Se 2020 foi o ano da máscara, 2021 será o ano da vacina

Notícias de que vacinas em teste estão em fase avançada e apresentando bons resultados elevam a esperança de imunização no primeiro semestre do próximo ano

Comentarista Melissa Rocha- RJ
melissa.rocha@mulheresjornalistas.com

O Brasil vivenciou nesta semana uma alta no número de novos casos de covid-19, após um período de relativa queda na taxa de contágio. 

Na última terça-feira, 23, foram registrados 31 mil novos casos de covid-19, 630 mortes em decorrência da doença, em um período de 24 horas – alcançando a marca de 170 mil óbitos –, e a taxa de contágio chegou a 1,30. O número significa que cada 100 pessoas contaminadas transmitem o vírus para outras 130. É a maior taxa de contágio registrada desde maio. 

Paralelamente, notícias de que estudos sobre vacinas contra a doença estão em fase avançada, apresentando bons resultados, acenderam a esperança de que a imunização pode começar a ser feita ainda no primeiro semestre do próximo ano. Duas vacinas apresentam resultados promissores: a vacina britânica produzida pela farmacêutica AstraZeneca, em parceria com a universidade de Oxford, e a vacina CoronaVac, produzida pelo laboratório chinês Sinovac, que vem sendo testada no Brasil pela Anvisa, em parceria com o Instituto Butantan.  

Mas ainda é preciso desmistificar as fake news que rondam as vacinas em teste. Para isso, sabemos que não podemos contar com a ajuda do governo federal, que tem uma postura negacionista e mesmo simpática a movimentos antivacina. Devemos, então, nos ater à ciência e a profissionais da área para a busca de informações confiáveis sobre a pandemia e a produção de vacinas. Com base em experiência, fatos e dados, eles podem elucidar os motivos pelos quais a vacina é segura. 

Uma delas é a Dra. Maria Isabel de Moraes Pinto, infectologista do Laboratório Exame. Ela explica à coluna que não há motivos para desconfiar de uma vacina, pois nenhuma é disponibilizada à população, antes de passar por rigorosos testes, que se dividem em duas fases: pré-clínica e clínica. Na primeira, a vacina é testada em animais para verificar a segurança e a produção de anticorpos por estímulo. Em seguida, ela entra na fase clínica, onde é testada em um pequeno grupo de indivíduos, geralmente adultos e sadios. Essa etapa é dividida em três fases, que verificam, respectivamente, a segurança da vacina, a produção de anticorpos e a eficácia. Na terceira e última fase, os indivíduos que participam dos ensaios são expostos ao vírus para averiguar a eficácia da vacina. A vacina da Oxford/AstraZeneca já passou por essa fase, apresentando uma eficácia de até 90%. A CoronaVac também entrou na fase três, e os resultados sobre a eficácia devem sair no próximo mês. 

Maria Isabel refuta as acusações de que a CoronaVac não seria eficaz por ser produzida na China, e destaca que o Brasil faz uso de muitos antibióticos produzidos no país. Ademais, não há possibilidade de a vacina ser administrada na população, sem antes receber o aval da Anvisa. E nesse ponto, ela destaca: “Por isso é muito importante que a gente tenha um órgão sério e que a Anvisa realmente continue a ser o que a gente conhece e tem de experiência. Um órgão compromissado com a saúde da população brasileira”. O argumento reforça um ponto que já foi alertado nesta coluna: a importância de impedir o aparelhamento e a politização da Anvisa.  

Vacina é vida. Foi graças a extensos programas de vacinação, implementados em décadas anteriores, que o Brasil conseguiu erradicar e controlar uma vasta gama de doenças imunopreveníveis. 

Os mais experientes conhecem bem a situação. Há cerca de trinta anos, o Brasil era um país atrasado no que se referia à imunização. Doenças como poliomielite, sarampo, tétano, meningite, coqueluche e difteria eram comuns e ceifavam a vida de crianças e adultos. A situação começou a mudar a partir da década de 1980. Programas de imunização em massa reverteram esse cenário e colocaram o Brasil como exemplo global no quesito vacinação. E mais: segundo um relatório do Ministério da Saúde, publicado em 2019, a maior cobertura vacinal é um dos fatores que levaram o Brasil a reduzir a taxa de mortalidade de 53,7 para 17,7 óbitos, a cada mil nascidos vivos, entre 1990 e 2011. Ademais, segundo a Sociedade Brasileira de Imunologia, entre 1940 e 1998, a expectativa de vida no Brasil aumentou em 30 anos, e esse aumento está ligado a redução de mortes por doenças infecciosas preveníveis por vacinas. 

Esses dados comprovam que defender o acesso universal à vacina é um ato de cuidado para com a população. E que não há nada de patriótico no incentivo contra a imunização, menos ainda na disseminação de informações inverídicas sobre vacinas. 

Se em 2020 a máscara foi a grande protagonista na proteção contra o novo coronavírus, a expectativa é que a vacina ocupe esse posto em 2021. E faltando alguns meses para isso, é preciso construir bases sólidas contra a desinformação em torno da imunização. 

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