca:
“O silenciamento que se impôs pela violência ditatorial reverberou nas famílias perseguidas (…) e esta marca do silêncio forçado atravessou grande período de suas vidas”.
“Este livro mantém viva a memória sobre um dos períodos mais cruéis e sangrentos da vida política do Brasil. Sob outro olhar, traz à tona lembranças do arbítrio, perseguição, tortura, morte e suas consequências sobre os brasileiros e a sociedade”, reforça Eduardo Reina na introdução.
Rompendo o silêncio
A obra é organizada pelas professoras Helena Dória Lucas de Oliveira e Nadejda Marques, que também assinam capítulos. Elas lembram que muitas crianças presas e torturadas não conseguiram escrever suas histórias, mas fazem parte do grupo de 66 crianças banidas pela ditadura.
“Este livro é um resgate histórico. O exílio sempre foi romantizado, mas para nós foi uma violência sem igual. Mais uma atrocidade cometida pelos militares brasileiros durante a ditadura”, afirma Nadejda.
A professora Helena acrescenta:
“São histórias das crianças que nunca foram contadas. Tem gente que ainda tem medo de falar e não quer ter o nome publicizado”.
O registro dessas memórias retira essas pessoas do silêncio e apagamento impostos pela censura e pelo medo. O exílio forçado transformou-se num tempo congelado de vida: isolamento da família, dos parentes, do país e da rotina — especialmente cruel para as crianças, como demonstram os depoimentos.
Crianças subversivas, miniterroristas, apátridas, banidas
O degredo produziu sentimentos profundos de culpa, perda de referências e de sentido, pois o Estado militar brasileiro considerava essas crianças subversivas, miniterroristas, apátridas, banidas — quando, na verdade, eram vítimas de um sistema totalitário fugindo da morte e acompanhando suas famílias.
As consequências psicológicas foram severas. Os relatos, apresentados com simplicidade e crueza, mostram fatos reais da vida desses pequenos cidadãos considerados persona non grata pela ditadura.
Essas crianças viveram em diversos países. Fugiram das consequências do golpe militar no Brasil, mas enfrentaram golpes e instabilidades em países como Argentina, Chile e Guiné-Bissau. Tiveram de lidar com outras culturas, barreiras linguísticas, falta de emprego, ausência dos pais e dos familiares, distância dos amigos e ausência de qualquer governo que as protegesse.
Ainda assim, se autoajudaram, reconstruíram a vida no exterior e, em muitos casos, retornaram ao Brasil — um país que mal reconheciam. Reinventaram-se e hoje representam exemplos de persistência e lealdade ao país, valores que os militares pregavam, mas não praticaram.
Autores
Daniel Souza, Claudia Lamarca, Tatiana Piola, Nadejda Marques (coord.), Cybelle Mendes, Flavia Quintiliano Verri, Silvia Sette Whitaker Ferreira, Marta Nehring, Camila S. T. Bianchi, Ângela Telma Lucena Imperatrice, Adilson Oliveira Lucena, Denise Oliveira Lucena, Jana Eleonora Branco d’Avila, Dora A. Rodrigues Mukudai, Nadia Bambirra dos Santos, Guilherme Gitahy de Figueiredo, Andréa Curtiss Alvarenga, Marina Curtiss Alvarenga, Danilo Curtiss Alvarenga, Marcia Curi Vaz Galvão, Luis Carlos Max do Nascimento, Zuleide Aparecida do Nascimento, Isabella Thiago de Mello, Anacleto Julião de Paula Crêspo, Alexina Lúcia Calle de Paula, Álvaro Silveira Faleiros, Licia Maciel Hauer, Mirian T. Leonardo, Isabel Maria Gomes da Silva, Gregorio Gomes da Silva, Elisa Diniz Reis Vieira, Antônio Carlos Borges Cunha, Rogério Tosca, Natalia Trajber, Tamara Keller Soliz, Andiara Cobério Terena, Luciana Capiberibe, Camilo Capiberibe, Artionka Capiberibe, Ana Amélia de M. C. de Melo, Mario de Toledo Sader, André de Toledo Sader, Alexandre Guimarães Antunes, Antônio Dória Lucas de Oliveira, Helena Dória Lucas de Oliveira (coord.), Ñasaindy Barrett de Araújo.
Serviço
Lançamento nacional do livro
Crianças e exílio – Memórias de infâncias marcadas pela ditadura militar
Carta Editora, 2025, 344 páginas, R$ 85,00.
Contatos
Carta Editora
Site: www.cartaeditora.com.br
E-mail: cartaeditora@gmail.com
Whats/fone: (51) 99125.2565

