Luiza Esteves
Repórter Mulheres Jornalistas – RJ
 
Apesar de vivemos em uma chamada democracia, em que todos deveriam ser tratados como iguais e ter os mesmos direitos, não é bem isso que ocorre. Isso não seria diferente com o modelo eleitoral atual e o sistema de representação. A falta de um resultado expressivo do gênero feminino entre os modelos eleitorais, mesmo em países que adotam cota, ainda é um traço marcante.
 
Esse foi o tema tratado no artigo científico de Clara Araújo, professora e pesquisadora do programa de pós-graduação em Ciências Sociais da Uerj e coordenadora do Núcleo de Estudos em Desigualdades e Relações de Gênero. A professora descreve o cenário político do Brasil e debate sobre a dificuldade de se ingressar na carreira política.
Em sua pesquisa, ela argumenta que as chances das mulheres conseguirem se candidatar são menores em geral dada a desigualdade de gênero historicamente identificada, além da diferença de salários e de oportunidades. Somam-se a isso os custos de campanhas no Brasil devido às desigualdades socioeconômicas. E é justamente os recursos financeiros que influenciam não só o resultado eleitoral, mas também o processo de definição de candidaturas.
 
 
“Então no financiamento das campanhas há diferentes interesses e atores em disputa e participando direta ou indiretamente do jogo político. Esses ‘vetores’ estabelecem um tipo de relação ou interferência que envolvem as candidaturas, os partidos e também os governos e o Estado. Por isso, formas de intervenção que as tornem mais transparentes e democráticas seriam uma constante e um requisito a ser pensado.”, explica Clara Araújo.
 
Outro ponto importante da pesquisa é em relação à análise do sistema de cotas aplicado no Brasil. A tentativa de garantir o espaço das mulheres na política por meio dessa ferramenta não obteve resultados significativos. Entre 1994 e 2010, as chances das mulheres conseguirem uma cadeira na Câmara Federal em relação aos homens foi de 98,35% para 40, 63%. Ou seja, foram reduzidas em mais de 100%, num período de 16 anos e após 4 eleições com cotas.
 
“Na média, mulheres enfrentam um conjunto de obstáculos que antecipadamente limitam suas chances, e possuem menos redes de apoio financeiro, assim como estão menos em cargos, entre outros aspectos. Desse modo, quando ela consegue arrecadar mais de 1 milhão, ou quando já possuem tais recursos, conforme mostraram também é porque fazem parte de uma elite que passou por um filtro bastante estreito”.
 
Assim, para que as mulheres obtenham campanhas de sucesso dependeria da origem social, trajetória política e as redes sociais as quais estariam inseridas. No caso de mulheres que não possuem esses recursos é necessário repensar estratégias para garantir o acesso ao Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral, além de ações públicas dos movimentos das mulheres.

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