por Letícia Fagundes, Jornalista investigativa

Antes de tempestades fortes ou mudanças bruscas no tempo, muitos tutores relatam o mesmo comportamento: cães inquietos, gatos se escondendo e aves desaparecendo do céu. A ideia de que os animais percebem fenômenos naturais antes dos humanos atravessa culturas e gerações, mas até que ponto isso é mito, instinto ou ciência?

Busquei investigar o tema, nesta reportagem você vai ter a oportunidade de ler na íntegra a entrevista com uma veterinária brasileira, um líder indígena e um pesquisador europeu, além de acessar dados de estudos científicos sobre comportamento animal a eventos naturais, sendo que a ciência precisaria de muito mais apoio governamental para seguir a frente nas pesquisas.

 

O que diz a ciência

Pesquisas mostram que sim, muitos animais possuem sentidos muito mais sensíveis. Eles podem perceber:variações de pressão atmosférica,vibrações no solo,frequências sonoras muito baixas,mudanças eletromagnéticas no ambiente

Esses estímulos costumam anteceder tempestades, terremotos e até tsunamis.

Elefante após Tsunami 2004

Um exemplo emblemático ocorreu durante o tsunami do Oceano Índico em 2004, quando moradores e guardas de parques relataram que elefantes e outros animais fugiram para áreas mais altas antes da chegada das ondas. O episódio motivou pesquisas sobre a possibilidade de que animais percebam vibrações sísmicas ou mudanças ambientais antes dos humanos.

Estudos também indicam que aves podem alterar padrões     de voo diante de mudanças bruscas no clima e que rebanhos de gado podem demonstrar inquietação antes de tempestades intensas.

A medicina veterinária explica

Durante séculos, comunidades ao redor do mundo relataram comportamentos diferentes de animais pouco antes de desastres naturais. Cães inquietos, aves migrando repentinamente e até elefantes fugindo para áreas mais altas antes de tsunamis levantam uma pergunta recorrente: os animais conseguem perceber fenômenos naturais antes dos seres humanos?

Em trabalho a médica veterinária, Rosângela Gebara

A entrevista exclusiva a seguir que fiz com a médica veterinária e diretora de Relações Internacionais da Ampara Animal, Rosângela Gebara,  mostra que a biologia sensorial dos animais é um dos principais pontos para iniciarmos a investigação.

 

Quais sentidos são mais aguçados nos animais em relação a fenômenos naturais?

Os animais também têm um olfato muito mais apurado que os seres humanos. Muitas vezes, quando há liberação de alguns gases que estão no subterrâneo e ocorre um abalo sísmico, um terremoto, esses gases são liberados antes de acontecer o abalo sísmico principal. Então, os animais podem sentir isso. Alguns compostos orgânicos têm um cheiro diferente antes das tempestades, e os animais, que têm um olfato muito mais sensível, acabam tendo essa detecção mais cedo.

Dependendo muito da espécie, existem vários sentidos nos animais que são muito mais aguçados que no ser humano. Acredito que um deles seja a audição. Muitas espécies animais detectam frequências sonoras que nós, seres humanos, não conseguimos detectar. Os seres humanos conseguem escutar uma frequência sonora mais ou menos acima de 20 Hz. Os elefantes, por exemplo, detectam o que a gente chama de infra-som, que são frequências abaixo de 20 Hz, e podem detectar essas frequências a longas distâncias.

Os cães, a gente sabe que detectam frequências muito mais altas que o ser humano. O ser humano escuta som até cerca de 20 mil hertz. Já os cães conseguem detectar frequências de 40 mil hertz, 60 mil hertz, até 100 mil hertz, dependendo da raça e da idade do animal. Então, sons que estão muito distantes, ou sons inaudíveis para nós, eles acabam escutando.

Muitas aves também são muito mais sensíveis a determinados sons que o próprio ser humano não consegue escutar. Alguns fenômenos e alterações climáticas, como tempestades, deslizamentos de terra, terremotos, tsunamis e algumas ondas oceânicas, podem gerar à distância esses infra-sons. Esses infra-sons não são detectáveis pelos seres humanos, mas os animais acabam escutando. Aquilo que é inaudível para o ouvido humano pode ser percebido por eles muito antes.

