Liguem os celulares, o teatro vai começar

Por Giulia Ghigonetto-São Paulo
giulia.ghigonetto@mulheresjornalistas.com

 

A pandemia atingiu com tudo o setor cultural e exigiu mudanças na estética e formatos de espetáculos teatrais

O teatro, mais do que um espaço, sempre foi composto por atos de resistência, crítica, análise social. Para a atriz Bella Rodrigues, “Teatro é o lugar onde tudo acontece: a cena, o encontro com o público, a troca entre aquele que mostra e aquele que vê, tudo isso no mesmo espaço e tempo.” 

Mas o que acontece quando esses ambientes de atuação se tornam propensos a disseminação de doenças e obrigados a fechar as portas (e as cortinas)? Foi exatamente isso que aconteceu com os espaços culturais diante da pandemia de Covid-19. 

Esqueçam a regra básica de desligar os aparelhos celulares antes do espetáculo, porque a situação exigiu uma série de adaptações, levando à exploração do teatro digital. O famoso Teatro Oficinal, companhia com mais de 60 anos de existência, por exemplo, disponibilizou parte do registro de suas peças no Youtube. O site Espetáculos Online reúne conteúdos teatrais hospedadas em plataformas digitais. 

Rodrigues também faz parte da safra de artistas se ajustando ao nosso cenário. Ela e o seu grupo, o Núcleo Pequeno Ato, foram ainda mais ambiciosos e estão apresentando uma peça online ao vivo. 

Dirigida por Pedro Granato, o espetáculo musical “Caso Cabaré Privê” é feito por jovens atores, em resposta direta às questões políticas e sociais que os afligem no Brasil em 2020.

Na trama, o filho do presidente (denominado FDP) é encontrado morto em um cabaré e o público é convidado a investigar as pistas antes do anúncio oficial para imprensa em um verdadeiro jogo de Detetive. Nenhuma performer do estabelecimento pode sair e começam as interrogações conduzidas por um delegado, então o público é direcionado para cabines privê e pode interrogar as personagens. 

Os atores fazem a encenação em tempo real, atuando e interagindo de forma improvisada com a plateia, que assiste tudo direto de suas casas. 

“Assim que começou a pandemia migramos os ensaios para plataforma online. Começamos a experimentar diferentes formas de relação e interação pensando uma estética voltada para esses tempos.”, disse Granato.

O formato já faz parte da pesquisa do diretor, que estreou em 2019 o espetáculo “Babylon: Beyond Borders”, encenado simultaneamente em quatro países com transmissão ao vivo pela internet. Além disso também fez a peça “País Clandestino” que foi desenvolvida por cinco diretores, um de cada país, o que tornou a comunicação virtual inevitável. 

Ele conta que como já tinha experiência com espetáculos online, havia uma certa tranquilidade de que isso poderia ser feito. “O maior desafio de produzir, no único formato possível de se fazer nesse momento, foi buscar novas maneiras para resolver os problemas.”

Para a adaptação, os atores usaram suas próprias casas como cenário. “O Renan Ramiro [um dos atores] pensou em tudo. Nós mandávamos fotos dos espaços que tínhamos no nosso quarto para fazer a peça e ele ia nos ajudando a pensar o que colocar no fundo, que luz usar. A minha luz vermelha por exemplo, é um abajur com um balde rosa em cima e uma camisa amarela.”, explicou Rodrigues, que é aluna de Artes Cênicas da USP.

A dinâmica de ensaio também enfrentou mudanças uma vez que o grupo não poderia se reunir fisicamente. Foi preciso passar por um processo de ressignificação do espaço para enxergar aquele ambiente como um verdadeiro cabaré.

Paralelamente, é possível observar aspectos positivos deste novo formato, uma vez que a quarta parede, neste caso, é quebrada. A atriz acredita que mesmo que a relação com o público seja fisicamente distante, ao mesmo tempo, o ambiente virtual trás uma oportunidade muito mais íntima, já que estão entrando, de certo modo, na casa do espectador para fazer a peça e vice-versa. 

Isso também trouxe a chance de explorar uma plateia diferenciada que antes não se interessava em ir até o teatro. “Estamos sentindo um engajamento muito maior de uma parcela mais jovem do público, principalmente quem gosta de ficar online.”, notou Rodrigues. Já o diretor conta que isso trouxe até espectadores de outros estados e países. 

E o incentivo, cadê?

Ao adquirir os ingressos, o público pode colaborar com um valor a mais, uma maneira de incentivo a cultura, que tem enfrentado dificuldades no período de quarentena, diante do descaso com o setor cultural por parte do Governo Federal e da Secretaria Especial da Cultura, agora comandada pelo ator Mário Frias.

Também coordenador do Departamento de Teatros e Centros Culturais da Secretária Municipal de São Paulo, Granato até ousa dizer: “Que incentivo? Fora da esfera municipal, não vi nenhuma. E acho que o que fizeram no governo estadual seja algo muito tímido”. 

Por conta disso, a migração em massa dos artistas para o universo digital se mostrou uma saída alternativa para se evitar a perda total de ganhos.

Essa nova forma de apresentação reacende ou até mesmo intensifica o questionamento do que se é teatro. Retomando ao conceito apresentado no início do texto, Bella diz “Não sei se o que estamos fazendo agora é teatro, ou tem algumas características do teatro, mas acho que estamos de fato fazendo algo ao vivo, que depende muito da participação do público.”

Para Grananto, tudo sempre esteve em transformação, o teatro, inclusive, precisa potencializar sua presença, o fato de ser efêmero, de acontecer ao vivo. “Com isso, acho que várias ferramentas do teatro têm ganhado muita força nos últimos tempos justamente para se diferenciar de um entretenimento que já tá pronto e embalado que você vai lá e aperta play.” E ele se questiona de como que as peças podem se tornar interativas, imersivas, pós-dramáticas, performáticas, que tragam essa sensação de efemeridade para o teatro?

Se o teatro virtual veio para ficar é algo ainda difícil de se definir, mas com certeza essa possibilidade de imersão e interação ao vivo, direto de suas casas, será uma tendência que ainda pode se multiplicar (e muito). 

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