Em busca de um abrigo: A luta diária dos refugiados

Luiza Esteves, Repórter  RJ
 
O Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) já reconheceu 11 mil refugiados no Brasil em 2018. Quem faz parte desse número é a congolesa Mireille Muluila. Ela fugiu do Kivu do Sul, província do Congo, por conta dos inúmeros conflitos armados que acontecem há quase vinte anos.
 
A guerra civil do Congo tem a participação de milícias e exércitos de países vizinhos e já deixou cerca de 6 milhões de mortos e desaparecidos. O conflito do Kivu ocorre entre três forças inimigas: as forças armadas da República Democrática do Congo (FARDC, grupo governamental formado por grupos de etnia tusti), o grupo Hutu Power das Forças Democráticas pela Libertação de Ruanda (FDLR, grupo de hutus de Ruanda) e o Congresso Nacional para Defesa do Povo (CNDP, da etnia tutsi).
 
Por conta da situação de conflito, a ONU busca auxiliar a República Democrática do Congo por meio de ajuda humanitária, tratando da malária, sarampo, cólera e desnutrição, infecções e traumas. Contudo ainda são frequentes as chacinas de homens, estupros de mulheres e sequestros de crianças para servirem de soldados nos grupos rebeldes.
 
Mireille soube de diversas barbaridades cometidas pelos grupos de rebeldes que estão em busca das reservas naturais do Congo. Ela presenciou o estupro de mulheres seguido de assassinato, assistido pelo marido e pelos filhos. Além disso, Mireille conta que os rebeldes forçam os pais a transar com os filhos. Casos eles não obedeçam às ordens são mortos.
 
“Nesse momento várias mulheres estão sendo estupradas. Precisamos denunciar esses casos e buscar formas de ajudar as pessoas. Você pode imaginar o trauma que a criança carrega ao assistir a morte da família toda?”
 
Em 4 de Setembro de 2014, ela veio para o Brasil com a irmã sem moradia ou trabalho. Sem ter notícias do restante da família, Mireille precisou batalhar muito para arrumar um emprego e se comunicar em português de forma compreensível. Quando ela chegou ao Brasil não sabia falar nada da língua nativa. A sorte de Mireille foi encontrar outros congoleses que poderiam conversar em francês, língua oficial do Congo.
 
Foi por conta da ajuda dessas pessoas que ela conseguiu tirar o visto e se virar no aeroporto, logo quando chegou. Depois de sair do aeroporto, Mireille foi com a irmã para a Polícia Federal solicitar refúgio. O procedimento consistia em responder perguntas em relação aos motivos pelos quais saiu do país de origem e depois era recebido um protocolo.
 
Em busca de um emprego, Mireille tirou carteira de trabalho, fez CPF e iniciou o curso de português. Mas, a realidade era bem mais difícil do que ela imaginava. Quando foi concorrer para uma vaga de emprego em Copacabana, ela conta que foi barrada por não saber falar o português fluente.
 
“Quando vim para o Brasil me senti como uma analfabeta. Não conseguia fazer nada sozinha, muito menos arrumar emprego”. Hoje ela trabalha na Cáritas como interprete, pois fala sete línguas e dialetos. A Cáritas é um Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio que a abrigou desde então.
 
Os recursos naturais da República Democrática do Congo financiam as milícias. O ouro, por exemplo, é contrabandeado para países vizinhos como Ruanda, Uganda e Burundi. Contudo, o Congo continua sendo um dos mais pobres do mundo, pois o local é explorado no trabalho pesado das minas e confiscado na sua produção agrícola, em torno de 10%, pelos rebeldes.
 
Essa realidade faz parte da vida de milhares de refugiados. Todos os dias pessoas como Mireille passam pela experiência de ter que mudar de país para fugir de guerras civis. Os refugiados buscam um local de paz que lhes ofereça a oportunidade de trabalhar e ter uma vida digna. O brasil tem sido um país que acolhe bastante os estrangeiros, mas ainda falta oferta de emprego.

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