Por Mariana Mendes, Jornalista –SP
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Tolerância contra preconceito tem sido cada vez menor dentro do esporte; Jogos Olímpicos de Inverno já se aproximam e terão mais equilíbrio de gênero

A tolerância do público esportivo está se mostrando cada vez menor em relação aos ataques preconceituosos vindos de atletas. Após inúmeros comentários ao longo dos anos, Maurício Souza, jogador da Seleção Brasileira e do Minas Tênis Clube, está sofrendo consequências pelos seus atos. Tudo aconteceu após a DC Comics anunciar que, em novo quadrinho do Super-Homem, o filho de Clark Kent e protagonista da história iria se assumir bissexual. Após a publicação da editora, o jogador fez um post criticando a representatividade. “É só um desenho, não é nada demais. Vai nessa que vai ver onde vamos parar”, escreveu Maurício.

A postagem agitou o mundo do vôlei, com colegas como Wallace e Sidão apoiando seu comentário. Douglas Souza, um dos destaques do Brasil nos Jogos Olímpicos de Tóquio e parte da comunidade LGBTQIA+, postou a mesma imagem, apoiando a decisão da DC.  “Engraçado que eu não virei heterossexual vendo os super-heróis homens beijando mulheres. Se uma imagem como essa te preocupa, sinto muito, mas eu tenho uma novidade pra sua heterossexualidade frágil. Vai ter beijo sim. Obrigado DC por pensar em representar todos nós e não só uma parte”, escreveu.

Após o assunto tomar a internet, com muitos atletas criticando Maurício e pedindo represálias em relação aos comentários, o fervor foi tão grande, que os patrocinadores do Minas pressionaram o clube, que soltou uma nota na noite de segunda-feira. “O Minas Tênis Clube está ciente do posicionamento público do atleta Maurício Souza, do Fiat/Gerdau/Minas. Todos os atletas federados à agremiação têm liberdade para se expressar livremente em suas redes sociais.”

“O Clube é apartidário, apolítico e preocupa-se com a inclusão, diversidade e demais causas sociais. Não aceitamos manifestações homofóbicas, racistas ou qualquer manifestação que fira a lei. A agremiação salienta que as opiniões do jogador não representam as crenças da instituição sociodesportiva. O Minas Tênis Clube pondera que já conversou com o atleta e tem o orientado internamente sobre o assunto”, finalizou o time.

Entretanto, a atitude não foi o suficiente para acabar com o assunto. A Gerdau, empresa que estampa a camisa do clube, foi às suas redes sociais apresentando apoio à comunidade LGBTQIA+ e repudiando os comentários do atleta. A Fiat, outra empresa patrocinadora, também pediu medidas cabíveis em relação ao caso, cobrando o Minas pelos posicionamentos preconceituosos de Maurício.

Após toda a repercussão, o clube mineiro emitiu uma nota declarando o afastamento do atleta, além de multa e necessidade de se retratar publicamente sobre o assunto. A retratação do Maurício foi feita apenas em seu Twitter, onde tem 50 seguidores, enquanto sua postagem homofóbica atingiu seus mais de 310 mil seguidores do Instagram. “Pessoal, após conversar com meus familiares, colegas e diretoria do Clube, pensei muito sobre as últimas publicações que eu fiz no meu perfil. Estou vindo a público pedir desculpas a todos a quem desrespeitei ou ofendi, esta não foi minha intenção. Tenho refletido muito e reitero minhas desculpas pelo posicionamento.”, escreveu.

De acordo com a apuração do Globo Esporte, o Minas Clube decidiu pelo afastamento indeterminado de Maurício, pela falta de clima para atuação, principalmente em um momento em que o time estreia na Superliga de Vôlei, uma das competições mais importantes do esporte no Brasil. Mesmo com a cogitação de rescisão do contrato, a diretoria decidiu pela multa e afastamento. A Confederação Brasileira de Vôlei não se posicionou publicamente sobre o assunto.

