A valorização da gastronomia em tempos de pandemia

Por Vivian Jorge, jornalista- RS 

vivian.jorge@mulheresjornalistas.com 

Editora Chefe: Letícia Fagundes, Jornalista 

Apesar de 2020 trazer inúmeros danos, o setor vem ganhando forças com o apoio de comércios locais e delivery

Quantas pessoas você conhece que se reinventaram, mudaram de área ou retomaram antigos sonhos nesse um ano de pandemia? E quantas vocês conhecem que, com os limões que a crise trouxe, fizeram limonadas nessa quarentena? Eu conheço muitas, inclusive, eu mesma. Assim como muitos setores precisaram lidar com os desafios sem precedentes, uma parte da população precisou acompanhar o momento atual.

Impossível escrever sobre qualquer assunto hoje sem mencionar a pandemia. O novo coronavírus não afetou apenas nossos hábitos alimentares, mas também nos privou de muitos momentos. Ir ao um bom restaurante, reunir a família nos fins de semana ou dar uma simples caminhada também mudou.

2021 mal iniciou e já contabilizou mais de 14 milhões de desempregados no país, segundo dados Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em relação ao ano de 2020, até fevereiro deste ano, cerca de 8 milhões da população entraram para as estatísticas por buscas de emprego durante a pandemia.

Em um contexto em que os consumidores mudaram rotinas e costumes diante de um novo cenário, muitos negócios precisaram se reinventar para permanecer com seus serviços. Com a gastronomia não foi diferente. Restaurantes se adaptaram, assim como o pequeno empreendedor viu na crise uma oportunidade de mercado.

Jornalista há 13 anos, mãe há dois, essa repórter que vos escreve também se reinventou. Desde que meu filho nasceu, não retornei presencialmente para o mercado de trabalho. Em 2019, entre o mestrado, a casa e o bebê recém-nascido, me dediquei aos freelas na área. Já em 2020, quando me preparava para o retorno presencial, buscando escolinhas, chegou a pandemia. Foi então que me vi mais um tempo em casa e pensei em empreender. Confesso a vocês que tive muito medo de iniciar um negócio em outro campo, o qual eu não tenho formação. Para ser sincera, até hoje tenho receio. Sempre gostei muito de cozinhar, mas nunca havia pensado em fazer do hobby algo rentável. Por ser muito chocólatra e formiga, a ideia de empreender no chocolate foi de primeira.  Busquei aulas online, vídeos, conversei com chefes formados e comecei os testes. Em outubro passado, criei a Santa Formiga Chocolates. Com um trabalho totalmente artesanal, encontrei na culinária, também, uma fonte de renda. É claro que não foi somente isso que mudou, já que a possibilidade de cuidar e acompanhar o desenvolvimento do meu filho de perto mais um ano pesou muito. Hoje, continuo com meu home office com pautas jornalísticas e produzo chocolates artesanais.

Nesse setor, as novas tendências também surgiram como oportunidades. Apesar do hábito de cozinhar crescer com o isolamento social entre os brasileiros, a procura por alimentos saudáveis aumentou. Um estudo realizado pela Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS) apontou que 36% dos consumidores passaram a inserir alimentos que consideram ser benéficos para a saúde em 2020.

Com uma história parecida com a minha, a secretária escolar, Cíntia dos Santos de Medeiros, 46 anos, mudou totalmente de área. Desempregada desde 2019, ela estava prestes a retornar para o campo da educação quando veio a pandemia, e foi na gastronomia artesanal e saudável que driblou a crise. “No início da  pandemia, estava tudo certo para retornar na minha área, fazendo adaptação na escolinha, mas logo tudo fechou e tive que desistir da vaga por não ter onde deixar meu filho de um ano e quatro meses”, diz.

Apaixonada pela confeitaria, Cíntia buscou a renda com doces tradicionais e funcionais e, há menos de um ano, abriu sua empresa. “A gastronomia é encantadora, desafiadora e impossível viver sem. Com a saída dos doces tradicionais, resolvi investir na área funcional. Hoje, a ‘Cíntia Doces Funcionais’ faz toda diferença na minha vida, e a parte financeira tem melhorado muito. Me faz muito feliz entregar um produto de qualidade e feito com muito carinho para as pessoas que buscam uma alimentação mais saudável ou com restrições alimentares”, explica.

