Por: Haline Farias, jornalista
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Chefe de reportagem: Juliana Monaco, jornalista
Diretora de jornalismo: Letícia Fagundes, jornalista

O uso medicinal da maconha ajuda no tratamento de diversas doenças e transforma vidas

O jovem carioca e morador de Juíz de Fora (MG) Luiz Felipe Bonati, 25 anos, teve sua primeira crise de convulsão aos seis meses após cair de testa no chão do colo do pai, conta Roseni Bonati, 56 anos, mãe do Luiz Felipe, também da Juliana e da Caroline. Ela relembra que o filho demorou a falar e andar, e teve algumas crises de ausência na infância, isso se dá pelas alterações no desenvolvimento neurológico causadas pelas convulsões. Aos 10 anos, Luiz teve outra convulsão, dessa vez desencadeada por um fator emocional: a separação dos pais. De lá pra cá foram muitas as crises que o jovem enfrentou por diversas causas: ansiedade, brigas, emoção, como quando seu time vence etc.

O rapaz que passa a vida refém, por nunca saber quando uma crise pode acontecer, viu nos medicamentos uma esperança.  Apenas um tipo de anticonvulsivante não é eficaz para controlar todos os tipos de crise epiléptica, cada paciente requer fármacos distintos e, algumas vezes, os pacientes precisam de vários fármacos. Raramente, um anticonvulsivante que funciona para um dos tipos de convulsão é capaz de agravar outro tipo. De acordo com uma pesquisa feita pelo psiquiatra, neurofisiologista clínico e professor clínico de neurologia na Universidade do Tennessee Health Science Center, Bob Adamolekun, um único fármaco, geralmente o 1º ou 2º experimentado, controla as crises epilépticas em cerca de 60% das pessoas. Mas se as crises forem de difícil controle desde o início, o que ocorre em 30 a 40% dos pacientes, eventualmente serão necessários dois ou mais fármacos. Já se as crises forem intratáveis (refratárias após um período adequado com dois ou mais fármacos), é preciso encaminhar os pacientes a um centro de epilepsia para determinar se são candidatos à cirurgia.

O primeiro medicamento que Luiz tomou foi o Gardenal e fez o uso por cinco anos, dos 10 aos 15 anos de idade. De lá pra cá, também utilizou o Depakene, Lamotrigina, Carbamazepina, Oxcarbazepina, Divalproato de sódio. Mesmo com uma lista extensa de fármacos, nenhum funcionava muito bem, além de terem causado gastrite e esofagite no Luiz, que mesmo medicado chegou a ter três crises em um único dia. A mãe, Roseni, sempre acompanhou de perto a luta do filho e buscou auxílio de profissionais para que ele pudesse ter mais bem estar na rotina. “Visitamos vários médicos, os melhores da região, mas nada trazia qualidade de vida ao meu filho […] Em todos esses anos, o Luiz sofreu diversas quedas graves em razão das crises, mesmo medicado a situação não melhorava […] Já teve vezes dele ter crises tão intensas que, ao acabar, ele ficava até dois dias com crise de ausência e deprimido, como ocorreu quando o pai dele faleceu.”

A esperança renasceu para mãe e filho quando uma colega de trabalho de Roseni comentou que a filha estava fazendo um tratamento de fibromialgia com o uso medicinal da cannabis, e que diversas outras doenças e condições também podiam ser tratadas com a planta. De acordo com professor e pesquisador vinculado ao Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Fabrício Moreira, o termo “Cannabis medicinal” é um conceito vago, já que podem ser elaborados diferentes produtos farmacêuticos a partir da Cannabis. “No Brasil, a ANVISA, que regulamenta a aprovação destes produtos, vem adotando o termo ‘produtos à base de cannabis’. Eles podem conter o Tetrahidrocanabinol (THC),  a principal substância ativa da cannabis, o Canabidiol (CBD) ou ambos.”

Junto ao Fabrício e mais alguns colaboradores, Isabel Vieira, professora adjunta do curso de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas de Três Rios (FCM/TR), realizou uma pesquisa, publicada em 2020 na revista Neuropharmacology, que verificou a ação do canabidiol na redução de crises epilépticas em animais submetidos a um modelo animal de Epilepsia do Lobo Temporal, o tipo de epilepsia que mais acomete adultos.

“A cannabis utilizada para fins recreativos apresenta alta concentração de D9-tetrahidrocanabinol (THC), o principal fitocanabinoide psicoativo da planta Cannabis sativa. Já a cannabis utilizada para fins medicinais apresenta altas concentrações de outros fitocanabinoides, tais como o canabidiol (CBD). Este apresenta inúmeros efeitos farmacológicos, tais como ansiolítico, antidepressivo, anti-inflamatório e neuroprotetor. Essa diferença nas concentrações dos constituintes da planta é obtida por alterações nas condições de plantio, como temperatura, umidade, iluminação etc”, explica Isabel.