Entretanto, o afastamento e declaração não foi o suficiente para o jogador, que foi demitido do Minas Tênis Clube no fim da tarde de terça-feira. O clube rescindiu o contrato com Maurício Souza, sem grandes explicações nas redes sociais. Logo após a decisão do time, Renan Dal Zotto, técnico da Seleção Brasileira de Vôlei, fechou as portas para Maurício no time do Brasil.

Com o primeiro posicionamento de afastamento do atleta, Douglas Souza tinha desabafado em suas redes sociais,não convencido da punição. “O famoso não vai dar em nada né. Toda vez a mesma coisa, cansado disso de sempre ter falas criminosas e no máximo que rola é uma ‘multa’ e uma retratação nas redes sociais. Até quando? Feliz pelas empresas se juntando contra e triste por atletas tentar passar o pano nisso. Vergonhoso. Todos os dias, todas as horas um dos nossos morrem. E o que temos? Uma retratação.”, falou na sua conta do Twitter. Após a demissão oficial, ele comemorou o desfecho da história. “Grande dia”, escreveu.

Muitos outros atletas se manifestaram durante a semana, em apoio aos comentários de Douglas, como Carol Gattaz, Fabi Alvim e Sheilla Castro. Além disso, rumores de que uma marca assinada por atletas do Minas em apoio a Maurício foi entregue ao clube e desmentida por Maique Reis, William e Henrique Honorato. “Eu não assinei nada! E isso não me inclui. E continuo lutando pelos meus direitos e de nossa comunidade e de todo e qualquer tipo de preconceito. Isso que estão espalhando de eu apoiar algo é fake”, afirmou Maique.

Jogador de futebol assume ser gay na mesma semana

Enquanto, no Brasil, os preconceitos de Maurícios se tornaram evidentes, o jogador australiano Joshua Cavallo, do Adelaide United, da primeira divisão da Austrália, se tornou o primeiro jogador de futebol de elite em atividade a assumir sua homossexualidade. O rompimento deste tabu no mundo do esporte foi comemorado por muitos colegas e times na internet.

O atleta de 21 anos contou um pouco da sua história nas redes sociais. “Tem sido uma viagem para chegar a este ponto da minha vida, mas não podia estar mais feliz com a minha decisão de assumir a minha homossexualidade. Tenho lutado contra a minha sexualidade há mais de seis anos, e estou contente por poder colocar um fim nisso. Tudo o que quero fazer é jogar futebol e ser tratado com igualdade”, disse.

Além disso, Cavallo quer mudar a mentalidade de outros atletas para que eles se sintam confortáveis em ser quem eles querem no futebol, comentou em vídeo emocionante. Com apoio dos colegas de time, outros jogadores de elite compartilharam sua declaração, como Gerard Piqué, que escreveu: “Olá Josh Cavallo , não tenho o prazer de o conhecer pessoalmente, mas quero agradecer-lhe por este passo que está dando. O mundo do futebol está muito atrasado e você nos ajuda a seguir em frente.”

Outro jogador do futebol europeu que mostrou seu apoio foi Antoine Griezmann, junto com clubes como Arsenal, Barcelona, Juventus e Liverpool, agradecendo Cavallo pela coragem e pelo exemplo de inspiração para muitos.

Faltam menos de 100 dias para os Jogos Olímpicos de Inverno

            Mais uma competição internacional chega no radar dos amantes de esporte. Os Jogos de Pequim 2022 acontecerão entre os dias 4 e 20 de fevereiro e será a primeira vez que uma cidade terá abrigado tanto as Olimpíadas de Verão, em 2008, quanto de Inverno. É esperado aproximadamente 3.000 atletas e 109 eventos em 15 modalidades. São elas: biatlo, bobslead, curling, combinado nórdico, esqui alpino, esqui cross-country, esqui free-stlyle, hóquei no gelo, luge, patinação artística, patinação velocidade, patinação de velocidade em pista curta, salto de esqui, skeleton e snowboard.

