Geração NoMo: nem todas mulheres querem ser mães
Ginecologista tira dúvidas sobre funções do útero, prazer feminino e métodos contraceptivos
 
Por Clara Maria Lino- Rio de Janeiro
 
Atriz Jennifer Aniston no papel de Rachel na série Friends

Meninas são educadas desde muito novas a entender o valor da maternidade. Para muitos, uma mulher só é considerada “alguém” se for mãe. Um exemplo deste fato é o da atriz Jennifer Aniston. Jennifer não tem filhos. A eterna “Rachel” de Friends tem uma trajetória excepcional no cinema. Ao fazer uma simples pesquisa sobre a carreira dela nos sites de busca, o termo ”Jennifer Aniston filhos” está logo abaixo da busca pela carreira da celebridade. Isso espelha a pressão que ela e diversas mulheres sofrem diariamente por não serem mães.

 
Nos Estados Unidos, país de origem da Jennifer, 47% das norte-americanas com idades entre 15 e 44 anos não são mães. Já no Brasil, o último censo realizado em 2010 aponta que 14% das mulheres não têm planos de engravidar. Um estudo recente realizada pela farmacêutica Bayer com apoio da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e do Think about Needs in Contraception (TANGO) afirma que 37% das mulheres no Brasil não querem ter filhos.
 
Dentre as justificativas para este comportamento destaca-se falta de vocação, a carreira, questões de sustentabilidade, vida financeira, dentre outras. Mas a questão é: precisa de motivo para não querer ser mãe? É completamente possível ser uma profissional de sucesso, ter filhos e até mesmo optar por cuidar da casa, da família. O objetivo deste texto não é julgar nenhuma escolha e sim questionar o que é imposto às mulheres. Afinal, nem todas nasceram para serem mães. A geração NoMo (sigla para o termo inglês “Not Mothers” que significa “Não Mães”) reivindica “o respeito de uma sociedade fundamentada na absurda crença de que uma mulher tem de dar à luz pelo menos uma vez na vida”. A responsável por esse argumento é a associação britânica Gateway Women, defensora da causa e indispensável para a popularização desta ideia.
 
A estudante Alessandra Rufino relata que não sente a necessidade de conhecer o amor de mãe assumindo este papel. Quando criança brincava com bonecas, mas foi na adolescência que aos poucos chegou a conclusão que não tinha vontade de ser mãe. A brasiliense também afirma em entrevista para esta reportagem que não gostaria de gerar uma pessoa que dependerá dela por tanto tempo em todas as vertentes da vida (financeiro, emocional,etc). “Cada vez mais eu percebo que não lido bem com determinadas faixas etárias da infância. Simplesmente não sei como me comportar com crianças. Eu gosto de admirá-las como gosto de admirar todos os filhotes de mamíferos. Mas não tenho vontade de ter uma pra mim.”
 
Diferente de Alessandra, Paula Andretta nunca teve vontade de ser mãe. O motivo, a trader informa que não sabe ao certo se por experiência com crianças quando ainda na infância ou falta de vontade de ser mãe. “Apesar de ter o maior amor do mundo pelo meu sobrinho e até levar certo jeito com ele, não me vejo sendo mãe. Confesso que existe uma pressão por conta da minha família e isso me deixa bem magoada. Ter um filho, além de ser uma enorme responsabilidade, não se encaixa no estilo de vida que quero ter.”
 
A repórter que produziu este conteúdo entrevistou a médica Rebeca Hatherly, formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rebeca é ginecologista e obstetra pelo Hospital Federal da Lagoa na mesma cidade e responsável pelo @ginecoesexualidade, página do Instagram em que compartilha conhecimentos sobre sexualidade humana. Na entrevista a médica tira dúvidas sobre as funções do útero, prazer feminino e métodos contraceptivos para mulheres que não querem ser mães.
 
