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Eleições americanas colocam bolsonarismo em xeque

Em dois anos de mandato, Bolsonaro se dedicou a emular Trump. Como o presidente acomodará sua ideologia frente a uma possível vitória de Biden no pleito americano?

Comentarista Melissa Rocha- RJ
melissa.rocha@mulheresjornalistas.com

O mundo acompanha com atenção as eleições americanas. O pleito é considerado o mais importante do mundo, e não sem motivo. A escolha do nome que ocupará a Casa Branca tem impacto direto no xadrez da geopolítica global. 

No recorte do Brasil, o cenário é crítico, pois compromete a política de alinhamento automático – para não dizer cego – do governo brasileiro aos Estados Unidos. Em seus dois anos no Planalto, Bolsonaro apostou todas as suas fichas em emular o comportamento de Donald Trump. O Brasil passou seguir à risca a agenda americana, mesmo em pontos em que ela é prejudicial para os interesses nacionais. 

Há vários exemplos disso: a retórica agressiva contra a China – a maior parceira comercial do Brasil – adotada para demonstrar que o governo brasileiro está do lado de Washington na guerra comercial contra Pequim; as ameaças do Brasil de seguir os passos dos EUA e deixar o Acordo de Paris; a decisão do governo brasileiro de copiar a aproximação de Trump com Israel, que criou um mal-estar com países da Liga Árabe – que têm peso significativamente maior para as exportações brasileiras do que Israel. 

Todas essas ações foram pautadas por ideologia, sem levar em conta o impacto na economia ou na diplomacia brasileira. O objetivo era fazer da figura de Trump um selo de aprovação para o populismo de extrema-direita de Bolsonaro. Essa estratégia, agora, se encontra comprometida diante da possibilidade de vitória do democrata Joe Biden nas eleições americanas. Biden tem posições diametralmente opostas às de Trump – e, por extensão, de Bolsonaro – em uma gama de questões. Isso inclui as citadas no parágrafo anterior. Ele é defensor da pauta climática, quer um diálogo pragmático com a China e é contra medidas de aproximação com Israel que resultem em acirramento de tensão com países muçulmanos. 

Com as eleições americanas disputadas voto a voto, a grande questão para o Brasil é: como o presidente Jair Bolsonaro acomodará sua ideologia frente a uma possível vitória de Joe Biden? 

Uma coisa é certa: o governo Bolsonaro terá de dialogar com Biden, caso ele seja eleito. Criar uma rusga diplomática com os EUA não é uma opção, especialmente num momento em que o Brasil corre risco de isolamento no cenário global. Na Europa, o Brasil é visto hoje com desconfiança e como párea na questão climática. Na vizinha Argentina, principal parceira comercial do Brasil na América do Sul, as relações com o Brasil vivem um péssimo momento, fruto da postura infantiloide do governo brasileiro diante da vitória de Alberto Fernández nas eleições presidenciais. 

Além disso, paralelamente às eleições americanas, há uma mudança de ventos em curso na América do Sul, que segue o caminho oposto da ideologia bolsonarista. Recentemente, a Bolívia rechaçou nas urnas a extrema-direita, que promoveu no ano passado um golpe de Estado no país. Também foi nas urnas que os bolivianos responderam à violência contra populações indígenas em protestos. No pleito deste ano, mulheres e indígenas se tornaram maioria no Senado boliviano, algo sem precedentes na história do país. Outro sinal de progresso veio do Chile, que deu início à Constituinte que escreverá uma nova carta magna, substituindo a de Pinochet, ditador exaltado por Bolsonaro.  

Se a vitória de Biden vier a coroar o avanço progressista no continente americano, o governo brasileiro terá de se adaptar a todas essas mudanças e o bolsonarismo será obrigado a amadurecer em questões diplomáticas. Antes tarde do que nunca.  

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