De acordo com o site oficial, o evento terá o maior equilíbrio de gênero dos Jogos de Inverno, com a cota de mulheres aumentando de 41% em PyeongChang 2018, para mais de 45%. Com o slogan “Juntos por um futuro compartilhado”, Pequim 2022 marcará a nona participação brasileira na competição. “Ter a oportunidade de participar dos Jogos Olímpicos de Inverno demonstra o quão democrático o cenário esportivo brasileiro é e, principalmente, exemplifica o desenvolvimento do esporte brasileiro no cenário olímpico”, disse Sebastian Pereira, gerente executivo de Jogos e Operações Internacionais do COB.

Por enquanto, o Brasil tem apenas três atletas confirmados, duas mulheres e um homem no esqui cross-country, porém ainda não foi decidido quem serão os representantes dessas vagas. Além disso, ainda há competições pré-olímpicas para acontecer, o que promete mais vagas no evento. Jaqueline Mourão, uma das atletas com mais participações em jogos de inverno e verão, está praticamente confirmada.

De acordo com a Confederação Brasileira de Desportos no Gelo (CBDG) e a Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN), eles prometem quebrar o número de brasileiros presentes. A maior participação aconteceu em Sochi 2014, quando o Brasil foi representado por treze atletas em sete modalidades.

“O sistema de classificação para os Jogos foi desenhado, na maioria dos esportes de neve, para que as vagas sejam definidas na própria temporada dos Jogos. Assim, estamos na reta final de classificação e preparação para o evento. Em diversos casos, só teremos a confirmação das vagas a menos de um mês para a abertura de Pequim 2022. Por isso, os atletas brasileiros e suas equipes técnicas entrarão nas pistas em diversos países do mundo buscando a classificação ao longo dos próximos meses”, explicou Pedro Cavazzoni, CEO e Superintendente Técnico da CBDN ao site OTD.

Outro ponto de atenção nesse evento será a covid-19. Os protocolos do Comitê Olímpico Internacional (COI) apontam um programa de vacinação, junto com o apoio do Comitê chinês, que também se ofereceu para imunizar os participantes de países em que as vacinas originadas na China são aplicadas, caso do Brasil com a Coronavac. Mesmo com a imunização avançando e expectativa dos atletas já estarem vacinados, os protocolos contra a disseminação do vírus serão rígidos.

Foram publicados guias que serão impostos pelo COI no evento. Pequim 2022 terá orientação parecida àquela aplicada nos Jogos Olímpicos de Tóquio, com rastreamento de casos, isolamento e quarentena total, minimização de contato físico, limitação de circulação nos locais. O guia declara que se a pessoa – atleta ou funcionário de comissão – não for completamente vacinada 14 dias antes dos Jogos, terá que fazer quarentena por 21 dias após sua chegada na China.

A obrigatoriedade do uso da máscara também é algo ressaltado pelo guia. Apesar disso, os Jogos de Inverno devem ter público doméstico. É provável que o número de torcedores seja limitado, mas a organização tem expectativa de receber público nos locais de disputa. Ainda, este não deve ser o guia definitivo, que deve sofrer alterações no final do ano e caso a situação da pandemia sofra mudanças drásticas. “Caso não possamos proteger contra a covid-19, não teremos sediado a Olimpíada com sucesso”, disse Zhang Jiandong, vice-prefeito de Pequim, em um briefing nesta quarta-feira.

As medalhas do evento também foram reveladas essa semana. O Comitê Organizador de Pequim (BOCOG) declarou que as peças têm inspiração em pingentes chineses antigos e fazem referência aos símbolos dos Jogos Olímpicos de Verão 2008, comemorando que a cidade será duplamente olímpica.

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Foto: Reprodução/Instagram/@beijing2022
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