Globo de Ouro é acusado de corrupção

Os responsáveis receberiam suborno em troca de indicações e premiações

Por Giulia Ghigonetto
giulia.ghigonetto@mulheresjornalistas.com

O Globo de Ouro, evento que abre a temporada de premiações, se envolveu em um escândalo de corrupção por atos irregulares da Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPQ), grupo de 87 jornalistas internacionais que organiza a cerimônia. 

Em novembro de 2020, a jornalista norueguesa Kjersti Flaa moveu um processo julgado improcedente por um juiz federal de Los Angeles, o que foi o suficiente para abalar as estruturas da premiação. Ela acusava a associação de criar uma suposta “cultura de corrupção”, que barra a entrada de alguns profissionais no comitê e aceita milhões de dólares de estúdios, canais e celebridades para quem entregam os prêmios em troca de silêncio. 

Mesmo que tenha sido arquivado, o processo foi endossado por membros que esperavam por mudanças. “A derrota foi decepcionante”, disse um jornalista da associação que preferiu não ser identificado. “Eu pensei que isso iria abalar as coisas. Somos uma organização arcaica, e ainda acho que o HFPA precisa de pressão externa para mudar”. 

O jornal Los Angeles Times expôs que integrantes e ex-integrantes da HFPQ aceitam viagens luxuosas, estadas em hotéis cinco estrelas, jantares, presentes e convites a festas badaladas em troca de nomeações às estatuetas. 

Foram ouvidas mais de 50 pessoas, com acesso a documentos fiscais e e-mails que apontam que, apenas no final do ano passado, a entidade pagou aos seus membros US$ 100 milhões para que assistissem filmes específicos, fizessem viagens a sets de filmagem e participassem de entrevistas. “Se a Associação está pagando a seus membros por esses serviços, ela deve estar recebendo serviços de valor proporcional, que beneficiem os interesses da indústria”, disse o advogado Douglas Varley ao jornal. “Associações como essa existem para benefício da indústria e não para benefício dos membros”, complementa.

O contrato do Globo de Ouro com a emissora NBC, na qual é televisionada, também garante milhões de dólares aos membros. Em 2020, eles receberam US$ 27,4 milhões, cerca de R$ 150 milhões, pelos serviços prestados. Além disso, como é uma organização sem fins lucrativos, ela é isenta de impostos, o que alimentaria uma estrutura de sonegação.

De acordo com a Lei das Comunicações de 1934 dos EUA, a prática de lobby, isto é, receber pagamento para promover um serviço em um meio de comunicação, é proibida. Em 2011, a HFPA já foi processada por aceitar pagamentos de estúdios para garantir indicações ao prêmio. 

Em 2019, 30 membros da associação ficaram hospedados em um hotel cinco estrelas em Paris para acompanhar as filmagens da série da Netflix “Emily in Paris”. A produção recebeu críticas medianas e até foi alvo de discussão por retratar os franceses com uma série de estereótipos, mas, mesmo assim, o seriado recebeu duas indicações ao Globo de Ouro, enquanto obras elogiadas foram esnobadas pelo prêmio. “Fomos criticados e com razão. Aquela série não é uma das melhores de 2020. Isso é um exemplo de como precisamos de mudança. Se não fizermos isso, continuaremos a ser criticados”, apontou um membro.

Vale lembrar que o prêmio vem sido visto como duvidoso há tempos em razão da sua credibilidade. Para melhorar sua imagem, a associação passou a doar dinheiro para diversas causas, como bolsas de estudo voltadas a arte e cinema, mas isso não impediu que os jornalistas continuassem ganhando uma grande quantia. 

A HFPA desembolsa cerca de US$ 100 mil (R$ 600 mil) mensalmente para pagar membros de diferentes comitês, o problema é que uma pessoa pode estar em vários ao mesmo tempo. Também são pagos R$ 19 mil para cada um dos 24 membros do comitê de filmes estrangeiros para assistirem aos longas, R$ 17 mil para cada um que escreve cerca de oito artigos para o site e R$ 43 mil para três membros que organizam o jantar anual da associação. 

Outro documento, de 2017, que o jornal teve acesso mostrou que a indicação e a vitória de um filme às categorias principais poderiam render de US$ 20 mil a 30 mil em bônus aos membros do HFPA. 

Os responsáveis pelo Globo de Ouro negaram as acusações de corrupção e afirmaram que há nenhuma prova, que “nenhuma dessas alegações foi comprovada em tribunal ou em qualquer investigação” e que “simplesmente repetem velhas noções sobre a HFPA e refletem preconceito inconsciente contra os seus diversos membros”. 

A cerimônia acontece neste domingo (28) e será televisionada no Brasil pela TNT, a partir das 22h. 

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