Outra sensibilidade importante são as vibrações. Muitas vezes essas vibrações podem ser sentidas no solo pelos animais. Às vezes os elefantes têm receptores nos pés, os roedores têm receptores nos pés, e alguns répteis e insetos também conseguem detectar essas vibrações no solo muito antes, com muito mais capacidade do que o ser humano. Assim, eles podem detectar, muitas vezes, terremotos que liberam essas vibrações antes de acontecerem ou antes de serem detectados pelos seres humanos.

 

Existe consenso científico sobre animais detectarem vibrações ou alterações eletromagnéticas?

Sim, existe um consenso de que muitas espécies animais conseguem detectar vibrações de baixa frequência. Logicamente, não há um consenso científico de que isso funcione como um sistema confiável, um sistema preditivo, por exemplo, de terremotos.

A gente sabe que alguns animais apresentam comportamentos diferentes. Temos casos de elefantes que tiveram um comportamento incomum e fugiram para áreas mais altas em algumas ilhas da Tailândia antes do tsunami em 2004. Mas obviamente não conseguimos predizer isso nem obter resultados científicos que possam ser reproduzidos com consistência. Para isso, precisaríamos de mais pesquisas.

Arquivo pessoal: médica veterinária, Rosângela Gebara

Em relação às alterações eletromagnéticas, o consenso é ainda menor. A magnetorrecepção é comprovada. Os animais têm uma orientação baseada na magnetorrecepção e são capazes de detectar o campo magnético da Terra. Existe a hipótese de que eles também possam perceber anomalias associadas a alterações sísmicas.

Mas, no momento, isso ainda se baseia muito em relatos observacionais. Precisamos de mais experimentos científicos e de estudos replicáveis para confirmar essa relação. Existem muitos relatos, mas ainda não existe um consenso científico estabelecido.

Você acredita que o comportamento animal pode ser uma ferramenta de alerta precoce?

Após o terremoto que gerou o tsunami no Oceano Índico, em dezembro de 2004, tivemos vários relatos e testemunhas afirmando que elefantes na Tailândia se comportaram de maneira diferente antes do desastre. Eles ficaram agitados minutos ou até horas antes de as ondas atingirem as costas de diversas ilhas.

Moradores locais relataram que os elefantes começaram a emitir sons fortes, os chamados barritos, e muitos fugiram para áreas mais altas. Alguns romperam correntes e correram para regiões elevadas das ilhas. Muitas pessoas seguiram esses elefantes e acabaram se salvando porque foram para essas áreas mais altas antes da chegada do tsunami.

Os elefantes são conhecidos por detectar infra-sons e vibrações no solo. Eles conseguem perceber esses sinais através das patas e também da tromba. Assim, podem detectar vibrações sísmicas e ondas de baixa frequência que os humanos não conseguem perceber.

No entanto, quando pesquisadores tentaram replicar esse fenômeno, publicaram um trabalho na revista Biotrópica analisando dados de elefantes monitorados por GPS, principalmente no Sri Lanka. Nesse estudo, observaram que alguns elefantes não apresentaram esse comportamento de fuga.

Por isso, não houve evidência científica conclusiva de que todos os elefantes conseguem perceber com antecedência sinais de abalos sísmicos ou tsunamis. Ainda precisamos de mais pesquisas e de um consenso científico sobre isso.

Apesar de haver inúmeros relatos, ainda não podemos afirmar com certeza que os elefantes poderiam funcionar como um sistema oficial e confiável de alerta precoce. Os desafios incluem avaliar esse comportamento de forma replicável, além do risco de falsos positivos e da variabilidade natural no comportamento dos animais.

Quais seriam esses sentidos que tornam os animais mais sensíveis que os seres humanos?

Seriam vários sentidos: a audição, o olfato, a visão  em diversos animais muito mais acurada que no ser humano  e a detecção de vibrações no solo, que é muito mais sensível em determinadas espécies.

