Vontade de encher tua orelha de perguntas

Corrente de solidariedade em apoio a repórter atacado pelo presidente reflete união da categoria diante de um governo avesso à imprensa 

Comentarista Melissa Rocha- RJ
melissa.rocha@mulheresjornalistas.com

“Vontade de encher tua boca na porrada”. A frase, que parece retirada de um diálogo de briga de bar, na verdade foi proferida pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, para se esquivar de uma incômoda pergunta, feita por um repórter do jornal O Globo. 

O que o presidente não esperava era que seu desejo de calar a imprensa na base da violência se convertesse exatamente no oposto. Quase imediatamente após o ocorrido, colegas de profissão formaram uma corrente de solidariedade em apoio ao repórter. Nas redes sociais, incluindo nos perfis oficiais de Bolsonaro, não faltou jornalista replicando a pergunta que tanto incomodou: presidente, por que sua esposa, Michelle, recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz? 

A corrente ultrapassou os limites da categoria, foi replicada por inúmeras pessoas e o presidente, em sua fracassada empreitada, acabou sendo questionado mais de um milhão de vezes. 

A demonstração de união entre jornalistas é uma resposta à escalada de ataques do governo contra a imprensa. A lista de ataques é grande e data desde antes da posse de Bolsonaro – que já chegou ao Palácio da Alvorada ameaçando retirar a verba ou suspender a concessão de veículos que, em suas palavras, “se comportassem de maneira indigna”. 

Em contraponto, jornalistas vêm dando exemplos de que estão cada vez mais unidos diante de um governo totalmente avesso à imprensa. O protesto desta semana não foi a única demonstração. Em fevereiro deste ano, milhares de jornalistas saíram em defesa da repórter Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, alvo de uma ofensa de cunho sexual proferida por Bolsonaro. Na ocasião, quase três mil mulheres jornalistas assinaram um manifesto em apoio à repórter. Em maio, após o presidente ordenar, aos berros, que repórteres calassem a boca em uma coletiva, jornalistas se uniram em um protesto intitulado “Não me calo”. 

A liberdade de imprensa é um dos pilares de uma democracia. Porém, falta a Bolsonaro a maturidade emocional necessária para lidar com críticas ou questionamentos. Em seu delírio de poder absoluto, ele chegou ao Planalto com a ilusão de uma mídia bajuladora, que divulgasse seus atos sem questioná-los. 

Decepcionado por não poder controlar o que a imprensa publica, o presidente recorre a outras táticas: tenta desacreditar a mídia e ataca verbalmente jornalistas, atiçando seus apoiadores a fazerem o mesmo. Isso abre um precedente perigoso para o exercício do jornalismo no Brasil, conforme indicou o mais recente relatório da Repórteres sem Fronteiras. O país vem caindo ano após ano no ranking de mundial de liberdade de imprensa da organização. Atualmente, ocupamos a 107ª posição, entre 180 países analisados. Entre países sul-americanos, estamos à frente apenas de Bolívia (114ª), Colômbia (130) e Venezuela (147). 

O cerceamento à liberdade de imprensa no Brasil não é algo novo, e não vem apenas do Planalto. Em 2016, por exemplo, jornalistas da Gazeta do Povo, do Paraná, foram alvos de retaliação por conta de uma reportagem sobre supersalários de juízes e promotores do estado. Sob o argumento de que foram ridicularizados pelas reportagens, magistrados abriram dezenas de processos em diferentes cidades do Paraná, obrigando os jornalistas a iniciar uma caravana pelo estado para comparecer a audiências. Tratava-se claramente de uma ação orquestrada em retaliação às reportagens – ação essa que acabou suspensa pela ministra Rosa Weber, do STF. 

Casos como esse, somado ao agravamento dos ataques contra a imprensa após a chegada de Bolsonaro à presidência, sinalizam a necessidade de união na categoria. Independentemente do veículo ou linha editorial, é preciso deixar bem nítida a mensagem: estamos aqui, não vamos nos calar e continuaremos enchendo sua orelha de perguntas. 

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