‘Capitã cloroquina’ dispara absurdos
Melissa Rocha – Jornalista – RJ
Editora-chefe: Letícia Fagundes

Depoimento de Mayra Pinheiro à CPI da Covid reflete o desgoverno no Brasil, com cargos importantes ocupados por pessoas totalmente desqualificadas para a função

Governos do mundo inteiro já entenderam que a hidroxicloroquina – popularmente chamada apenas de cloroquina – não é um tratamento eficaz contra a covid-19. Em contraponto, o Brasil segue rodopiando exaustivamente em torno do tema.

Recentemente, o debate veio à tona outra vez graças ao depoimento dado à CPI da Covid por Mayra Pinheiro, secretária do Ministério da Saúde, que é conhecida pelo sugestivo apelido “capitã cloroquina”.

Mayra é apontada como uma das grandes incentivadoras do uso do medicamento como tratamento precoce. Em seu depoimento, ela afirmou que a cloroquina tem “ação antiviral” e que o uso do medicamento pode reduzir mortes e internações.

A declaração vai na contramão das conclusões apontadas em diversos estudos científicos publicados em periódicos renomados, como a revista Nature. Ao que tudo indica, Mayra está alheia ao debate da comunidade científica global, o que é bem grave se for levado em conta que o cargo que ocupa. Mas não só isso. A declaração também contraria os próprios fabricantes do medicamento. Quatro das seis farmacêuticas que produzem a hidroxicloroquina no Brasil já se posicionaram contra o uso do medicamento para o tratamento da covid-19. E o motivo apontado por eles é que a cloroquina é um antiparasitário, não um antiviral. Ela tem ação contra doenças causadas por parasitas, como a malária. Mas é ineficaz contra doenças causadas por vírus, como é o caso da covid-19. Essa explicação, aliás, vem na própria bula do medicamento, que Mayra, aparentemente, nunca leu.

Mas a defesa da cloroquina não foi o único absurdo no depoimento de Mayra. Ela também defendeu a imunização de rebanho em crianças, e se queixou de que o fechamento das escolas impediu que os pequenos se contaminassem com o vírus para adquirir anticorpos. Isso mostra que, além de não estar familiarizada com temas da área em que atua, a saúde, Mayra também ignora a forma como o vírus afeta crianças. É sabido – também com base em estudos – que as crianças não têm a mesma vulnerabilidade que idosos para a covid-19. Mas isso nem de longe significa que elas estão imunes ou que não podem desenvolver quadros mais graves e letais da doença. Na verdade, até março deste ano, o Brasil era o país com mais mortes de crianças e bebês em decorrência da covid-19. Uma estimativa feita pela epidemiologista Fátima Marinho apontou que, entre fevereiro de 2020 e março de 2021, 2.060 crianças com menos de nove anos morreram em decorrência do vírus. Do total, 1.302 eram bebês.

Ademais, a possibilidade de desenvolver a forma grave da doença não é o único problema. Mayra também ignora que há adultos envolvidos na rotina de uma criança. Ou seja, uma criança contaminada, mesmo que escape de desenvolver a forma grave, é uma transmissora do vírus em potencial, que pode infectar o pai, a mãe ou irmãos. Por isso, defender a imunidade de rebanho para crianças não só as coloca em risco, como também auxilia no alastramento do novo coronavírus, que estamos, sob duras penas, tentando conter.

Permeado de falsidades e declarações deturpadas, o depoimento de Mayra à CPI acabou se tornando um triste retrato do desgoverno que comanda o país, com cargos criticamente importantes ocupados por pessoas totalmente desqualificadas para a função.

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