Temos evidências científicas bem estabelecidas de que a audição é muito superior em diversas espécies animais. Em relação à detecção de vibrações no solo, também há evidências científicas de que ela é mais sensível em várias espécies. O olfato, igualmente, é muito superior em diversos animais, e existem estudos científicos sólidos sobre isso.

Em trabalho a médica veterinária, Rosângela Gebara

A magnetorrecepção também está presente em várias espécies e é confirmada principalmente para navegação. Já a detecção pré-sísmica é considerada plausível, mas ainda um pouco controversa. Existem evidências científicas que falam dessa capacidade dos animais de perceber sinais antes de terremotos, mas isso ainda é debatido na comunidade científica.

O que podemos concluir é que diversas espécies animais têm capacidades sensoriais muito superiores às dos seres humanos. Por isso, conseguem detectar mudanças físicas, climáticas e ambientais que para nós são quase imperceptíveis.

Existem evidências plausíveis e muitos relatos de respostas antecipadas a fenômenos naturais, mas ainda não há consenso científico de que os animais possam prever desastres de forma consistente e replicável.

Eu creio que precisamos reunir mais relatos, analisar mais dados e realizar mais pesquisas sobre isso. Eu, Rosângela, como veterinária, observadora e amante dos animais, acredito particularmente que diversos animais têm essa capacidade de perceber fenômenos naturais antes dos seres humanos. Mas não posso afirmar categoricamente quais fenômenos são esses nem com quanta antecedência esses animais poderiam detectá-los.

 

Os povos tradicionais explicam

No Mato Grosso do Sul, um dos estados mais impactados pelo avanço da monocultura, pelas queimadas e pela perda de territórios tradicionais, comunidades indígenas têm testemunhado mudanças profundas no equilíbrio da natureza. A redução de áreas de mata, a fragmentação de habitats e a pressão sobre rios e solos alteram não apenas a paisagem, mas também o comportamento e a presença de diversas espécies animais.

Para muitos povos indígenas, observar a natureza sempre foi uma forma de compreender o ambiente e antecipar transformações. Mudanças no comportamento de aves, insetos e outros animais, variações nos ventos, no ciclo das chuvas ou nas fases da lua fazem parte de um sistema de conhecimento construído ao longo de gerações.

O professor indígena e biólogo Kunumi Ava Rory (Duadino Martines)

Nesta entrevista, o professor indígena e biólogo Kunumi Ava Rory (Duadino Martines), formado pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul e docente da Escola Estadual Indígena Mbo’eroy Guarani Kaiowá, na aldeia Amambai, compartilha a visão do povo Guarani Kaiowá sobre as transformações ambientais recentes. Ele fala sobre os impactos do confinamento territorial, a diminuição da fauna, os sinais observados na natureza e como o conhecimento tradicional indígena pode dialogar com a ciência na compreensão das mudanças climáticas e dos eventos ambientais extremos.

 

Nas regiões do Mato Grosso do Sul, as queimadas e a perda de território têm alterado profundamente o ambiente. A partir da sua vivência como indígena e biólogo, que mudanças no comportamento dos animais vocês têm observado nos últimos anos?

Nós, povo Guarani-Caiuá, somos um povo muito espiritual. Nós acreditamos que cada ser tem um Jara, um ser espiritual que protege e que cuida. Com toda essa mudança de confinamento em aldeias e da monocultura que fica ao redor, que o não indígena, o fazendeiro cultiva, isso alterou drasticamente essa questão do espaço. Isso afetou diretamente a presença dos animais.

Eu falo porque nós ainda preservamos um pouco desse meio ambiente na nossa aldeia. Para nós isso é importante, porque há muito remédio tradicional, muitas plantas medicinais que precisamos preservar no espaço onde elas estão, que precisam ser retiradas da mata. Então o pouco que temos a gente ainda preserva.

Muitos animais, insetos, aves e pequenos mamíferos vivem nesses lugares. Ou seja, com o desmatamento isso foi reduzido drasticamente e não existe mais essa questão, por exemplo, da caça. Nós vivíamos da caça. Hoje em dia, infelizmente, não tem como a gente caçar, porque se a gente caçar vamos acabar com o pouco que ainda existe.

