Bichos encantadores, donos exóticos

Por Rita Santos- Santa Catarina
rita.santos@mulheresjonalistas.com

Quando pensamos em animais silvestres acreditamos que o correto é que vivam livres e felizes em seu habitat natural. Mas, e quando a adoção é acidental ou então o único meio para o animal sobreviver?

Quando eu era pequena tive um coelho. Não me lembro mais o nome dele, nossa relação nunca foi muito próxima porque eu tinha muito medo dele. Ele era acelerado, comia sem parar, e eu tinha um pouco de aflição daquele monte de bolinhas que apareciam toda hora no cantinho dele. Ele foi doado para uma família com mais recursos do que a nossa para que fosse melhor cuidado. Cresci com o sonho de, um dia, quem sabe, perder o medo e conseguir dar um beijo na barriguinha fofinha de um coelhinho. Amo barriguinhas fofinhas, como as dos gatos. Porém, recentemente descobri que esse sonho nunca poderá ser realizado porque se virar o coelho de barriga pra cima ele entra numa espécie de transe, ou estado hipnótico, e não consegue se mover, e pode morrer. Terrível, não é mesmo?

Constatei que, assim como minha família, à época, outras pessoas podem imaginar que os cuidados com o bicho de estimação exótico são basicamente os mesmos que com os cães e gatos, afinal, o animal está domesticado. E, realmente, durante a produção dessa matéria ouvi várias histórias sobre pessoas que pegaram animais exóticos para criar e depois viram que “dão trabalho” ou morrem “do nada” porque não sabem bem como cuidar. 

A Dra. Rosangela Gebara, Médica veterinária e Gerente de Programas Veterinário na ONG International World Animal Protection, nos disse em entrevista que não é adequado adotar animal selvagem ou silvestre. Segundo ela é melhor termos em casa bichos como cães e gatos, pois já são domesticados e mais fáceis de lidar. Nem aves ela recomenda ter, visto que exigem cuidados veterinários diferenciados. Todavia, há quem prefira ter um bicho diferente, com o qual possa aprender, conhecer os hábitos e ver como vive. 

Me deparei com poucas pessoas que confessaram que gostam do que é inusitado e não se contentaria em ter um gato ou cachorro porque são vistos como pets tradicionais. A maioria me disse que não estava a fim de adotar um bicho exótico, e, em alguns casos, a pessoa só quis salvar o animal da morte, como no caso do coelho Alberto. Ele estava exposto em uma caixa de vidro em um restaurante prestes a ser comido. A dona dele, com pena, comprou o coelho, levou pra casa e desde então tem feito descobertas incríveis sobre a espécie, mas já colocou a vida dele em risco várias vezes, sem querer, claro.

A papagaia Rute foi encontrada sem as penas no meio de uma estrada no interior de São Paulo junto com seu irmão Zé, também sem as penas. Os dois caíram do ninho e foram adotados porque os donos ficaram sabendo que quando é assim eles são rejeitados pela mãe, e ficam pela sorte. A família que os adotara não quis arriscar e, na ocasião, há 11 anos, não tinham informações sobre as questões legais para ter esse tipo de bicho em casa. Já tentaram legalizar a situação, mas ficaram com medo de perder os pets e desistiram da ideia. Seguem cuidando deles, fazendo o possível para se manter informados sobre as necessidades e cuidados essenciais com as aves.

Também ouvi a história de um casal de hamsters, o Menino e a Menina, comprados porque a dona gostava de bichos mas não tinha espaço em casa. Sem a menor ideia de que um era macho e o outro fêmea, colocou os dois na mesma gaiola. Segundo ela, foi uma das piores experiências que teve na vida, pois eles começaram a se reproduzir e quase que simultaneamente começaram a morrer. Ela não sabia que eram bichos territorialistas, tampouco sobre a expectativa de vida deles. Aprendeu na prática, gastou dinheiro e ainda teve que perder o medo deles, depois de ser mordida pela Menina. “É um bichinho que tem a sua graça e é fácil de lidar. Se você souber como cuidar ele poderá ser seu companheiro, assim como um cachorro. Mas, comigo não deu certo”, conta. Essa não foi a primeira experiência com bichos exóticos, ela é da turma que não gosta do lugar comum. Na adolescência foi tutora da Mason, uma aranha herdada depois de um experimento em biologia que fez na escola. “Quem gosta de animais diferentes precisa desenvolver um canal de comunicação com o bicho. Se conseguir, ele poderá ser domesticado e conviver bem com você”, complementa a atual dona da cadela Catharina, da raça Cocker Spaniel.

A iguana Frank pertencia a um circo, e, para divertir o público, usava brincos e tinha os lábios pintados de vermelho. Após envelhecer, para não ser abandonada na rua, foi adotada por Pepe, e, segundo ele, os anos 90 era uma época em que as informações não eram tão acessíveis, então ele teve que se empenhar lendo livros em bibliotecas para aprender a cuidar do animal. Embora a iguana tenha sido roubada pela sua ex-namorada, que parou de gostar dele mas se apaixonou pelo bicho, ele acredita que ela foi muito bem cuidada depois que saiu do circo, e, finalmente, teve uma vida digna.

Esse tema entrou na minha agenda há dois meses, ou seja, desde que comecei a fazer parte desse coletivo. Ao mesmo tempo que eu queria comentar sobre a importância de deixar os animais silvestres e selvagens na natureza, que é o lugar deles, me deparei com histórias como essas, de que não necessariamente as pessoas agem com excentricidade e vão atrás de um bicho diferente, muitas vezes esses animais entram na vida das pessoas e essas, sem imaginar o trabalho ou o custo que terá com o animal, precisam aprender como cuidar e conviver com eles.

Não sou propriamente fã da ideia de que qualquer bicho que pode ser domesticado e viver em um ambiente que reproduz o seu habitat natural pode ser um pet, contudo, por acreditar que cada ser humano é único, dotado de consciência e possibilidade de fazer o que bem entender de sua vida, concordo que cada um tem o direito de ter o bicho de estimação que mais combina consigo. Mas, quando esse animal é um ser silvestre, que se dá melhor em seu habitat natural, recomendo que antes de comprar ou adquirir o bichinho, procure saber de onde ele vem, como ele foi transportado até você e se tem registro no Ibama, para evitar o comércio ilegal e a exploração de animais silvestres e selvagens. 

Sabemos também que a constante interação humana com o meio ambiente nos tem proporcionado maior contato com animais silvestres, e esse tipo de animal pode facilitar a disseminação de agentes infecciosos e parasitários. Sendo assim, se, por acaso, você se deparar com algum animal da fauna silvestre e quiser fazer algo por ele, antes de pensar em levar pra casa, procure o setor de manejo de silvestres e exóticos ou a polícia ambiental da sua região. É importante lembrar que a Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, tem o objetivo de reprimir e punir o comércio e o cativeiro clandestino de animais silvestres e exóticos. E, ainda, quem mantém animais silvestres sem permissão e os tenha adquirido de forma clandestina, pode entregá-los espontaneamente ao Ibama mais próximo e, conforme a legislação, não responderá por crime ambiental. E se houver suspeita de venda, criação ou reprodução de animais silvestres de maneira ilegal, ajude os órgãos de fiscalização a combater essas práticas ligando para o canal Linha Verde, no telefone 0800-618080.

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