Imagem: reprodução/Haline Farias

A procura de mais informações e ajuda, Roseni conheceu o médico Márcio José Martins, também professor associado da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) com experiência no Controle Social das Políticas Públicas, como representante da UFJF no Conselho Municipal da Política sobre Drogas (COMPID), que prestou toda a assistência para que Luiz pudesse ter acesso ao CBD. O jovem conseguiu através da ANVISA importar dos Estados Unidos a substância, que demorou 40 dias para chegar. Márcio explica que a chamada Cannabis medicinal é o extrato integral ou purificado preparado em farmácias de manipulação que vem diluído em óleo comestível, em concentrações padronizadas, de 1 a 5% de extrato puro por ml de óleo comestível, que serve para dar as gotas por via oral.

O médico comenta que os óleos importados são caros e limitados a produtos ricos em CBD, com menos de 0,3% de THC devido à lei do cânhamo nos EUA e na Europa, o que limita o uso medicinal, e com preços em torno de 500 dólares por mês. “Na prática, temos indicado os óleos das associações nacionais que obtiveram ordem judicial movida pelas parcerias de pacientes e terapeutas, e tem hoje uma federação de associações que, juntas, têm obtido avanços em alguns municípios e estados que já contam com leis municipais ou estaduais que regulamentam o uso da cannabis medicinal pelo SUS. O custo dos óleos nacionais é dez vezes menor do que o dos importados”. O médico acrescenta que a venda não é feita para qualquer pessoa, é só para aqueles com a receita entram em contato com uma associação para se associar.

Infelizmente, o CBD importado não funcionou para o Luiz Felipe, o que não o desanimou e nem a sua mãe, que foram em busca de tentar melhores resultados com o uso do THC. A segunda substância conseguiu trazer mais qualidade de vida para o jovem, que atualmente toma sete gotas do óleo junto a mais 3 fármacos. “Com o THC, passei a dormir melhor, ter um sono de qualidade, a frequência das minhas convulsões diminuiu, também acordo melhor […]”, conta Luiz animado.

Roseni relembra que teve muita dificuldade em encontrar profissionais abertos a prescrever o uso do CBD ou THC, pois estes não eram a favor, além de serem desafiadores os processos para conseguir acesso ao óleo. Toda a burocracia em razão da planta ser considerada proibida fez com que, desde 2015, surgisse um movimento social de mães e familiares de crianças com epilepsias refratárias que traziam o canabidiol contrabandeado, que junto com um grupo de advogados – da rede Reforma – fundaram as duas primeiras associações: a Associação Brasileira de Apoio a Cannabis (ABRACE) na Paraíba e a associação Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal (APEPI), no Rio de Janeiro. “Em 2018, a APEPI e a FIOCRUZ realizaram o primeiro simpósio no Brasil. Eu estive lá e, desde então, começamos a acolher aqui na UFJF os familiares de autistas que queriam trazer o Dr. Paulo Fleury, pioneiro no uso da cannabis no autismo, e eu fiz um projeto de extensão na UFJF para acompanhar os pacientes de cannabis do grupo Gappa”, comenta o médico Márcio.

Márcio afirma que tem visto bons resultados do uso da Cannabis na medicina também com autismo, epilepsia, ansiedade e depressão e insônia com doses baixas (4 gotas do óleo de 1 a 3%) de óleo integral rico em THC e CBD. “Funciona muito bem também para muitos tipos de dores crônicas e doenças neurodegenerativas como Alzheimer, Parkinson, Esclerose Múltipla, e já temos evidência que ajuda a curar vários tipos de câncer.”

As diversas pesquisas sobre o uso da cannabis medicinal, assim como a comprovação da sua eficácia contra muitas doenças e condições, têm transformado a medicina e muitas vidas. A pergunta “qual a importância da Cannabis na medicina?” é o que, segundo Fabrício, justamente o que ainda pesquisadores e médicos estão tentando responder e ele ressalta que “nenhuma abordagem terapêutica, seja à base de cannabis ou não, promove melhoras em todos os casos. Ou seja, precisamos entender quais são as doenças e pacientes que podem se beneficiar mais e pesquisar como desenvolver novos medicamentos à base de cannabis. Para isso, investimento em universidades, educação e ciência é algo absolutamente indispensável.”

Luiz conta com felicidade como a Cannabis proporcionou uma melhora em sua vida. Sua mãe se emociona e destaca como é importante que as pesquisas e tratamentos sejam divulgados, que mais pessoas saibam e tenham acesso às informações e às substâncias, pois seu desejo é que mais vidas sejam transformadas como a do seu filho, com mais leveza, qualidade de vida e saúde.

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