Então as consequências das queimadas e do desmatamento realmente afetaram diretamente os animais e também a vida dos povos indígenas do estado de Mato Grosso do Sul.

 

Muitos povos indígenas tradicionalmente observam a natureza para entender sinais do ambiente. Antes de queimadas, secas ou mudanças climáticas mais intensas, vocês percebem alterações no comportamento de aves, insetos ou outros animais? Que tipo de sinais costumam aparecer?

Consequentemente, é preciso observar que a alteração do espaço onde vivemos, do meio ambiente, a partir do momento em que ele não é respeitado, afeta diretamente o ciclo natural das coisas.

Então vemos aqui no nosso país a questão da seca intensa ou das chuvas intensas, catástrofes que acontecem muitas vezes. Tudo isso é consequência da ação humana, infelizmente.

Nós, povos indígenas, tentamos manter um pouco preservado do que ainda temos. É muito difícil, porém, para nós que somos seres espirituais e mantemos essa ligação com o ambiente, isso é muito importante.

Por exemplo, para nós existe a questão do uso do baracá, que é aquele chocalho que a gente usa nos nossos rituais. Desde criança eu aprendi que nós precisamos respeitar as chuvas, os sinais, quando o vento muda de direção ou quando acontece um eclipse. Mudança de estação, mudança da lua, tudo isso interfere no espaço onde a gente vive.

E essa questão do baracá, desde criança eu aprendi que o grande Deus, quando ele vem muito furioso para a Terra, ao som de trovões e raios, quando você respeita esse espaço ao som do baracá ele vê que tem alguém que respeita e ele pacifica, e não acontece uma tragédia.

E isso está difícil de acontecer, porque os sinais são muito drásticos. É muito triste ao mesmo tempo, porque nós, seres humanos, no geral, sofremos as consequências. As mudanças realmente trazem sinais muito fortes e isso intensifica quando vem uma catástrofe ambiental.

Você mencionou que muitas comunidades indígenas foram confinadas em áreas menores, o que também afetou a presença de animais e o equilíbrio do ecossistema. Como essa perda de território impacta a relação entre os povos indígenas, a fauna e o próprio funcionamento da natureza?

Arquivo pessoal: professor indígena e biólogo Kunumi Ava Rory (Duadino Martines)

Como já havia mencionado, nós, povos indígenas, Guarani-Caioá, temos essa relação natural com o meio ambiente. Tudo o que precisamos retiramos do meio ambiente.

Se é uma planta medicinal, o lugar natural dela está na natureza. Se é um alimento, uma caça, uma fruta ou algo relacionado à natureza, está ali no espaço onde a gente vive. Nós retiramos apenas o necessário, para não prejudicar e para que possa ser reposto naturalmente pelo ambiente.

Nós, povos Guarani-Caioá, somos conhecidos historicamente como um povo nômade. Retirávamos o necessário e mudávamos de lugar para que a natureza pudesse se recompor. Com o confinamento isso deixou de acontecer.

Infelizmente fomos colocados em um espaço só. Até os lugares sagrados de rituais e os rios de onde eram retirados os peixes e a água para sobrevivência sofreram alterações.

Todas essas mudanças têm consequências. Elas afetam tudo ao nosso redor: aves, insetos, mamíferos, répteis e anfíbios, porque alteram o ciclo natural desses animais no espaço.

E isso faz com que, muitas vezes, o não indígena diga que surgem pragas nas lavouras e passe a usar inseticidas. Mas isso acontece porque houve uma alteração no equilíbrio natural.

 

Na sua visão, o conhecimento tradicional indígena sobre a observação dos animais pode contribuir para compreender melhor eventos ambientais extremos e mudanças climáticas? Como esse saber poderia dialogar com a ciência?

A nossa ciência, podemos dizer assim, porque eu sou professor indígena e trabalho essa questão na escola. O conhecimento tradicional Guarani-Caiuá, o conhecimento indígena e o conhecimento científico-tecnológico são saberes que nós temos. Atualmente também usamos muito o saber tecnológico.

