Por Regina Fiore, Jornalista
Diretora de jornalismo: Letícia Fagundes, Jornalista
Chefe de reportagem: Juliana Monaco, Jornalista

Falar sobre sonhos depois dos 30 pode parecer bobagem, a não ser que seja para seu analista. E quem é que roubou de nós o direito sagrado de sonhar?

Reclamações geralmente dão mais audiência do que elogios. Notícias ruins chegam muito mais rápido do que as notícias boas. Tragédias e desgraças dão muito mais Ibope do que conquistas e realizações. Como um ser humano parte da cultura contemporânea, estou ciente de tudo isso. Mas hoje quero falar sobre uma ambiguidade: os sonhos.

Não faz muito tempo que ouvi o podcast Greg News, apresentado pelo Gregório Duvivier, cujo tema principal eram sonhos. E gostei da divisão que ele fez, por isso vou copiar. Nada se cria, tudo se copia – inclusive esse jargão foi copiado do Chacrinha, que já estava parafraseando o químico Lavoisier. 

Primeiro, quero falar dos sonhos que temos quando estamos dormindo. Duvivier me chocou ao dizer que ninguém gosta de ouvir os sonhos dos outros. Eu adoro ouvir o que a mente maluca das outras pessoas criou durante a noite – gosto de interpretar sonhos alheios tenho muitos sonhos sem pé nem cabeça que misturam as coisas que vivi, as minhas paranóias, as coisas que eu nem vivi, as coisas que eu vi em algum filme e outras coisas que eu nem sei de onde vieram. 

Freud explica, mas quem canta a bola são os sonhos 

Descobri, enquanto pós-graduanda de psicanálise, uma questão interessante: quanto mais estranho o sonho, mais questões recalcadas você tem. O sonho é uma das maneiras, mas não a única, de escape do recalque (palavra usada por Freud para definir todos os impulsos que não podemos realizar e, por isso, guardamos intimamente – ou seja, recalcamos), que, por sua vez, é o que nosso superego usa como método para que possamos viver em sociedade e controlar nossas pulsões – um jeito bem básico de resumir a obra de uma vida de Sigmund Freud.

Os sonhos usam de dois métodos para criar as imagens e histórias que nos ocupam todas as noites: condensação e deslocamento. São estes mecanismos que deixam nossos sonhos absurdos, onde estamos na casa da nossa avó, mas nossa avó na verdade é um tamanduá bandeira e a casa é a sala do seu chefe num zoológico e você está pelada no meio de uma reunião. 

Antes de Freud, muitos povos já usavam os sonhos como referências para tomar decisões cruciais sobre o destino das pessoas, começar ou encerrar conflitos, avançar em territórios inimigos. Em alguns lugares, os sonhos eram vistos como profecias do que estava para acontecer ou agouros de morte que paralisavam reis e imperadores e adiavam grandes guerras. 

Compositores famosos como Paul McCartney já contaram em dezenas de entrevistas que acordaram com músicas inteiras já prontas em suas mentes depois de sonhar. Salvador Dalí acordava e já ia para seu ateliê, pintar para não esquecer o que sonhou. Se tornou o grande expoente do movimento surrealista, mas em 1934 foi expulso do movimento por apoiar a ditadura de Franco, portanto acho que é possível concluir que ele era mais doido do que gênio

Durante a pandemia, dezenas de estudos foram feitos em torno dos sonhos das pessoas, que mudou muito dentro do cenário de isolamento social, número crescente de mortes e o medo que se instaurou desde março de 2020. Os sonhos sempre foram importantes para a humanidade, e continuam sendo. Alguns neurologistas, no entanto, questionam a teoria de Freud de que os sonhos querem nos dizer alguma coisa. Defendem que são só um amontoado de imagens aleatórias que nosso cérebro processa enquanto dormimos. 

Fim das utopias: caiu o muro (e Bial estava lá)

Também existe o sonho que definimos como um objetivo futuro, mas ultrapassa a natureza do que é objetivo ou meta, tem um lado muito mais subjetivo, que envolve emoção, sentimento, que faz nosso coração bater mais forte. Eu diria que os sonhos são os verdadeiros motores do nosso dia-a-dia. Acho bem difícil que sete bilhões de pessoas acordem todos os dias para perseguir metas. Não, mesmo que estejamos em diferentes contextos, acho que são os sonhos que mantêm a chama da vida acesa em nós. 