MJ- Quais são as funções do útero?
Rebeca- O útero tem a função de nutrir e abrigar o feto durante toda a gestação. Primeiramente, o óvulo fertilizado se implanta no endométrio (camada que reveste o útero por dentro) e é nutrido através de vasos sanguíneos localizados nesta região. Com o passar das semanas, essa nutrição se torna cada vez mais complexa, através da placenta.
 
MJ- O útero serve APENAS para abrigar um feto? O órgão tem alguma função no prazer feminino?
Rebeca- A função biológica do útero é permitir a formação e abrigo do embrião. Algumas mulheres apresentam a região do colo do útero mais sensível e relatam que sentem prazer quando ele é estimulado, podendo inclusive alcançar o orgasmo.
 
MJ- Quais são as regiões do Sistema Reprodutor Feminino que dão prazer?
Rebeca- Primeiro vamos pontuar o que faz parte do sistema reprodutor feminino. Nós dividimos esse sistema em dois grupos, de acordo com a embriologia: genitália interna e genitália externa.   Os órgãos internos são as tubas uterinas, útero e os 2/3 superiores da vagina. Já os órgãos externos são 1/3 inferior da vagina, clitóris, pequenos e grandes lábios. Geralmente, a genitália externa está mais ligada ao prazer, mas algumas mulheres também tem a sensação de prazer ao ter o fundo da vagina e região do colo uterino estimulados durante o sexo.
 
MJ- Como pode ocorrer o prazer feminino durante a atividade sexual?
Rebeca- A verdade é que isso vai depender de cada mulher. Existem inúmeras áreas erógenas em nosso corpo e não estão necessariamente restritas ao nosso sistema reprodutor. Basicamente qualquer área que é sensível, quando adequadamente estimulada, pode gerar prazer. E outra área importantíssima nesse jogo é o cérebro! Por mais erógena que seja uma região do corpo, se a mente estiver bloqueada para o estímulo, não teremos prazer.
 
MJ- Por que mulheres sentem menos prazer que os homens durante a atividade sexual?
Rebeca- Como expliquei na pergunta anterior, para sentirmos prazer, a mente tem que estar aberta a isso. E infelizmente, ainda vivemos em uma sociedade muito opressora que tende a ligar o sexo ao sujo, ao errado, ao pecado. Sem contar a pressão estética que as mulheres sofrem para se encaixarem no “corpo perfeito”. Toda essa bagagem é levada pra cama e quando a mulher está mais focada nos seus “defeitos” e no quão “errado” é se jogar no sexo, nada flui. Por isso estou sempre levantando a bandeira da masturbação! É a melhor forma da mulher se conhecer, ganhar confiança, se aceitar e ter a consciência do poder que há nela mesma para sentir prazer e até chegar ao orgasmo.
 
MJ- Como as mulheres que não querem ser mães podem se proteger do risco de engravidar?
Rebeca- O único método contraceptivo que confere 100% de proteção à mulher é a abstinência sexual, infelizmente. De resto, qualquer outro método tem sua taxa de falha. O índice de Pearl é uma fórmula que calcula o percentual de mulheres que engravidam a cada 100  que usaram o método por ano. Esse número nos dá essa ideia e pela OMS (Organização Mundial da Saúde), para considerarmos um método como eficaz, esse índice deve ser menor que 1.
Os métodos que se enquadram nisso são: DIU de cobre, sistema intrauterino com levonorgestrel, pílulas anticoncepcionais, injeções hormonais, adesivo transdérmico, anel vaginal, implante subdérmico e métodos cirúrgicos.
 
MJ- Quais são os benefícios do sexo seguro?
Rebeca- Quando o sexo é praticado de maneira responsável e com segurança pode trazer diversos benefícios físicos e psíquicos para os praticantes. Gera maior ativação da circulação sanguínea, melhora a qualidade de sono, exercita a musculatura pélvica, alivia algumas dores (cólicas menstruais, dores de cabeça, nas articulações). Além disso, faz muito bem para a saúde mental, alivia o estresse, aumenta a auto-estima, melhora o humor e traz a sensação de relaxamento ao indivíduo.

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