Esses saberes têm sido utilizados como uma ferramenta para tentar minimizar toda essa questão do impacto ambiental que o planeta vem sofrendo. Isso é muito importante para nós.A questão do uso consciente, de preservar o que ainda temos e de trabalhar com a juventude para que o pouco que ainda existe possa ser preservado é fundamental.

Também é importante a questão do ensinamento, de dialogar com as crianças, com os jovens e com a comunidade. Nós vivemos em comunidade. Na cultura não indígena eu vejo que isso é muito difícil, porque existe o capitalismo e o individualismo. Mas nós, povos Guarani-Caioá, vivemos em comunidade. Tudo é feito em comum acordo. Temos liderança, temos cacique e fazemos reuniões. Tudo acontece dessa forma.Então para nós é muito importante a questão dos saberes, para nortear o nosso caminho e entender o que temos ao nosso redor e o que podemos fazer.

Por exemplo, pensar no que podemos fazer para que os animais retornem ao seu espaço: preservar, plantar árvores novamente, não poluir os rios, reduzir as queimadas e fazer um uso mais consciente.Porque, querendo ou não, nós também utilizamos muitos produtos não indígenas, o que gera produção de lixo. Então é preciso pensar no que pode ser descartado e no que pode ser reciclado.

Para nós, todo esse conhecimento é válido e importante para minimizar o impacto ambiental e, consequentemente, manter o equilíbrio natural das coisas.

 

O que falam as pesquisas internacionais

O comportamento animal pode oferecer pistas importantes sobre mudanças ambientais e eventos extremos. Busquei o entrevistado mais proximo dessas linha de pesquisa e achei na Alemanha o biólogo Martin Wikelski, diretor do Max Planck Institute of Animal Behavior,  e um dos responsáveis pelo projeto internacional ICARUS, que utiliza sensores e satélites para monitorar o movimento de animais ao redor do planeta.

Martin Wikelski, diretor do Max Planck Institute of Animal Behavior, na Alemanha

A partir desses dados, cientistas investigam como diferentes espécies respondem a fenômenos como tempestades, furacões, frentes frias e até terremotos. Embora o campo ainda seja relativamente recente, estudos já apontam que animais podem apresentar alterações de comportamento antes de alguns desastres naturais, possivelmente por perceberem sinais ambientais imperceptíveis para os humanos.

Para Wikelski, o monitoramento global desses padrões pode se tornar, no futuro, uma ferramenta complementar para compreender eventos extremos, integrando dados sobre biodiversidade, clima e mobilidade animal em sistemas de observação ambiental em escala planetária.

Com base nos dados globais de rastreamento de animais coletados por meio do ICARUS, já é possível identificar padrões consistentes de mudanças comportamentais antes de eventos climáticos extremos? Quais são os exemplos mais robustos até agora?

O estudo de eventos climáticos extremos ainda é relativamente recente e, a partir do rastreamento anterior com etiquetas ICARUS (2021–2022), temos alguns bons indícios de como aves, como os cuco, lidam com tempestades e ciclones extremos, mas ainda precisamos de mais dados. Em outros estudos, também temos bons indícios de como abutres em Cuba lidam com furacões ou como pombos-da-neve nas montanhas do alto Himalaia enfrentam frentes frias extremas. No entanto, todos esses exemplos ainda precisam de avaliação adicional. Atualmente, estamos trabalhando em uma publicação sobre as inundações extremas no Parque Nacional Kruger, onde rastreamos cerca de 1.500 animais. Contudo, primeiro precisamos que o estudo seja aceito por uma grande revista científica antes de podermos falar sobre os detalhes.

Como o monitoramento por satélite dos movimentos de animais pode contribuir para sistemas de alerta precoce relacionados a enchentes, secas ou tempestades severas?

Nós patenteamos essa abordagem e análise no DAMN. Em princípio, observamos a variação regular do comportamento de populações naturais e, então, detectamos quando o comportamento apresenta desvios extremos. Para nós, isso é um indicativo de que algum evento altamente inesperado está prestes a acontecer.

Existe evidência científica de que os animais percebem mudanças ambientais como alterações na pressão atmosférica ou nos campos magnéticos antes que os humanos consigam detectá-las? Como isso funciona biologicamente?