Tem sido difícil sonhar, no entanto, principalmente no Brasil em que vivemos – vamos ver se em Outubro deste ano voltamos a ver a estrela no fim do túnel brilhar. Muitos pesquisadores acreditam, por exemplo, que o Planeta Terra está condenado e, em algumas dezenas de anos, vai deixar de ser habitável. Como diria o personagem do Anjo Gabriel, em Constantine (meu repertório é vasto, mas nem sempre qualificado): vamos morrer pelo que fizemos da vida e vamos para o inferno pela vida que levamos. 

Tem sido difícil sonhar. Parece que o mundo que vivemos é como é, e acabou. Parece que não existem alternativas viáveis ao que somos hoje, ao modo como escolhemos viver. Temos a impressão constante que já chegamos no topo dos caminhos possíveis, agora é só ladeira abaixo. Isso é só uma impressão (e existem várias pesquisas sobre o assunto, recomendo o livro Realismo Capitalista, do Mark Fisher, para quem gostaria de saber mais sobre o assunto).

Tem sido difícil sonhar até mesmo em nossas individualidades. Se no cenário macro não há o que fazer e é inútil sonhar com um modelo de sociedade mais justa e menos desigual, no nosso mundo dentro deste mundo também não é muito diferente. Estamos cada vez mais conformados com a vida que vivemos e com a vida que os outros vivem, muito mais propensos a aceitar o incômodo do que direcionar energia para a transformação. 

É muito importante que a gente entenda que a falta de sonhos individuais é reflexo da possibilidade de sonhar com um mundo melhor e, dessa forma, com vidas melhores para nós e para quem nos cerca. Para quem tem menos de 40 anos, chegamos aqui e o mundo já estava pronto, esperando por nós. Foi como chegar em uma festa, encontrar um bolo de frutas cheio de chantilly enjoativo e ter que comer aquilo mesmo, porque já estava assim quando chegamos. 

O cenário todo da festa foi construído antes. Ou melhor, destruído – foi a partir da queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, que aconteceu esse fenômeno inédito até então: aceitar o mundo exatamente como ele é (Pedro Bial cobriu a queda do Muro de Berlim, acho importante destacar essa passagem – a mesma voz que nos disse para usar filtro solar narrou o fim simbólico das possibilidades de sonharmos com uma sociedade diferente desta em que vivemos hoje).

Sonhar faz parte do que temos de mais humano, na minha opinião. Mesmo eu sendo uma pessoa bem realista, pé no chão e pouco utópica, sonhar é sim o motor que deixa a brasinha da vida acesa dentro de mim. Conheço muitas pessoas que sentem o mesmo. Sonhar salva vidas e nos dá aquele impulso diário que as metas não dão conta de gerar. 

Para terminar com a energia lá em cima

Tem sido difícil sonhar, mas não é impossível. É só juntarmos nossos poucos sonhos com os sonhos de outras pessoas e ir costurando esses muitos sonhos até voltarmos a acreditar, com muita subjetividade, que é possível realizar mais do que realizamos até hoje (até porque, vamos combinar que em termos de sucesso como espécie, nós estamos bem longe do que seria o ideal). 

Muitas vezes não é possível realizar o que sonhamos, mas acreditar no sonho nos move para frente e é nesse caminho que vamos encontrando o que dá sentido de verdade para nossas vidas. Os sonhos podem até mudar ao longo do caminho, mas continuarão sendo o horizonte que pode nos proporcionar paisagens belíssimas, mesmo sendo entre trancos e barrancos. 

E, como já disse Raul Seixas, “sonho que sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade”, dedico este texto à minha grande amiga, Rafaela Carrilho, cujo sonho não deixa morrer a chama que existe nela para continuar vivendo – ainda que seja na força do ódio (como eu já disse, ódio também é combustível. Mulheres com ódio vão mudar o mundo – mais uma frase que copiei, uma síntese de um dos discursos poderosos da feminista negra Audre Lorde).

Para não deixar de fora o sonho da padaria, essa iguaria da culinária brasileira que adoça a tarde de tantas famílias e faz parte das nossas tradições, vou comprar um agora, fazer um cafézinho e saborear o pão macio, o recheio cremoso e o açúcar de confeiteiro caindo pelas minhas mãos. Sonhos me fazem voltar a ser criança – e me sujar como uma.

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