Segundo dados da Rede de Mulheres Empreendedoras (RME), o empreendedorismo feminino cresceu 40% em 2020. Em sua maioria, na faixa etária de 22 a 35 anos, 54% das brasileiras investiram em serviços voltados para a alimentação, estética, beleza e moda. “Acredito que as mulheres têm alcançado cada vez mais espaço na sociedade, a duras penas com desigualdade salarial e de possibilidades, mas nossa capacidade de se reinventar é ímpar. Uma mulher consegue  fazer muitas coisas ao mesmo tempo, consegue encontrar solução para grandes problemas, empreender no meio do caos, conciliar trabalho, respeito e amor, cuidar dos filhos, da casa e, ainda, estende a mão buscando apoiar e fortalecer outras, porque sabe que juntas somos mais forte”, complementa Cíntia.

DELIVERY EM ALTA

A gastronomia proveniente do pequeno negócio também fomentou outra área que vinha em crescimento antes da pandemia, o delivery. A fim de acompanhar esse cenário pandêmico e os novos hábitos do distanciamento social, a jornalista e confeiteira Gabriele Lorscheiter Afonso, de 38 anos, sempre acreditou que em algum momento da vida se tornaria uma empreendedora. Ela conta que desde criança se encantava com a culinária e, na adolescência, quando foi prestar vestibular, pensou na gastronomia, mas escolheu a Comunicação Social. Em 2016, quando trabalhava em uma agência e na intenção de agradecer a recepção dos colegas, preparou uma nega-maluca. “O primeiro bolo que fiz na vida, aos 12 anos e que está no meu cardápio”, fala. Foi aí que tudo começou.

No mesmo ano, a jornalista consolidou a Didi Cake. Atualmente, em seu cardápio artesanal oferece pão de mel, brownie, bolos caseiros, festivos e tortas. “Acredito que a confeitaria seja um resgate, adoro comer e fazer doce. Sou uma entusiasta do empreendedorismo feminino, do quanto é difícil, porém libertador. Hoje meu trabalho faz sentido, tenho um propósito”, explica.

Porém, a pandemia trouxe incertezas não só para os grandes, mas também para muitos micros e pequenos negócios da área de alimentação, que tiveram que recorrer às redes sociais e aos aplicativos delivery, revela uma pesquisa feita pelo Sebrae em março de 2021.

Apesar das dúvidas e anseios em relação aos aplicativos de delivery e vendo a necessidade de realizar entregas, resolveu arriscar. “Estar nas plataformas é uma maneira de estar na vitrine. Entrei em outubro, mas desde lá já modifiquei algumas coisas, como o tipo de produto. Com a incerteza de volume de vendas e o risco de perder insumos, passei a oferecer apenas produtos menos perecíveis e até mesmo mais apelativos. Ainda não vi resultado efetivo de clientes que conheceram a Didi pelo app e depois se transformaram em clientes. Hoje, estou tentando trabalhar em dois horários no delivery”, destaca.

 

Por ser um serviço essencial e como apoio aos pequenos comerciantes, muitas plataformas de aplicativos delivery flexibilizaram as condições de uso do app, e, por outro lado, valorizando esse aumento na área da gastronomia. “Acho que a área da gastronomia vem numa crescente há alguns anos, muito em função dos programas de televisão. Comida é conforto, isso por si só já explica porque a gastronomia estourou na pandemia. Também, durante a pandemia, percebi que o incentivo às empreendedoras ganhou espaço, assim como também cresceram tipos de serviços oferecidos apenas para mulheres. Da minha maneira. tento girar essa roda, incentivo amigas que têm vontade de empreender, consumo produtos feito por mulheres e as indico, até mesmo na minha área. Acredito muito nessa ajuda mútua”, finaliza a proprietária da Didi Cake.

Nesse contexto, o Sebrae publicou dados que o Brasil caminha para recordes em número de empreendedores, indicando que, até 2021, 25% da polução brasileira adulta esteja envolvida com seu próprio negócio.

