AQUI JAZ O JORNALISMO

Por Letícia Fagundes, Jornalista
O jornalismo, que historicamente se consolidou como um pilar da democracia e do pensamento crítico, encontra-se cada vez mais refém de narrativas ideológicas que relegam o rigor científico e a liberdade de expressão a um segundo plano. O ambiente midiático, que deveria ser um espaço de reflexão e questionamento, tem se tornado palco de perseguições virtuais, especialmente contra mulheres jornalistas que ousam desafiar determinados dogmas contemporâneos.
Na reportagem tratamos da necessidade de colocar em primeiro plano, na nossa pauta, os bebês e não adultos, onde sob qualquer ótica racional, deveria ser discutido com base em evidências e critérios científicos: o aleitamento materno e os impactos da hormonização de mulheres trans (biologicamente homens) na nutrição de bebês. No entanto, ao invés de um debate fundamentado e respeitoso, fomos alvos de um linchamento virtual, marcado por ataques de cunho misógino e depreciativo.
Fomos ofendidas e agredidas de “transfóbicas”, “burras”, “desequilibradas”, “vagabundas”, entre outras injúrias que revelam um padrão alarmante de silenciamento. O mais paradoxal? Grande parte dessas agressões partiu de homens jornalistas – em sua maioria homossexuais –, que, ironicamente, se autoproclamam defensores da diversidade e da liberdade de expressão. Mas onde está essa tão alardeada liberdade quando são mulheres que se atrevem a questionar pautas que as afetam diretamente?
A hipocrisia torna-se ainda mais evidente quando observamos que os mesmos indivíduos que pregam respeito e tolerância se sentem no direito de submeter mulheres a uma retaliação virtual brutal, promovendo ataques pejorativos e de caráter profundamente misógino. Essa violência psíquica e simbólica, frequentemente denunciada quando direcionada a determinados grupos, parece ser amplamente tolerada – e até incentivada – quando as vítimas são mulheres que destoam da narrativa hegemônica.
No entanto, é essencial destacar que essas vozes estridentes representam um nicho diminuto e radicalizado. O verdadeiro termômetro da sociedade não são os militantes que patrulham o pensamento alheio, mas sim o público, que demonstrou, de maneira inequívoca, sua aceitação e interesse pelo tema. A repercussão da reportagem foi majoritariamente positiva, com inúmeros leitores expressando apoio à abordagem e destacando como esse debate tem sido sistematicamente sufocado.
Mais preocupante ainda é a constatação de que o jornalismo contemporâneo tem sido amplamente financiado para promover debates desprovidos de embasamento científico, transformando veículos de comunicação em meros instrumentos de doutrinação ideológica. Questões que deveriam ser analisadas sob a luz da biologia e da ética médica são relativizadas em nome de uma agenda que se sobrepõe à objetividade e à verdade factual. Assim, temas fundamentais para a saúde pública são eclipsados por discursos que privilegiam a validação subjetiva em detrimento da realidade concreta.
Diante desse cenário, a pergunta que se impõe é: por que mulheres e crianças, principalmente, precisam ser difamadas e ignoradas em um debate que deveria priorizar a saúde e o bem-estar dos bebês? O foco desta discussão nunca foi a realização pessoal de um adulto, tampouco a validação de uma identidade. O que está em jogo é a nutrição de uma criança, cuja necessidade fisiológica não pode ser submetida aos desejos ou vontades individuais de terceiros. A maternidade jamais foi tratada pelas mulheres como um sonho pessoal, e a amamentação nunca esteve vinculada a uma realização subjetiva, mas sim à função biológica fundamental de alimentar um bebê. No entanto, essa questão foi sequestrada por uma ideologia que distorce a realidade e inverte prioridades. Ao invés de se concentrar na saúde infantil, a pauta foi deslocada para um campo ideológico onde as necessidades dos bebês são secundarizadas em nome da satisfação de adultos. Levantamos um questionamento legítimo e urgente, mas fomos brutalmente atacadas por uma militância que, ao invés de argumentar, recorreu a métodos de intimidação e linchamento virtual – práticas que não apenas silenciam mulheres, mas colocam em risco debates cruciais para a sociedade.
A perseguição ideológica transformou o ofício em uma arena de linchamento virtual, onde questionar determinados dogmas pode significar violência psicológica e física ou até mesmo ameaças à integridade física e mental dos profissionais.
O massacre do Charlie Hebdo, em 2015, deixou uma cicatriz profunda na história do jornalismo. O atentado, que resultou na morte de 12 pessoas e feriu outras 11 dentro da redação da revista satírica em Paris, foi um marco trágico que evidenciou o preço da liberdade de expressão em um mundo cada vez mais intolerante. O ataque foi perpetrado por aqueles que buscavam vingança em nome de um profeta, silenciando vozes críticas com tiros e sangue. Mas hoje, a vingança assume uma nova roupagem: não mais através de armas de fogo, mas da destruição reputacional, do assédio digital e da supressão sistemática de vozes dissidentes.
A lógica, contudo, permanece a mesma: não se trata de um embate de ideias, mas de uma guerra de aniquilação. Jornalistas que se atrevem a dar espaço a todas as visões são perseguidos, difamados e violentados. A retaliação, antes um fenômeno restrito a regimes autoritários, agora parte da própria classe jornalística. O que antes era um campo de diálogo e confrontação de argumentos, hoje se converteu em um campo minado, onde se pisa em ovos para evitar represálias.
O jornalismo não pode ser reduzido a um braço da militância. Questionar dogmas impostos não é um crime de pensamento, mas uma necessidade fundamental para o progresso da sociedade. Se continuarmos a permitir que apenas um viés ideológico tenha espaço, estaremos legitimando uma nova forma de censura, travestida de inclusão. E, como sempre, as maiores vítimas desse processo continuarão sendo as mulheres.