Conheça as personalidades históricas citadas em “Da 5 Bloods”

Novo filme de Spike Lee traz poderosas figuras negras para o centro da discussão do papel da comunidade afro-americana na guerra do Vietnã

Por Regina Fiore- São Paulo

O novo filme do aclamado diretor Spike Lee, Da 5 Bloods (“Destacamento Blood, em português), estreou na plataforma de streaming Netflix esse mês trazendo a história de quatro amigos negros, veteranos de exército americano, que voltam ao Vietnã anos depois de terem lutado na guerra, que durou de 1955 a 1975.

O filme, como todas as outras obras do diretor, aborda a questão racial de uma maneira bastante única, trazendo pontos importantes sobre estereótipos e sobre uma pretensa hegemonia sobre o que é ser afro-americano. As questões relativas ao que é ser negro nos Estados Unidos é um tema bastante abordado pelo diretor, mesmo em filmes cujo enredo não gira apenas em torno de raça. Spike Lee é um dos diretores mais aclamados de Hollywood e dirigiu sucessos como Faça a coisa Certa, de 1989, O Plano Perfeito, de 2006 e Infiltrado na Klan, de 2018.

Na obra lançada com exclusividade pela Netflix, Lee traz referências de algumas figuras famosas muito importantes para o movimento negro norte-americano e mundial, que usaram sua voz e militância para lutar pela igualdade racial em um país que sofreu com leis segregacionistas durante décadas e onde os negros morrem seis vezes mais do que os brancos, sendo que a população de negros no país representa 11% da população total.

Conheça algumas dessas personalidades:

Muhammad Ali: Nasceu em 1942 e morreu em 2016, aos 74 anos, vítima de uma doença degenerativa. É considerado um dos maiores pugilistas de todos os tempos, tendo vencido 56 das 61 lutas que teve em sua carreira. Além de um pugilista de sucesso, ficou conhecido pelas duras críticas que travou contra a guerra do Vietnã, em especial em um discurso no qual disse “Nenhum vietcongue me chamou de crioulo, porque eu lutaria contra ele?”. Ali se recusou, em 1960, a lutar na Guerra do Vietnã, mesmo tendo sido convocado, como forma de protesto pela forma como os negros eram tratados nos Estados Unidos. Para ele, não havia sentido lutar por um país que trata seu povo de maneira tão cruel. O lutador também usou todo seu conhecimento sobre pan-africanismo para se posicionar como um desportista da África, mais uma vez criticando os Estados Unidos sobre a forma como os negros eram vistos e tratados pelo governo e pela população branca.

 

Malcolm X: Nasceu em 1925, foi registrado como Malcolm Little e assassinado em 1965. Malcolm X veio de uma família de ativistas. Seu pai era um dos grandes opositores da Ku Klux Klan, organização racista dos Estados Unidos que perseguia negros e incendiava suas casas como forma de afirmar a supremacia branca. O ativismo de seu pai fez a família de Malcolm se mudar de cidade duas vezes e sua casa foi incendiada sem que os bombeiros, brancos, fizessem nada para conter o fogo. Seu pai foi assassinado por supremacistas brancos em 1931, sua mãe foi internada numa clínica psiquiátrica e ele se seus irmãos foram para uma casa de adoção. Depois de uma juventude de dificuldades, Malcolm foi preso por furto e condenado há 10 anos de prisão, período em que conheceu a organização religiosa Nação Islã, ligada à religião muçulmana e que pregava a emancipação do povo negro, formando uma comunidade separada dos brancos. Malcolm X ficou conhecido pela sua excelente oratória, pelas ideias assertivas sobre o racismo e a emancipação do povo negro e por defender que os negros usavam o método que fosse preciso para combater o racismo, inclusive o uso da violência, questão central de muitas críticas que o ativista recebeu ao longo da vida. Depois de alguns anos, Malcolm começou a divergir das posturas dos líderes da Nação Islã e acabou sendo assassinado por eles, de acordo com os registros, em 1965, enquanto dava uma palestra.

Angela Davis: Nasceu em 1944 e até hoje é ativista dos direitos dos negros e das mulheres. Ainda jovem estudou Literatura em Nova York, Paris, San Diego e Frankfurt. Filiou-se ao Partido Comunista dos Estados Unidos e depois se associou aos Panteras Negras, grupo político e social de combate ao racismo mais famosos dos EUA que chamou sua atenção pelo posicionamento não machista com as integrantes mulheres. As ações dos Panteras Negras contra a violência policial eram mal vistas pelo governo e, apesar de suas tentativas pacíficas de diálogo, seus membros foram presos, entre eles Angela Davis, que foi acusada de ser uma das ativistas mais violentas que liderava o grupo. Davis foi perseguida pelo FBI, presa em Nova York e passou 18 meses aguardando seu julgamento. Sua prisão mobilizou intelectuais e celebridades do mundo todo, sua popularidade assustou o governo americano e ela foi inocentada em 1972, por falta de provas. Depois disso, continuou militando a favor do feminismo negro, da defesa da população negra e contra o sistema carcerário dos EUA. Escreveu vários livros e hoje é professora Departamento de História da Universidade da Califórnia.

Aretha Franklin: Nasceu em 1942 e morreu por causa de um câncer no pâncreas em 2018. Foi considerada a maior intérprete feminina de todos os tempos pela revista Rolling Stones. Foi pioneira tanto como mulher quanto como artista negra em diversas áreas do entretenimento, sendo chamada muitas vezes de “Rainha do Soul”. Aretha cantava também ritmos como R&B, jazz, rock, pop, blues e até ópera. Tem mais de 75 milhões de discos vendidos pelo mundo e, em 2019 recebeu de maneira póstuma o Prêmio Pulitzer de Citação Especial, “por sua contribuição para a música e para a cultura americana por mais de cinco décadas”. Durante toda sua vida, Aretha esteve envolvida na luta pelos direitos civis da população afro-americana, inclusive doando dinheiro para os grupos militantes e participando ativamente fazendo shows em prol da causa. Não se alinhava a causa comunista, mas apoiava os direitos das mulheres negras, sendo que uma de suas músicas mais famosas, Respect, se tornou um hino simbólico do feminismo negro nos EUA. Aretha também era uma grande apoiadora da população de nativos americanos.

Martin Luther King Jr: Uma das maiores personalidades do século XX, nasceu em 1929 e foi assassinado por um homem racista em 1968. Liderou, durante as décadas de 50 e 60, a luta pacífica pelos direitos civis dos negros dos EUA. Sua capacidade cativante de discursar em público e agregar milhares de pessoas em manifestações pacíficas contra as leis de segregação racial dos estados do Sul dos EUA, além de toda sua simbologia histórica e importância política, lhe rendeu o prêmio Nobel da Paz em 1964. Antes de se tornar conhecido por seus discursos e manifestações, King foi pastor em uma igreja protestante do Alabama, estado que sofria com as leis de segregação racial. Martin Luther King ficou famoso ao se posicionar no caso de Rosa Parks, uma mulher negra que foi presa por se recusar a se levantar de um banco de ônibus destinado para brancos, ceder seu assento a um homem branco e se dirigir aos assentos reservados para pessoas negras. Em 1963, King falou em Washington, capital dos EUA, para mais de 250 mil pessoas o famoso discurso “Eu tenho um sonho”, que até hoje é símbolo da luta pelos direitos civis dos negros americanos.

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