Há também quem mudou de área na pandemia devido ao desemprego e acabou adotando os aplicativos delivery a pedido dos clientes. Patrícia Preigschadt, de 32 anos, é técnica em saúde bucal e, durante a pandemia, ficou sem a sua principal renda, levando ela e o esposo retomarem um sonho antigo: empreender na gastronomia. Com a ajuda de um amigo, o casal comprou um trailer, na cidade de Santa Maria, para venda de xis, cachorro quente, sanduíches etc. “Escolhemos a gastronomia por ser uma área que com qualidade se vende sozinha. Tínhamos um sonho antigo de trabalhar nesse ramo, mas só após meu desligamento da antiga empresa que a ideia surgiu. Vimos nesse negócio uma oportunidade de complemento de renda. O Oficial Lanches deu tão certo que o delivery foi uma consequência, pois muitas pessoas começaram a buscar nossa empresa em aplicativos, nos fazendo migrar para essas plataformas, ressalta Patrícia.

Por outro lado, serviços que já vinham estruturados também tiveram que se adaptar a esse modelo em crescimento. Heraldo Almeida, sócio proprietário do Tasco Bistrô, explica como vem superando a crise com uma boa logística e muitas ideias. Localizado em Porto Alegre, o restaurante atendia de segunda a sábado somente ao meio dia com buffet livre, sem abrir aos feriados. Com a pandemia, nos meados de março, seu formato já precisou se adaptar às normas de funcionamento impostas pelo Decreto Nº 20,516 da Prefeitura de Porto Alegre, que proibia o funcionamento de restaurantes, bares, padarias e lanchonetes, exceto os estabelecimentos com serviço de delivery e pegue e leve no município.

 

Ele enfatiza que, inicialmente, o restaurante começou a trabalhar com entregas, delivery e take away (opção operacional em que o cliente retira seu pedido diretamente no estabelecimento). O cardápio também foi alterado, em vez do buffet livre, ofertavam três pratos como opções de almoço. “A pandemia nos obrigou a sair da zona de conforto e pensar fora da caixa para sobreviver. Não sabíamos a dimensão e quanto tempo ia durar, e tínhamos que pensar outras formas de nos reinventar. Contudo, tivemos um retorno muito gratificante e rápido com os novos formatos. Não tínhamos muita expectativa e nos surpreendemos. Acredito também que tenha sido pela localização do empreendimento”, conclui Heraldo.

 

Outras dinâmicas também foram aprimoradas com o crescimento da empresa na pandemia. Inicialmente, as entregas eram feitas pelos próprios colaboradores do Tasco e, logo, tiveram que contratar outra empresa para auxiliá-los. Outro ponto foram as embalagens dos pratos quentes que passaram a ser seladas. Segundo Heraldo, as máquinas seladoras foi um investimento para aprimorar e melhorar as experiências dos clientes, pois servem para manter a temperatura da refeição, evitar vazamentos, além de garantir a segurança alimentar e a proteção adequada.

 

 

As mudanças no cardápio também foram fundamentais. O sócio proprietário analisa que muitas ideias ajudaram no momento de crise. “Fizemos um Kit Feijoada, entregando em uma maleta para duas pessoas, que foi bem aceito. Como tínhamos medo de uma recessão financeira mais para frente, lançamos uma segunda marca: o Alecrim Dourado, que compunha pratos mais brasileiros, de comida caseira e com valores mais acessíveis. Esse atende somente delivery e tele entrega”, declara.

 

Contudo, aos poucos o pessoal que comanda o Tasco vem com novas opções, como congelados e acompanhamento nutricional, e investimentos. “Nós amamos o que fazemos. Para nós, com uma comida feita com amor e carinho, desde o atendimento até a entrega, o cliente sente esse diferencial. A tele entrega também veio para ficar, assim como o home office. Mesmo depois de reabrir o salão com todas as normas, as tele entregas continuaram em alta e hoje representam 50% do faturamento do Bistrô. Hoje também começamos a abrir o restaurante nos feriados. De certa forma, a pandemia nos proporcionou tudo isso. Espero que tenhamos uma retomada mais rápida e, quando tudo isso passar, sairemos mais fortalecidos”, finaliza Almeida.

Créditos: Brayan Martins/Paralaxe Fotografia

Antes da pandemia, o mercado delivery já vinha em alta, assim como as demais formas de entregas aos consumidores. Muitas foram as transformações em nossas vidas e a busca por criar diferenciais no setor valorizou a gastronomia. Com as pessoas em casa, o pequeno e o grande buscam se destacar e se reinventar para atender essa demanda. Afinal, a alimentação é um serviço essencial que vem mostrando que existem diversas oportunidades para o mercado.

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