Em trabalho, Martin Wikelski, diretor do Max Planck Institute of Animal Behavior, na Alemanha

Sabe-se que diferentes espécies animais possuem sistemas sensoriais muito mais desenvolvidos, além de algoritmos neurais mais eficientes para interpretar seus sentidos. Basta pensar nos cães e em seu olfato. Além da percepção individual, existe também uma informação coletiva disponível por meio da interação entre os animais  uma interação entre sensores inteligentes que pode gerar propriedades emergentes de medição. Isso é o que muitos chamam de “sexto sentido dos animais”, algo que não é metafísico, mas sim regido por leis físicas e que é uma realidade. No entanto, ainda precisamos estudar esses fenômenos muito melhor.

Você acredita que o comportamento animal pode se tornar um indicador complementar em estratégias globais de adaptação às mudanças climáticas?

Estamos convencidos de que a Internet dos Animais (Internet of Animals) pode ser um indicador complementar muito poderoso. Isso também foi reconhecido recentemente com a criação do MoveBON.


Quais são os principais desafios éticos e tecnológicos para expandir o rastreamento de animais em escala global?

Essa é uma ótima pergunta. Para nós, o aspecto mais importante é sempre garantir que cada animal que carrega um dispositivo de rastreamento esteja seguro e bem. No entanto, sabemos que alguns de nossos dispositivos vestíveis para a vida selvagem podem impactar os animais. Se observarmos qualquer efeito prejudicial, interrompemos imediatamente a marcação daquele animal. De modo geral, estamos convencidos de que rastrear animais é benéfico para eles, e por isso assumimos que temos o direito de rastreá-los.
O maior desafio tecnológico é reduzir o tamanho dos dispositivos de rastreamento, para que sejam realmente “vestíveis”. Além disso, ainda precisamos aprimorar a inteligência artificial já implementada nesses dispositivos, para melhorar ainda mais a interpretação embarcada do comportamento animal.

Em um contexto de intensificação de eventos extremos, como você vê o papel da cooperação científica internacional na integração de dados sobre biodiversidade, clima e mobilidade animal?

A cooperação internacional é essencial e já começou a ser formalizada dentro do MoveBON.

Com base em pesquisas sobre comportamento animal e desastres naturais, existe algum exemplo específico de espécie cujo comportamento tenha sinalizado ou reagido claramente antes ou durante um desastre natural? Poderia citar um caso concreto e explicar o que foi observado?

Sim. Um exemplo concreto vem de um estudo realizado na Itália, chamado “Potential short-term earthquake forecasting by farm animal monitoring” do ano de 2020, publicado na Revista científica Ethology (revista internacional de comportamento animal publicada pela Wiley, durante a sequência de terremotos de 2016–2017 na região de Norcia. Nesse trabalho, pesquisadores instalaram sensores de monitoramento em animais de fazenda  principalmente vacas, cães e ovelhas  para registrar continuamente seus níveis de atividade.

Os dados mostraram que os animais apresentavam mudanças coletivas de comportamento antes de alguns terremotos. Os cães foram os mais sensíveis, tornando-se extremamente agitados após abalos sísmicos. Já as vacas inicialmente ficavam incomumente calmas e depois aumentavam sua atividade, muitas vezes reagindo ao comportamento dos cães. As ovelhas mostraram respostas mais fracas.

O aspecto mais interessante foi a identificação de comportamento antecipatório: em vários casos, níveis anormalmente altos de atividade foram registrados entre 1 e 20 horas antes de terremotos. O tempo de antecipação parecia estar relacionado à distância do epicentro  quanto mais próximo o terremoto, maior era o tempo de antecedência observado no comportamento dos animais.

Os pesquisadores sugerem que os animais podem estar respondendo a sinais físicos que precedem terremotos, possivelmente associados a processos geofísicos nas rochas sob pressão, como mudanças elétricas ou ionização do ar. No entanto, o próprio estudo ressalta que esses resultados ainda não permitem prever terremotos com precisão, e que são necessários monitoramentos mais longos e em maior escala para confirmar esses padrões.