Halston e a ressignificação do luxo

Por Ana Luiza Timm Soares

Editora Chefe: Letícia Fagundes, Jornalista

Recentemente estreou na Netflix a série Halston, que conta a história do polêmico designer norte-americano de mesmo nome, o qual contribuiu indelevelmente com transformações no modelo de negócios do segmento fashion. Embora a minissérie tenha um foco importante na vida de excessos do estilista, acompanhando suas noitadas regadas a muito álcool, sexo e cocaína, neste texto gostaria de falar um pouquinho sobre sua carreira e as reverberações e conexões desta com a Moda atual.

Atento ao espírito do tempo, o inicialmente criador de chapéus percebeu rapidamente a queda de vendas do produto e passou a diversificar sua produção incluindo coleções de roupas; e depois de algum tempo também perfumes, malas de viagem, roupas de cama, acessórios, tapetes entre outros bens de consumo.

Halston alcançou a fama ainda como chapeleiro, quando Jacqueline Kennedy vestiu uma de suas criações – o modelo pillbox – na posse presidencial do marido, em 1961.

Buscando permanecer em voga, o designer passou a lançar coleções de roupa femininas bastante inclusivas para o período: peças confortáveis, versáteis e com poucas costuras, cuja modelagem vestia os mais diferentes biótipos e que garantiram o sucesso de Halston ao longo das décadas de 1960/70. Essa característica fica evidente em uma das cenas série, na qual determinada vendedora da maison comenta que seu corpo é a maior vitrine para as peças – a personagem é obesa e na cena veste um caftan belíssimo assinado pelo estilista. Além disso, o mesmo celebrava a diversidade em seus desfiles-espetáculo trazendo um casting plural (chamadas de Halstonettes), algo incomum para a época.

Visando alcançar um público mais amplo, o designer assina contrato com as indústrias Norton Simon, ampliando suas linhas de produtos e sua fortuna. Em princípios da década de 1980, Halston se torna o primeiro criador de moda americano a lançar uma coleção de baixo custo junto a rede de lojas de departamento JCPenny, popularizando o uso de suas peças para a sociedade em geral.

Sem querer dar spoilers, (mas já o fazendo) aqui inicia um mudança importante na carreira do estilista, já que as empresas de luxo viram nesta atitude a “vulgarização” de Halston e se recusaram a continuar comercializando a marca, dando início à derrocada deste personagem tão polêmico no mundo da Moda. Por outro lado, a indústria que tanto celebrou a inclusão do luxo no cotidiano de um maior número de sujeitos acabou por engolir a criatividade do designer, que de criador passou a ter o papel de reprodutor de tendências, estas cada vez mais efêmeras. E é justamente aqui que gostaria de dar uma guinada na nossa conversa, fazendo o caminho contrário ao de Roy Halston Frowick.

É claro que a divulgação de grandes nomes através das fast fashions é algo a ser celebrado no cenário contemporâneo, pois torna a Moda mais acessível e democrática à todes. Mas o que, de fato, significa lançar uma coleção nova a cada semana? Aliás, será que precisamos de tanta roupa? Compramos de forma consciente ou nos deixamos levar por preços (cada vez menos) sedutores inflando o guarda-roupa com tendências que sequer combinam com nosso estilo?

Aqui há dois pontos importantes a serem discutidos: a atuação dos designers e a sustentabilidade do planeta em que vivemos. Embora seja muito difícil competir com os valores praticados pela grande indústria e sua forma de produção em massa, te convido a olhar com mais carinho para aquela pequena marca que está começando no mercado, apostando em uma produção mais ética e baseada nos princípios do fair trade. Vamos conferir algumas?

A BemTiVi acredita que a produção slow de peças minimalistas e atemporais minimiza o desperdício e descarte antecipado das roupas, criando looks confortáveis e práticos para serem aproveitados por muitos anos sem perder o estilo. Também a ALA Sob Medida desacelera seu processo produtivo e cria roupas que se ajustam aos mais diferentes corpos e de forma personalizada, imprimindo a identidade da designer junto ao gosto do cliente. Já Wendyel Borin designa novos usos para matérias-primas que iriam para o descarte, trabalhando com o método de upcycling de peças de alfaiataria vintage, ressignificando o conceito e transformando-as em roupas contemporâneas e cheias de atitude.

O legado de Halston vai além de seus milhões – sejam ganhos ou perdidos. É necessário reconhecer que luxo mesmo é valorizar nossos profissionais e contribuir para um futuro economicamente viável, socialmente ético, politicamente consciente e ecologicamente possível. É acreditar na sustentabilidade em todos os seus pilares.

Até a próxima!

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